quarta-feira, 25 de março de 2015

Uma biblioteca humanista




“Em última análise, os livros, como os homens, cruzam os países, os continentes e os oceanos. Ser-me-ia grato, porém, sublinhar que, companheiros dos homens que os amam, eles sabem procurar aquele que com eles conversam. Objectos nobres por excelência, concebidos e realizados pelo génio humano, são eles que nos procuram, são eles que nos encontram e neles podemos ter sempre a certeza de descobrir uma palavra de conselho, de advertência e de amor!”
Estas palavras de José Vitorino Pina Martins podem ser lidas na sua obra Histórias de livros para a história do livro. Nela o coleccionador narra o modo como adquiriu alguns dos exemplares mais valiosos da sua biblioteca, umas vezes por compra, outras vezes por troca com outros livros que tinha adquirido.

A primeira vez que ouvi falar na biblioteca de Pina Martins foi através de uma reportagem no jornal O Independente. Ali se falava do gosto do coleccionador por obras renascentistas e das alegrias que os livros obtidos lhe proporcionavam. Essa felicidade foi transposta para a exposição Uma Biblioteca Humanista – Os objectos procuram aqueles que os amam que pode ser visitada na Fundação Calouste Gulbenkian até ao próximo dia 25 de Maio. É uma mostra pequena mas onde se encontram não só algumas das obras emblemáticas do coleccionador, mas também os seus papéis de trabalho e reflexões sobre a aquisição daquelas. Quando se lêem as mesmas com atenção vemos que não é o valor económico das obras, mas antes o seu conteúdo e a sua história que são valorizados. Mais ainda: quem já andou a percorrer livrarias e alfarrabistas à procura de um determinado título e teve depois a alegria de encontrar o volume pretendido pode rever-se no encanto com que Pina Martins fala dos seus livros. 


segunda-feira, 23 de março de 2015

Plano de evasão




       Foi Pina Martins, reputado bibliófilo (parte do seu espólio está em exposição na Gulbenkian) quem disse que os objectos procuram aqueles que os amam. Eu e este livro encontrámo-nos à saída da Casa Museu Dr. Anastásio Gonçalves e já não nos largámos.
          Jeff Fuchs é explorador, montanhista e escritor. Teve a ideia de recriar o trajecto das caravanas do chá e dos cavalos por estradas que ligam o Tibete e a China. A rota teve como primeira viajante uma princesa chinesa dada em casamento ao rei tibetano. Da sua bagagem faziam parte folhas de chá que conquistaram os seus novos súbditos. Em contrapartida, os tibetanos enviavam aos chineses os seus cavalos, cuja resistência e força eram preciosos às ambições militares do Império do Meio. E assim se iniciou um trajecto que se tornou uma das mais viajadas rotas orientais. Os tempos são outros mas Fuchs, em aventureiro dos tempos modernos, decidiu fazer esta viagem com os muleteiros. Este livro é o relato das alegrias, fadigas e perigos da viagem. Ainda estou no início e tenho de admitir que o meu espírito aventuroso na vida real situa-se a níveis medianos. Não me imagino a fazer a viagem de Fuchs face ao tempo de duração (oito meses) e à resistência física que exige.Já para não falar dos perigos físicos, claro. 

Mas ler as suas aventuras foi uma forma esplêndida de terminar a noite de ontem. Ainda vou no início do livro pelo que tenho a esperança de uma destas noites ser transportada em sonhos para o sopé dos Himalaias, ver tudo sem grande esforço físico (a vantagem das viagens em livro e em quimera) e regressar a tempo do pequeno-almoço. 

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mal-entendido em Moscovo, Simone de Beauvoir




Simone de Beauvoir nasceu em Paris em 1908 no seio de uma família burguesa. O seu nome é sobejamente conhecido. A sua obra O segundo sexo é considerada um marco da literatura feminista. Foi filósofa e escritora, com vasta obra publicada em qualquer dos terrenos.  Beauvoir é uma daquelas figuras que não eclipsa pela sua obra tendo-se antes eternizado através dela. Para isso contribuíram alguns trabalhos de matriz auto-biográfica, como As memórias de uma menina bem comportada e A velhice. Mas não só. Na construção do ícone em que se tornou assumiu também relevo a sua relação com o filósofo francês Jean Paul Sartre. Essa relação amorosa iniciou-se em 1929 e prolongou-se durante décadas até a morte do primeiro. Ainda hoje continua a ser um dos pontos de maior curiosidade quanto a qualquer um dos dois, tendo gerado já centenas de páginas, grande parte das quais destinada a afastar a cortina de fumo idealizadora que durante décadas os envolveu.
Mal-entendido em Moscovo é uma curta novela escrita por Beauvoir destinada a integrar a sua obra A mulher destruída, o que acabou por não suceder. Relata a história da viagem de um casal já de alguma idade à então capital soviética para visitar a filha/enteada. No decurso da visita os ressentimentos familiares vão ganhando corpo e marido e mulher dão por si a reflectir no muito que deram à relação amorosa e no saldo da mesma. São os seus pensamentos que vamos conhecendo à medida que as personagens recordam Moscovo, onde tinham já estado em visita anterior.
Para além dos seus ensaios filosóficos e feministas Beauvoir celebrizou-se pela forma como tratou um tema sempre ingrato – a velhice. É o que sucede nesta breve narrativa, com as personagens a pensarem sobre o que fizeram na vida e o que gostariam de fazer, mas sabem que não irão levar já a cabo. Nesse sentido, esta é uma obra difícil de ler. No nosso dia a dia, a consciência da finitude não está sempre presente. Aliás, nas sociedades contemporâneas a morte é escondida e dos antigos ritos ligados à mesma sobra pouco (apenas os velórios e os funerais propriamente ditos). Por outro lado, grande parte de nós não anda por aí diariamente em reflexão existencialista sobre as consequências de agir ou não. E, no entanto, no cômputo geral, todos os dias, todas as acções e omissões contam. Neste aspecto, ler obras sobre a velhice é bastante enriquecedor, pois permite-nos pôr em perspectiva determinados acontecimentos da nossa vida.
Esta obra de Beauvoir pode abrir o apetite, não apenas para melhor conhecer a sua obra, mas para abraçar a leitura de obras mais reflexivas, de pendor existencialista. Por mim, posso dizer que uma das que mais me marcou foi Para sempre de Vergílio Ferreira, também ele um romancista e ensaísta da escola do existencialismo. O protagonista regressa já idoso à aldeia da sua infância acompanhado das reminiscências da sua vida. Quando terminei a leitura desse livro percebi que nada em mim seria como antes. E parece-me que a mudança que se operou em mim foi para melhor. Mas, claro, sou suspeita.  

sexta-feira, 6 de março de 2015

O regresso da Livros do Brasil




Fundada em 1944 a Livros do Brasil regressa hoje ao mercado com esta colectânea de contos de Truman Capote. A mim, as capas desta editora recordam-me tardes felizes de adolescência quando as longas férias escolares do Verão equivaliam a imenso tempo para ler. Foi através das suas colecções que descobri autores como Virginia Woolf, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo e Somerset Maugham. Por isso, a notícia do seu regresso deixou-me algo nostálgica. Mas com uma nostalgia feliz, diga-se.  

quarta-feira, 4 de março de 2015

Zoran Zivcovic, O grande manuscrito e O último livro

Gosto de livros sobre livros. E foi essencialmente isso que me conduziu à compra de O Grande Manuscrito o mais recente livro de Zoran Zivkovic´
Como se fosse uma personagem de um dos seus livros (ou talvez de Se uma noite de inverno um viajante de Italo Calvino) senti-me atraída pela capa misteriosa e pela promessa de mergulhar num policial bibliófilo com elementos de fantasia.
O protagonista de O Grande Manuscrito é o inspector Dejan Lukic´ membro da polícia de Belgrado. O mistério que é chamado a resolver diz respeito ao desaparecimento de uma famosa escritora a poucos dias de entregar ao editor mais um dos seus aguardados livros. O ambiente livresco não é passageiro na obra. Sob uma certa leveza narrativa (apesar do acumular de cadáveres à medida que a acção avança) Zivkovic´ explora alguns dos grandes temas do mundo editorial de hoje ao mesmo tempo que introduz a magna questão da busca da imortalidade. E se não há poção mágica que a garanta não poderá o segredo da vida eterna estar encerrado num livro?
O Grande Manuscrito pode ler-se separado da demais obra de Zivkovic´. Mas, como gostei do estilo do autor e percebi naquele livro referências a uma obra anterior, fui ler O Último Livro.

            Morrer numa livraria pode ser para muitos leitores o mais próximo possível de uma morte perfeita. Mas convém assegurar que não se vai para o outro mundo antes da nossa hora. Na livraria Papyrus um conjunto de mortes suspeitas convoca o Inspector Lukic´, determinado a mostrar que a sua condição de polícia não é irreconciliável com a de leitor. Se em O Grande Manuscrito é a imortalidade que se procura em O Último Livro há uma piscadela de olho à leitura derradeira, ao fruto proibido, recordando O Nome da Rosa onde uma obra de Aristóteles vai espalhando o castigo pelos leitores mais destemidos e incautos.

            A escrita de Zivkovic´ é vigorosa e clara. Embora a acção se mova numa realidade que não corresponde aos padrões clássicos de um policial tem todos os requisitos para ser integrado no género, ainda que com um toque de fantasia e recursos estilísticos um pouco diversos, evidentes sobretudo no modo como o narrador se relaciona com a personagem principal, num jogo de livro dentro do livro. Mas para além da fantasia Zivkovic´ introduz ainda temas bem mais terrenos como as rivalidades policiais, a omnipresença de uma polícia secreta (e os livros como um último reduto de liberdade não vigiada) e o amor. Em suma, um prato cheio para esta leitora. E a repetir brevemente.