Simone de
Beauvoir nasceu em Paris em 1908 no seio de uma família burguesa. O seu nome é
sobejamente conhecido. A sua obra O
segundo sexo é considerada um marco da literatura feminista. Foi filósofa e
escritora, com vasta obra publicada em qualquer dos terrenos. Beauvoir é uma daquelas figuras que não eclipsa
pela sua obra tendo-se antes eternizado através dela. Para isso contribuíram
alguns trabalhos de matriz auto-biográfica, como As memórias de uma menina bem comportada e A velhice. Mas não só. Na construção do ícone em que se tornou assumiu
também relevo a sua relação com o filósofo francês Jean Paul Sartre. Essa
relação amorosa iniciou-se em 1929 e prolongou-se durante décadas até a morte
do primeiro. Ainda hoje continua a ser um dos pontos de maior curiosidade
quanto a qualquer um dos dois, tendo gerado já centenas de páginas, grande
parte das quais destinada a afastar a cortina de fumo idealizadora que durante
décadas os envolveu.
Mal-entendido em Moscovo é uma curta
novela escrita por Beauvoir destinada a integrar a sua obra A mulher destruída, o que acabou por não
suceder. Relata a história da viagem de um casal já de alguma idade à então
capital soviética para visitar a filha/enteada. No decurso da visita os
ressentimentos familiares vão ganhando corpo e marido e mulher dão por si a
reflectir no muito que deram à relação amorosa e no saldo da mesma. São os seus
pensamentos que vamos conhecendo à medida que as personagens recordam Moscovo,
onde tinham já estado em visita anterior.
Para além
dos seus ensaios filosóficos e feministas Beauvoir celebrizou-se pela forma
como tratou um tema sempre ingrato – a velhice. É o que sucede nesta breve
narrativa, com as personagens a pensarem sobre o que fizeram na vida e o que
gostariam de fazer, mas sabem que não irão levar já a cabo. Nesse sentido, esta
é uma obra difícil de ler. No nosso dia a dia, a consciência da finitude não
está sempre presente. Aliás, nas sociedades contemporâneas a morte é escondida
e dos antigos ritos ligados à mesma sobra pouco (apenas os velórios e os
funerais propriamente ditos). Por outro lado, grande parte de nós não anda por
aí diariamente em reflexão existencialista sobre as consequências de agir ou
não. E, no entanto, no cômputo geral, todos os dias, todas as acções e omissões
contam. Neste aspecto, ler obras sobre a velhice é bastante enriquecedor, pois
permite-nos pôr em perspectiva determinados acontecimentos da nossa vida.
Esta obra de
Beauvoir pode abrir o apetite, não apenas para melhor conhecer a sua obra, mas
para abraçar a leitura de obras mais reflexivas, de pendor existencialista. Por
mim, posso dizer que uma das que mais me marcou foi Para sempre de Vergílio Ferreira, também ele um romancista e
ensaísta da escola do existencialismo. O protagonista regressa já idoso à aldeia
da sua infância acompanhado das reminiscências da sua vida. Quando terminei a
leitura desse livro percebi que nada em mim seria como antes. E parece-me que a
mudança que se operou em mim foi para melhor. Mas, claro, sou suspeita.
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