quarta-feira, 18 de março de 2015

Mal-entendido em Moscovo, Simone de Beauvoir




Simone de Beauvoir nasceu em Paris em 1908 no seio de uma família burguesa. O seu nome é sobejamente conhecido. A sua obra O segundo sexo é considerada um marco da literatura feminista. Foi filósofa e escritora, com vasta obra publicada em qualquer dos terrenos.  Beauvoir é uma daquelas figuras que não eclipsa pela sua obra tendo-se antes eternizado através dela. Para isso contribuíram alguns trabalhos de matriz auto-biográfica, como As memórias de uma menina bem comportada e A velhice. Mas não só. Na construção do ícone em que se tornou assumiu também relevo a sua relação com o filósofo francês Jean Paul Sartre. Essa relação amorosa iniciou-se em 1929 e prolongou-se durante décadas até a morte do primeiro. Ainda hoje continua a ser um dos pontos de maior curiosidade quanto a qualquer um dos dois, tendo gerado já centenas de páginas, grande parte das quais destinada a afastar a cortina de fumo idealizadora que durante décadas os envolveu.
Mal-entendido em Moscovo é uma curta novela escrita por Beauvoir destinada a integrar a sua obra A mulher destruída, o que acabou por não suceder. Relata a história da viagem de um casal já de alguma idade à então capital soviética para visitar a filha/enteada. No decurso da visita os ressentimentos familiares vão ganhando corpo e marido e mulher dão por si a reflectir no muito que deram à relação amorosa e no saldo da mesma. São os seus pensamentos que vamos conhecendo à medida que as personagens recordam Moscovo, onde tinham já estado em visita anterior.
Para além dos seus ensaios filosóficos e feministas Beauvoir celebrizou-se pela forma como tratou um tema sempre ingrato – a velhice. É o que sucede nesta breve narrativa, com as personagens a pensarem sobre o que fizeram na vida e o que gostariam de fazer, mas sabem que não irão levar já a cabo. Nesse sentido, esta é uma obra difícil de ler. No nosso dia a dia, a consciência da finitude não está sempre presente. Aliás, nas sociedades contemporâneas a morte é escondida e dos antigos ritos ligados à mesma sobra pouco (apenas os velórios e os funerais propriamente ditos). Por outro lado, grande parte de nós não anda por aí diariamente em reflexão existencialista sobre as consequências de agir ou não. E, no entanto, no cômputo geral, todos os dias, todas as acções e omissões contam. Neste aspecto, ler obras sobre a velhice é bastante enriquecedor, pois permite-nos pôr em perspectiva determinados acontecimentos da nossa vida.
Esta obra de Beauvoir pode abrir o apetite, não apenas para melhor conhecer a sua obra, mas para abraçar a leitura de obras mais reflexivas, de pendor existencialista. Por mim, posso dizer que uma das que mais me marcou foi Para sempre de Vergílio Ferreira, também ele um romancista e ensaísta da escola do existencialismo. O protagonista regressa já idoso à aldeia da sua infância acompanhado das reminiscências da sua vida. Quando terminei a leitura desse livro percebi que nada em mim seria como antes. E parece-me que a mudança que se operou em mim foi para melhor. Mas, claro, sou suspeita.  

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