Gosto de
livros sobre livros. E foi essencialmente isso que me conduziu à compra de O Grande Manuscrito o mais recente livro
de Zoran Zivkovic´
Como se
fosse uma personagem de um dos seus livros (ou talvez de Se uma noite de inverno um viajante de Italo Calvino) senti-me
atraída pela capa misteriosa e pela promessa de mergulhar num policial
bibliófilo com elementos de fantasia.
O
protagonista de O Grande Manuscrito é
o inspector Dejan Lukic´ membro da polícia de Belgrado. O mistério que é
chamado a resolver diz respeito ao desaparecimento de uma famosa escritora a
poucos dias de entregar ao editor mais um dos seus aguardados livros. O
ambiente livresco não é passageiro na obra. Sob uma certa leveza narrativa
(apesar do acumular de cadáveres à medida que a acção avança) Zivkovic´ explora
alguns dos grandes temas do mundo editorial de hoje ao mesmo tempo que introduz
a magna questão da busca da imortalidade. E se não há poção mágica que a garanta
não poderá o segredo da vida eterna estar encerrado num livro?
O Grande Manuscrito pode ler-se
separado da demais obra de Zivkovic´. Mas, como gostei do estilo do autor e
percebi naquele livro referências a uma obra anterior, fui ler O Último Livro.
Morrer numa livraria pode ser para
muitos leitores o mais próximo possível de uma morte perfeita. Mas convém
assegurar que não se vai para o outro mundo antes da nossa hora. Na livraria
Papyrus um conjunto de mortes suspeitas convoca o Inspector Lukic´, determinado
a mostrar que a sua condição de polícia não é irreconciliável com a de leitor.
Se em O Grande Manuscrito é a imortalidade que se procura em O Último Livro há
uma piscadela de olho à leitura derradeira, ao fruto proibido, recordando O Nome da Rosa onde uma obra de
Aristóteles vai espalhando o castigo pelos leitores mais destemidos e incautos.
A escrita de Zivkovic´ é vigorosa e
clara. Embora a acção se mova numa realidade que não corresponde aos padrões
clássicos de um policial tem todos os requisitos para ser integrado no género,
ainda que com um toque de fantasia e recursos estilísticos um pouco diversos,
evidentes sobretudo no modo como o narrador se relaciona com a personagem
principal, num jogo de livro dentro do livro. Mas para além da fantasia
Zivkovic´ introduz ainda temas bem mais terrenos como as rivalidades policiais,
a omnipresença de uma polícia secreta (e os livros como um último reduto de
liberdade não vigiada) e o amor. Em suma, um prato cheio para esta leitora. E a
repetir brevemente.


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