quarta-feira, 4 de março de 2015

Zoran Zivcovic, O grande manuscrito e O último livro

Gosto de livros sobre livros. E foi essencialmente isso que me conduziu à compra de O Grande Manuscrito o mais recente livro de Zoran Zivkovic´
Como se fosse uma personagem de um dos seus livros (ou talvez de Se uma noite de inverno um viajante de Italo Calvino) senti-me atraída pela capa misteriosa e pela promessa de mergulhar num policial bibliófilo com elementos de fantasia.
O protagonista de O Grande Manuscrito é o inspector Dejan Lukic´ membro da polícia de Belgrado. O mistério que é chamado a resolver diz respeito ao desaparecimento de uma famosa escritora a poucos dias de entregar ao editor mais um dos seus aguardados livros. O ambiente livresco não é passageiro na obra. Sob uma certa leveza narrativa (apesar do acumular de cadáveres à medida que a acção avança) Zivkovic´ explora alguns dos grandes temas do mundo editorial de hoje ao mesmo tempo que introduz a magna questão da busca da imortalidade. E se não há poção mágica que a garanta não poderá o segredo da vida eterna estar encerrado num livro?
O Grande Manuscrito pode ler-se separado da demais obra de Zivkovic´. Mas, como gostei do estilo do autor e percebi naquele livro referências a uma obra anterior, fui ler O Último Livro.

            Morrer numa livraria pode ser para muitos leitores o mais próximo possível de uma morte perfeita. Mas convém assegurar que não se vai para o outro mundo antes da nossa hora. Na livraria Papyrus um conjunto de mortes suspeitas convoca o Inspector Lukic´, determinado a mostrar que a sua condição de polícia não é irreconciliável com a de leitor. Se em O Grande Manuscrito é a imortalidade que se procura em O Último Livro há uma piscadela de olho à leitura derradeira, ao fruto proibido, recordando O Nome da Rosa onde uma obra de Aristóteles vai espalhando o castigo pelos leitores mais destemidos e incautos.

            A escrita de Zivkovic´ é vigorosa e clara. Embora a acção se mova numa realidade que não corresponde aos padrões clássicos de um policial tem todos os requisitos para ser integrado no género, ainda que com um toque de fantasia e recursos estilísticos um pouco diversos, evidentes sobretudo no modo como o narrador se relaciona com a personagem principal, num jogo de livro dentro do livro. Mas para além da fantasia Zivkovic´ introduz ainda temas bem mais terrenos como as rivalidades policiais, a omnipresença de uma polícia secreta (e os livros como um último reduto de liberdade não vigiada) e o amor. Em suma, um prato cheio para esta leitora. E a repetir brevemente.   

Sem comentários:

Enviar um comentário