quinta-feira, 23 de abril de 2015

Os meus livros são uma parte de mim

 Os meus livros (que não sabem que existo)/ são uma parte de mim. Começa assim um dos mais famosos poemas de Jorge Luís Borges. Hoje é dia mundial do livro e tanto é pretexto mais do que suficiente para homenagear esses companheiros de todas as horas.
Não sei quando exactamente começou a paixão pelos livros e o amor pelas palavras, mas acompanha-me desde criança. Dizem-me que mesmo antes de saber ler sentava-me no chão com um livro aberto a fingir que estava a perceber o que lá vinha escrito. As primeiras recordações de leituras autónomas levam-me à Heidi de Joana Spyrou uma edição que ainda hoje guardo com carinho. Das leituras de criança (Os cinco, em especial destaque) passei para os policiais de Agatha Christie. E daí num salto improvável para a literatura sul-americana. Lembro-me de vitórias que só um leitor consegue perceber. A alegria de encontrar uma edição portuguesa de Os Irmãos Karamazov depois de meses à procura sem sucesso. A felicidade de me rever num poema, como se o seu autor apenas se tivesse adiantado a mim por escassos segundos. O maravilhamento ao descobrir um novo autor (para mim, porque com frequência já é mais do que conhecido para o mundo). A emoção do reencontro com uma obra querida lida há anos e a que voltamos de vez em quando. 
Os livros são um elemento determinante na minha vida. Através deles conheci o mundo, estranhei-o e procuro compreendê-lo. É um amor constante que vai conhecendo novas matizes ao longo dos anos. Primeiro foi a ficção. Depois o ensaio e durante alguns anos a poesia. Actualmente estou numa fase de gosto por memórias. Mas sei que continuarei a conviver com todos os géneros literários. O meu é também um amor à antiga. Não gosto de audio-livros, ebooks ou outras modernices. Livro é livro à séria. Com páginas a cheirar a novo ou carregado com a lembrança de antigos proprietários plasmada em dedicatórias que o tempo não apaga (quando compro em alfarrabistas).

Acho que há algum exagero na frase de Chateubriand (“nunca tive nenhum desgosto que não me passasse após algumas horas na biblioteca”). Mas ainda assim, entre os motivos de alegria que espero que a vida me reserve, está a descoberta de novos autores e de livros que talvez ainda não estejam escritos. Por isso, nesta data especial aqui ficam os votos de um feliz dia do livro. 

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