quarta-feira, 13 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
Blue nights (Noites Azuis), Joan Didion

Dou por mim a ler livros sobre a perda e o luto. Não é uma escolha deliberada e
felizmente não foi inspirada em qualquer acontecimento da minha vida recente.
Pergunto-me: porque leio isto? Não é de certeza em preparação para qualquer
perda. Pela simples razão de que não acredito que seja possível a preparação para as perdas que a vida nos reserva.
Comecei com O Ano do Pensamento Mágico de Joan
Didion, memória do primeiro ano da sua viuvez. Demorei algum tempo mas ganhei
coragem para ler Blue Nights (sem
tradução para português, ao que sei). Pelo meio li A onda o relato de Sonali Deraniygala que sobreviveu ao tsunami mas ali perdeu
marido, filhos e pais. Deixei este último a meio.
Blue Nights é um texto curto, com escrita límpida e firme. Cada palavra vale a sua
inscrição. Mas mais ainda: a mestria de Joan Didion é tal que consegue fazermos
entender, não só o que fica escrito, mas também o que lá não está. É uma
escrita intelectualizada onde se revisitam as ausências sem dramas sentimentais
mas deixando claro a angústia das mesmas na vida que segue. A escrita de Didion na
sua densidade e implacabilidade recordou-me uma autora completamente diferente, a
francesa Marguerite Duras. Não há uma palavra a mais nem menos ou um parágrafo
mal calculado.
Didion escreve inteira e
de forma íntegra e é isso mesmo que exige ao leitor. Não há forma de lhe
escaparmos. Recorda a filha, a alegria do seu nascimento, as discussões normais
inerentes ao crescimento, os desejos aparentemente banais formulados na data do
seu casamento. Estando a filha Quintana sempre presente no livro é paradoxal
como ele se desprende dela. A partir de determinado momento estamos a ler sobre
a vida, os momentos que gostaríamos que fossem eternos mas que duram tão pouco,
a solidão. Este livro é muito distinto do escrito por Isabel Allende também a
propósito da morte da filha, Paula. Com este mesmo nome, a obra de Allende é
uma revisitação biográfica da sua filha também precocemente falecida. E, de
forma estranha, acaba com uma nota de esperança (que me foi muito reconfortante
aquando da sua leitura). Didion não é assim. Talvez por ser mais velha que
Allende, talvez por estar sozinha, talvez por ser diferente a sua natureza e
modo de estar na vida. Não se encontra na sua escrita qualquer consolo espiritual. Se o tem guarda-o para si e connosco partilha as considerações terrenas, com a dureza da morte a afastar a banalidade mesmo das recordações mais mundanas. Quando vemos as coisas no plano mais vasto da longa metragem da vida umas sandálias vermelhas de salto alto são muito mais do que calçado. São o símbolo do que fomos um dia e deixaremos de ser.
Porque se lêem estes
livros? Para além da sua qualidade parece-me que há outro motivo: lemo-los para
reforçarmos o quanto é precioso o tempo em que ainda temos tudo. E para
acreditar que se o escritor conseguiu nós também acharemos força para viver
depois da perda.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Bonjour tristesse, Françoise Sagan
Poucas vezes o cinema
consegue estar à altura dos livros em que se inspira. Este filme de Otto
Preminger é uma das excepções. Com uma realização e interpretação primorosas dá
vida às personagens do livro de Sagan que parecem saltar das suas páginas. A história é simples: um pai e uma filha
habituados a uma vida sem contrariedades e a mulher que se apaixona pelo
primeiro.Reli o livro este fim-de-semana
depois de rever o filme. E concluo que não são precisas muitas palavras para
descrever o efeito pernicioso do egoísmo alheio nas nossas vidas.
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