terça-feira, 5 de maio de 2015

Blue nights (Noites Azuis), Joan Didion


Dou por mim a ler livros sobre a perda e o luto. Não é uma escolha deliberada e felizmente não foi inspirada em qualquer acontecimento da minha vida recente. Pergunto-me: porque leio isto? Não é de certeza em preparação para qualquer perda. Pela simples razão de que não acredito que seja possível a preparação para as perdas que a vida nos reserva.
Comecei com O Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion, memória do primeiro ano da sua viuvez. Demorei algum tempo mas ganhei coragem para ler Blue Nights (sem tradução para português, ao que sei). Pelo meio li A onda o relato de Sonali Deraniygala que sobreviveu ao tsunami mas ali perdeu marido, filhos e pais. Deixei este último a meio.
Blue Nights é um texto curto, com escrita límpida e firme. Cada palavra vale a sua inscrição. Mas mais ainda: a mestria de Joan Didion é tal que consegue fazermos entender, não só o que fica escrito, mas também o que lá não está. É uma escrita intelectualizada onde se revisitam as ausências sem dramas sentimentais mas deixando claro a angústia das mesmas na vida que segue. A escrita de Didion na sua densidade e implacabilidade recordou-me uma autora completamente diferente, a francesa Marguerite Duras. Não há uma palavra a mais nem menos ou um parágrafo mal calculado.
Didion escreve inteira e de forma íntegra e é isso mesmo que exige ao leitor. Não há forma de lhe escaparmos. Recorda a filha, a alegria do seu nascimento, as discussões normais inerentes ao crescimento, os desejos aparentemente banais formulados na data do seu casamento. Estando a filha Quintana sempre presente no livro é paradoxal como ele se desprende dela. A partir de determinado momento estamos a ler sobre a vida, os momentos que gostaríamos que fossem eternos mas que duram tão pouco, a solidão. Este livro é muito distinto do escrito por Isabel Allende também a propósito da morte da filha, Paula. Com este mesmo nome, a obra de Allende é uma revisitação biográfica da sua filha também precocemente falecida. E, de forma estranha, acaba com uma nota de esperança (que me foi muito reconfortante aquando da sua leitura). Didion não é assim. Talvez por ser mais velha que Allende, talvez por estar sozinha, talvez por ser diferente a sua natureza e modo de estar na vida. Não se encontra na sua escrita qualquer consolo espiritual. Se o tem guarda-o para si e connosco partilha as considerações terrenas, com a dureza da morte a afastar a banalidade mesmo das recordações mais mundanas. Quando vemos as coisas no plano mais vasto da longa metragem da vida umas sandálias vermelhas de salto alto são muito mais do que calçado. São o símbolo do que fomos um dia e deixaremos de ser. 

Porque se lêem estes livros? Para além da sua qualidade parece-me que há outro motivo: lemo-los para reforçarmos o quanto é precioso o tempo em que ainda temos tudo. E para acreditar que se o escritor conseguiu nós também acharemos força para viver depois da perda. 

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