terça-feira, 23 de junho de 2015

Submissão, Michel Houellebecq

O protagonista do romance Submissão é um entediado, indiferente, sem laços relevantes, quer do ponto de vista familiar, que de amizade. É um desencantado que tem no estudo da vida e obra de Huysman o seu principal ponto de interesse (mas não de entusiasmo, apesar dos sete anos passados a estudar o tema). Um outro interesse da sua vida é a conquista das jovens estudantes universitárias a quem dá aulas, mas no momento em que o livro se inicia até esse assunto está já a perder o relevo na sua vida, substituindo a alegria dos prazeres carnais pelo sexo mecânico e sem arrobos de entusiasmo. Se a tudo isto juntarmos uma vida gastronómica reduzida a refeições pré-elaboradas aquecidas no micro-ondas concluímos que a vida do protagonista é muito triste. 
       Submissão não é, todavia, um romance existencialista. É antes uma obra política e é esse o aspecto fundamental. Nessa medida os seus protagonistas são dois fantasmas velhos como o tempo: o medo e a indiferença. A Sorbonne (fundada em 1257) e Huysman (escritor francês novecentista com uma obra de pendor auto-biográfico narrando a sua odisseia espiritual) são símbolos de um passado em que existiam convicções. Diferentemente a personagem principal não as tem (e à sua volta também não encontra ninguém diferente). Assim, quando as eleições de 2022 (o livro decorre no futuro) conduzem ao poder Mohammed Ben Abbes (que derrota Marine Le Pen) o medo e a indiferença impedem qualquer resistência. E de forma pacífica uma nova ordem se instala. 
      O livro de Houellebecq tem gerado grande controvérsia. É uma obra de ficção mas quem o lê no momento presente não consegue ficar indiferente. A Europa (e não apenas a França) encontra-se mergulhada em problemas sociais e políticos, num momento em que as referências culturais clássicas estão esboroadas. Vivemos um tempo de vazio com os perigos que lhe são inerentes. Este livro põe isso mesmo em relevo. Vale a pena lê-lo e pensar sobre ele e avaliar o que o mesmo relata de forma objectiva. Tendo presente o que é o modo de vida europeu e o que ele custou a conquistar. Afinal, são mais de 2000 anos de História. 
    Houellebecq deu uma entrevista a propósito do seu novo livro à Paris Review. Deixo o link aqui

terça-feira, 9 de junho de 2015

A amazona dos contrabandistas, Elizabeth Renier



Uma compra inesperada na Feira do Livro deste ano. Confesso que a capa e o título atraíram-me e acabei por o trazer, tendo-o lido durante o fim de semana.Não tinha grandes expectativas. E ainda bem. Porque como ouvi alguém dizer há anos "onde não há ilusões não entram desilusões". 
Os protagonistas do livro são Kate e Richard. Cresceram juntos, complementando-se. Ele é um rapaz com o nariz metido nos livros, introvertido e inseguro. Ela é uma rapariga que gosta de correr pelos campos, é confiante e acredita ser capaz de fazer tudo. E é assim que em complemento da sua actividade como professora se junta ao grupo dos contrabandistas locais. Claro que esta mistura de caracteres tão apelativa na infância começa a perder encanto quando Kate e Richard chegam à idade adulta. Sobretudo para Richard que apesar de se sentir atraído por Kate tem pavor de casar com uma mulher com uma personalidade tão forte. Receia ser por ela dominado. Isto apesar de tudo o que o leitor consegue ver na relação entre os dois ser o apoio constante que ela lhe dá, acreditando que ele é capaz de tantas coisas que nem imagina. Além de que, ao contrário de tantos enamorados que passam parte do tempo a questionar-se sobre se serão correspondidos, Richard ter esse trabalho facilitado. Com a sua proverbial franqueza Kate diz-lhe sempre que o ama. Ainda assim, parte do romance enreda-se pela dúvidas de Richard e pelas certezas de Kate até chegar ao desenlace que é de tal modo convencional que causa dó. Curiosamente quando terminei este livro vieram-me à cabeça Elisabeth Bennet e Ema, duas das heroínas de Jane Austen. Não sou uma austeniana, longe disso. Aliás, a descoberta desta escritora é até relativamente tardia na minha vida como leitora. Mas uma coisa é certa. Apesar de ter escrito no século XVIII Austen não traía as suas personagens em nome de convenções ou de finais felizes. Na verdade, se há alguma coisa inspiradora em Austen, é precisamente o reconhecimento de que a felicidade (máxime a conjugal) só pode resultar do respeito do casal pelas características de cada um. Mas um facto tão simples (ao menos nos livros pois a vida real, já o sabemos, é bem mais complicada) escapa a muitos outros escritores, mesmo do sexo feminino. É o caso de Elizabeth Renier. A autora é inglesa, tendo nascido em Janeiro de 1916 e falecido em 2004. Este livro foi editado em 1968 o que ainda torna mais antiquada a sua mensagem. Aliás, a verdadeira história deste livro parece estar para além do mesmo. Qual a explicação para uma obra destas em plena década de 60 marcada por todas as convulsões políticas e sociais que conhecemos? O que dizer de uma obra em que a heroína começa por seguir ao lado do herói liderando um grupo de contrabandistas e termina a regressar obedientemente a casa onde doravante a esperam as suas maiores aventuras? Do ponto de vista literário o mais interessante são os momentos descritivos das charnecas inglesas e uma ou outra cena de acção. Tudo o resto acaba por ter pouco interesse face à tímida consistência das personagens principais e à previsibilidade do enredo. Enfim, retrógrado por retrógado, prefiro John, o chaffeur russo...