terça-feira, 7 de julho de 2015

Madame Crisântemo, Pierre Loti

Não é Madame Crisântemo,
mas antes um desenho de Uemara
Pierre Loti nasceu em 1850 e faleceu em 1923. No intervalo desses dois acontecimentos foi oficial de marinha e escritor. Madame Crisantême é um dos seus livros mais conhecidos. A acção é simples. O protagonista desembarca em Nagásaqui para ali passar o Verão, tomando como esposa uma jovem que responde pelo nome de Crisântemo. É uma união temporária limitada ao tempo em que o narrador vai ficar naquela cidade japonesa. O livro é marcado pela profusão de detalhes que nos transporta facilmente para o Japão. É de tal modo descritivo que quase conseguimos sentir os cheiros, os sons e as cores do país, numa espécie de experiência literária de 3D. Este modo de escrever já não existe. Os autores contemporâneos são mais sintéticos e já ninguém despende duas ou três páginas a descrever o porto de uma cidade ou a sucessão de pratos que compõem uma refeição. Mas a escrita de Loti não é de viagem e a interpretação deste seu livro não é linear. O protagonista do livro não ama a mulher e também não é por ela amado. Não estamos, assim, perante uma história de amor prelúdio da Madame Butterfly de Puccini. Na melhor das hipóteses Madame Crisântemo e o seu esposo temporário são indiferentes um ao outro. A dicotomia estende-se a tudo o que Loti descreve. Nagásaqui é durante o dia uma cidade feia, banal, uma desilusão. À noite as luzinhas acesas em cada janela libertando a cidade da escuridão permitem vislumbrar-lhe a beleza. Os japoneses tal como surgem nas obras popularizadas no ocidente não existem. Os nipónicos com que o protagonista do livro se cruza são rústicos e mesmo feios, mas também mais alegres do que a sua imagem estilizada deixa adivinhar. A possibilidade de casar com uma gueisha é-lhe vedada para sua própria protecção pelo alcoviteiro de serviço. No entanto a musumé que lhe cabe em sorte cria nele a convicção de que está a ser enganado, o que o incomoda, apesar da aparente indiferença que lhe dedica. Tudo isto é registado sem raiva. Perpassa pelo relato deste verão em Nagásaqui um tom de desapontamento que nem a partida para nova viagem consegue afastar. No fim, o protagonista do livro zarpa para novo porto também sem grande entusiasmo.            
        Nem todas as histórias têm de ter uma moral ou um sentido oculto. Talvez seja esse o caso deste livro de Loti. Mas se alguma lição se quiser retirar ela está contida no aviso sub-reptício deixado ao leitor ocidental encantado com o exotismo do oriente: não te deixes enganar pelo brilho aparente do que é longínquo porque de perto nada é assim tão belo.



Sem comentários:

Enviar um comentário