sábado, 26 de setembro de 2015

Zorba, o grego. Nikos Kazantzaki.

Zorba, o Grego
 (imagem do filme de Michael Cacoyannis, 1964)

   Foi Pina Martins quem disse a propósito dos livros que foi encontrando (ou que o encontraram a ele) "os objectos procuram quem os ama". Embora com a idade esteja a perder o gosto pelas citações alheias reconheço nesta um fundo de verdade. Ao longo dos anos tenho encontrado quase por acaso livros que desejei ler e que não se encontram com facilidade no circuito comercial normal. Este fenómeno aconteceu-me pela primeira vez com sete ou oito anos quando encontrei numa papelaria de uma zona balnear um inesperado exemplar de A princezinha. Há que dizer que os meus pais tinham procurado por toda Lisboa esse livro que eu lhes tinha pedido. E nada. E ali, de repente, ei-lo. Um só exemplar já com algum pó à espera da sua leitora ... Eu.

   Este Verão vivi um episódio idêntico. Acordei com vontade de ler Zorba, o Grego. Pesquisas na net, visitas a alfarrabistas e idas a livrarias conduziram a um mesmo resultado: nada, nicles, zero. Não foi uma grande desilusão porque já estava à espera do insucesso. E de repente, em finais de Julho, de forma inesperada, voilà um exemplar de Zorba chega-me às mãos. Só para mim. Para sempre (espero).
      Valeu a pena ansiar por Zorba?
     Sim. É um dos mais extraordinários e intensos livros que li até hoje. Foi escrito por Nikos Kazantzaki filósofo, poeta e escritor grego, também autor de A última tentação de Cristo, que Martin Scorcese passou ao cinema.
     Publicado em 1946 Zorba tem como personagem principal um camponês nascido para o mundo e cujo nome dá título ao livro. O traço principal de Zorba é o seu imenso gosto pela vida. É um sensual no mais completo sentido do termo. Não tem passado e não pensa no futuro. Não tem problemas existenciais. Não porque seja um bruto. Mas porque confia. No universo, em Deus, nele próprio. Quando Zorba come, come com prazer. Quando ama, ama com verdade. Quando trabalha, entrega-se à tarefa. E é assim para todos os momentos da sua vida, seja a dançar, a sofrer ou a lidar com monges ortodoxos.
Zorba é talvez a personagem literária que conheço que melhor aceita a vida, com as suas alegrias e contratempos. Em diálogo com o patrão este diz-lhe que não quer aborrecimentos. Ao que Zorba lhe responde “A vida é um aborrecimento, a morte não. Viver, sabes que quer dizer isso? Arregaçar as mangas e entrar no barulho.” Curiosamente, o reconhecimento de que a vida é difícil é a primeira das quatro verdades budistas. A diferença está no modo como Zorba reage a esta percepção. Não através do desprendimento mas mergulhando em tudo o que a vida tem para lhe dar. Como se fosse o seu o primeiro dia de vida ou o seu último dia neste mundo.
Quando nos afastamos dos lugares comuns percebemos até que ponto essa capacidade é preciosa e rara. José Gomes Ferreira deixou-nos o poema Viver sempre também cansa. E há muita gente que concorda. Mas não Zorba, seguramente. Está sempre o momento, incansável. Afinal, como se depreende das suas palavras, haverá um momento em que vai morrer e contra isso, contra a velhice e o inevitável fenecer, rebela-se.
O interlocutor de Zorba é o seu patrão e amigo, um jovem intelectual grego que está a escrever um interminável livro sobre Buda. É nele que se instala a dúvida entre o viver contemplativo (que no seu caso, é um não viver) e a acção de Zorba que aprende a admirar.
O aspecto de que menos gostei no livro é o machismo que o perpassa. Não é só no modo como Zorba se refere às mulheres reduzindo-as a umas pobres coitadas sempre à espera que um homem repare nelas. É também nas diferentes consequências que a realização sexual tem para umas e outros. Neste livro, os prazeres inerente ao lado primitivo do ser humano são muito evidentes. Zorba não tem uma vida de subtilezas. É neste quadro que o acto sexual surge como um elemento de renovação … para os homens. Zorba e o patrão envolvem-se, um com uma velha cortesã abandonada em Creta e outro com uma viúva na mesma ilha (o livro foi publicado no pós II Guerra Mundial, o que não faltava eram viúvas). Cada um o faz do seu modo, um mais incisivo e outro mais titubeante. Depois continuam as suas respectivas vidas. Já as duas mulheres … acabam por morrer. Certamente os Freuds deste mundo podem explicar. Mas a mim este destino comum deixou-me de sobrolho franzido. De qualquer forma, esta reserva não é suficiente para abalar o meu gosto pelo livro e o recomendar. Por mim, tenho a certeza de que mais cedo ou mais tarde o vou reler. 

       

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