sábado, 3 de outubro de 2015

Em defesa dos romances policiais




       O romance policial é muitas vezes visto como um género menor. Quem deles fala já detectou uma ou outra vez um sorriso dubidativo no seu interlocutor, sendo quase impossível manter um debate sério sobre um tal tema. São muitas as vezes em que ouvimos desabafos como "nas férias leio policiais para desanuviar". São também os companheiros de primeira água para viagens de avião. A sério? Por mim, não concordo com esta visão simplista. E não percebo as pessoas que lido o livro e descoberto o criminoso dão a leitura por finda. Releio obras como Morte entre Ruínas de Agatha Christie ou Scarpetta de Patricia Cornwell e continuo a aprender sobre a natureza humana. 
      O gosto pela descoberta do crime começou em pequenina com Os cinco.Sim, o que são os quatro primos e o cão Tim senão detectives sempre à espreita de uma oportunidade para mostrarem os seus dons? Os cinco e a comboio fantasma, os cinco e os seus piratas do ar, Os cinco e a Ilha de Diabo e tantos outros. Detectives em ponto pequeno a Zé, o David, a Ana, o Júlio e o Tim encontravam sobretudo ladrões e contrabandistas. É preciso passarmos a uma nova categoria de policiais para percebermos que há outro tipo de crimes, maxime o homicídio ... Eu devo essa descoberta a Agatha Christie e a verdade é que como disse Hitchcock we all enjoy a little murder as long as we are not the corps
         Os policiais são um manancial de lições de vida. A começar pelos investigadores. Nero Wolf com o seu gosto por orquídeas e boa comida é um hino à alegria de viver. Sherlock Holmes com a sua alma torturada que só encontra alento no violino, no crime e nas estranhas injecções que toma em algumas das suas aventuras, apesar das repreensões de Watson. Mesmo quando tristes e desiludidos há nos detectives livrescos uma recusa de rendição e um fogo interior (mesmo escondido numa aparente indiferença) que são um hino à resistência humana. Uma e outra vez traídos e desiludidos lá vão eles de novo, em cada história, repor a verdade e fazer luz no caos. Contra tudo e contra todos.
         A defesa dos romances policiais foi feita de modo categórico por Chesterton num artigo que a Berfrois recuperou há poucos dias (aqui). O próprio escreveu, entre muitas outras coisas, livros policiais. Talvez por isso percebeu que neles se faz um exercício de moralidade que obriga o leitor a ver muito para além do que seria o seu impulso. 
     No mundo dos policiais as primeiras impressões são quase sempre enganadoras. Por isso, quem os lê aprende a importância da cautela. E a não se fiar nas aparências. Quem imaginaria que Miss Marple fosse tão perspicaz? E quem poderia esperar encontrar um cenário de homicídio que é afinal um suicídio encenado para responsabilizar um terceiro, como narra um dos livros de Donna Leon? 
      O cuidado não se confunde com a inércia. O policial é um exercício de acção. Mesmo os detectives cerebrais como Poirot (com as suas célebres celulazinhas cinzentas) apresentam resultados, resolvem o caso. Este, nos bons policiais, mostra as matizes infindáveis da natureza humana. Basta pensar em Crime no Expresso do Oriente (a recordar que a Justiça começou por ser a substituição da vindicta privada) ou nas lições dos policiais nórdicos sobre o que se esconde sob a neve branca e as casinhas com chaminés fumegantes. Livros que bem podiam ter por cenário Portugal, como Richard Zimler nos recorda no seu A sentinela, policial que tem Lisboa por palco e um inspector da PJ por herói. Zimler não é um escritor policial. Mas o seu livro deixou-me abismada, pela sordidez social e humana que retrata e que surge espelhada no crime. 
      O romance policial obriga-nos a rever as fronteiras da moralidade. Quantas vezes não damos por nós a desejar que o criminoso fique impune? Pontualmente, todo o grande detective viveu esse dilema. Mas também o leitor se encontra nessa desconfortável posição. Que dizer de Arséne Lupin, um ladrão cavalheiro? Ou do herói de O seminarista de Rubem de Carvalho, com os seus arreigados princípios éticos? Ou da protagonista de Gone Girl que tanta celeuma gerou nos EUA, quando se concluiu que era muito mais do que um comum policial, reconhecendo-se antes que seria uma obra misógina ou feminista (aqui)? As opiniões dividiram-se. Mas a discussão permite ilustrar o que venho dizendo. O policial vai muito para além do crime. 
      A minha escolha de eleição é a série de Ripley de Patricia Highsmith. Ripley é a antítese de Raskolnikoff. Onde a criação de Dostoiveski se corrói de culpa e remorso, o protagonista de Highsmith conhece apenas amoralidade egoísta e satisfação pessoal. Mas a mestria da autora está na capacidade de criar um laço entre Ripley e o leitor, ao ponto deste simpatizar e torcer por quem é um criminoso nato e sem redenção. Chesterton não leu Highsmith. É pena, pois seria interessante saber o que diria sobre ela ... 

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