
A premissa inicial é interessante mas não original. Jane
Austen é das autoras que mais gera "literatura paralela":
revisitações dos seus romances, em particular Orgulho e Preconceito, com novas visões (sob a perspectiva do Mr.
Darcy, por exemplo), sequelas, prequelas e mesmo elementos de fantástico (como
zombies). Este livro é o primeiro deste género em Portugal (ao que sei).
No
essencial, narra as vicissitudes de uma jovem portuguesa que
vai para Londres estudar a obra de Austen. Começamos a acompanhar a protagonista ainda na sua infância (através de flashbacks) e a história vai avançando em
capítulos que alternam entre a evolução da acção e a introdução de elementos da
vida de Austen e da sua obra. Estes últimos acabam por ser pouco úteis para o
desenvolvimento da narrativa e parece-me que quem não conheça as obras de Jane Austen
não fica elucidado. Por outro lado, quando terminei o livro pareceu-me que
vários aspectos centrais ficaram por resolver para a protagonista: o episódio
no quarto de hotel em Londres com o Eduardo (que sendo um acontecimento
traumático não tem consequências na evolução da narrativa, nem mesmo ao nível
interior da protagonista) e a descoberta da influência decisiva do antigo
apaixonado da avó na sua vida (também a exigir desenvolvimento e confronto, a
meu ver). O livro poderia ser uma história de amadurecimento e descoberta
pessoal, mas não é. Termina com a verificação de que a vida hoje é mais
complexa do que no tempo dos livros de Jane Austen, o que é certo. Mas
provavelmente a vida nesse tempo, sobretudo a vida das mulheres, era bem mais
complexa do que a aparente simplicidade dos romances daquela deixa transparecer.