Em 2009 o filme Estado de Guerra de Kathrin Bigelow pôs em relevo o vício da guerra.
Contava a história de um homem que apenas em cenário de conflito armado (no
caso no Iraque) se sentia em paz consigo mesmo. Só aí, desmontando bombas
humanas, a sua vida ganhava sentido. Regressado ao país de origem e à vida familiar,
não se adaptou. O filme termina com o seu regresso à guerra.
O
livro de Clara Ferreira Alves tem mais de um ponto em comum com esse filme,
ainda que não saiba se a escritora o viu e não lhe seja feita qualquer
referência nas mais de 300 páginas que o compõem. Pai Nosso relata a história de Maria uma portuguesa transformada em
repórter de guerra que encontra aí, longe do tédio das existências ditas
convencionais da burguesa Lisboa, o chamamento da sua vida. Através delas
seguimos as últimas décadas no Médio Oriente, começando pelos protagonistas clássicos
(Palestina e Israel) e terminando com novos actores.
Pelo
meio acompanhamos pequena e a alta burguesia lisboeta, entre o passado e o
presente da protagonista, uma mulher conhecida como O Fantasma, sem idade, que com a sua máquina fotográfica vai
avançando pelos cenários de guerra, em busca da fotografia que sacuda de vez o
marasmo da opinião pública internacional. A história de Maria entrelaça-se com
a dos territórios por onde vai passando num enredo de cumplicidades e
ingenuidades com um final trágico.
Gostei
de ler este livro. Sabendo pouco sobre o conflito israelo-palestiniano e sobre
a história milenar de Jerusalém, a obra de Clara Ferreira Alves fez-me ter
vontade de conhecer mais. A intriga é interessante e está bem construída.
Lembra-me as narrativas de Graham Greene com as suas personagens que, não sendo
cúmplices, são impotentes face ao desenrolar dos grandes acontecimentos da
história, não lhes restando outro papel senão o de testemunhas daqueles.

