terça-feira, 19 de abril de 2016

Pai Nosso, Clara Ferreira Alves



Em 2009 o filme Estado de Guerra de Kathrin Bigelow pôs em relevo o vício da guerra. Contava a história de um homem que apenas em cenário de conflito armado (no caso no Iraque) se sentia em paz consigo mesmo. Só aí, desmontando bombas humanas, a sua vida ganhava sentido. Regressado ao país de origem e à vida familiar, não se adaptou. O filme termina com o seu regresso à guerra.
    O livro de Clara Ferreira Alves tem mais de um ponto em comum com esse filme, ainda que não saiba se a escritora o viu e não lhe seja feita qualquer referência nas mais de 300 páginas que o compõem. Pai Nosso relata a história de Maria uma portuguesa transformada em repórter de guerra que encontra aí, longe do tédio das existências ditas convencionais da burguesa Lisboa, o chamamento da sua vida. Através delas seguimos as últimas décadas no Médio Oriente, começando pelos protagonistas clássicos (Palestina e Israel) e terminando com novos actores.
            Pelo meio acompanhamos pequena e a alta burguesia lisboeta, entre o passado e o presente da protagonista, uma mulher conhecida como O Fantasma, sem idade, que com a sua máquina fotográfica vai avançando pelos cenários de guerra, em busca da fotografia que sacuda de vez o marasmo da opinião pública internacional. A história de Maria entrelaça-se com a dos territórios por onde vai passando num enredo de cumplicidades e ingenuidades com um final trágico.

            Gostei de ler este livro. Sabendo pouco sobre o conflito israelo-palestiniano e sobre a história milenar de Jerusalém, a obra de Clara Ferreira Alves fez-me ter vontade de conhecer mais. A intriga é interessante e está bem construída. Lembra-me as narrativas de Graham Greene com as suas personagens que, não sendo cúmplices, são impotentes face ao desenrolar dos grandes acontecimentos da história, não lhes restando outro papel senão o de testemunhas daqueles. 

Sem comentários:

Enviar um comentário