quarta-feira, 29 de junho de 2016

Para ler ou reler




        
        Contra a barbárie resta apenas uma solução: resistir. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Jorge Luís Borges dixit






                                                                                                In "Este ofício de poeta"
       

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O negócio dos livros, André Schiffrin




         O subtítulo deste livro é "Como os grandes grupos económicos decidem o que lemos". O autor e André Schiffrin nascido em França em 1935 e que desde 1941 vive entre aquele país e os Estados Unidos da América. A edição de livros faz parte da sua vida desde sempre, uma vez que já o seu pai era editor. Relato escrito na primeira pessoa, este livro fala-nos sobre as mudanças que se fazem sentir em tal negócio, começando nos tempos em que ser editor era uma profissão intelectual, onde avultavam as preocupações culturais e sociais. O lucro era uma questão menor. Num relato na primeira pessoa Schiffrin dá-nos conta das profundas mudanças sofridas nessa matéria. À medida que as editoras se integraram em grandes grupos económicos o critério preferencial (quando não único) da escolha dos livros a publicar é saber o que vende e pode geral lucros maiores. O relato feito é lúcido e assustador, tanto mais que embora analise o fenómeno das pequenas editoras independentes, Schiffrin também não esquece o pouco peso que elas têm no mercado na sua globalidade. O relato feito tem por objecto os mercados norte-americano, inglês e francês. Contudo, facilmente o podemos adaptar à realidade portuguesa. E vale a pena conhecer os argumentos deste autor: a escolha do que lemos acaba por assentar fortemente naquilo que é posto à nossa disposição. Por isso, perceber os mecanismos da edição e distribuição é uma tarefa fundamental para sermos leitores atentos. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Livraria Zhonshuge, Xangai









       Recebi hoje a newsletter do The cool hunter. Para além de outros pontos interessantes traz uma reportagem sobre estas livrarias, uma em Xangai e a outra em Hangshoan (ver aqui). De repente, fiquei cheia de vontade de voltar à China. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Dreaming of East, Barbara Hodgson


Depois de séculos confinados à ideia de que o destino natural de todas as mulheres até ao início do século XX era o lar, surgem agora diversos trabalhos de história que demonstram que a vida real nunca foi assim tão linear. São já muitos os livros que se detêm no percurso de mulheres que optaram por outros caminhos, conjugados ou não com o que alguém um dia designou como projectos mais amenos (como casar e ter filhos). E são tantas essas mulheres que, não podendo considerar-se a regra, também não podem ser vistas como simples excepções. A investigação na área da pintura (de que é exemplo o trabalho de Filipa Lowndes Vicente A arte sem história) e da história da música (Sounds and Sweet airs: The forgotten women of classic music, de Anna Beer) é disso elucidativo. E também o trabalho de Carla Hilário Quevedo As mulheres que fizeram Roma, bem elucidativo de que nem sempre aquelas se resignaram a ficar pacientemente sentadas a ver a História desenrolar-se. Isto para além da recuperação de figuras que ultrapassaram o esquecimento do tempo, mas foram muitas vezes deturpadas em aspectos essenciais, por esse poderoso mecanismo que é a imaginação romântica. Hipátia de Alexandria e Cleópatra são dois exemplos disso mesmo.

            O livro de Barbara Hodgson é mais uma machadada nessa visão tradicional. A autora põe em relevo o modo como a região do Médio Oriente constituiu um forte atractivo para muitas mulheres ocidentais, em particular no final do século XIX e inícios do século XX. Os costumes eram ali muito diferentes e mais liberais. Acresce que essas mulheres beneficiavam do estatuto híbrido decorrente de serem ocidentais e, com frequência, terem dinheiro. Algumas seguiram para aquela região para acompanharem o marido e outros familiares. Outras foram por sua conta e risco estudar, trabalhar ou mesmo visitar  tais países (um exemplo bem conhecido é o de Agatha Christie, que conheceu o seu segundo marido nas escavações arqueológicas em Ur). Este estudo de Hodgson é detalhado e completo, mas de leitura muito simples, sendo ilustrado com diversos exemplos de mulheres que se mudaram para o Médio Oriente e suas motivações. Um dos exemplos mais interessantes é o de Georgina Bell, inglesa, escritora, viajante e política. Sobre a sua vida, aliás, foi feito recentemente um filme em exibição entre nós, Rainha do Deserto, tendo no papel principal Nicole Kidman. Bell é admirável, até pela influência política que granjeou, mas não é caso único. Por isso, vale a pena investigar um pouco mais, sendo o livro de Hodgson, uma boa base para isso mesmo. 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Sobre livros e hábitos de leitura





       Por que lemos o que lemos é sempre uma questão interessante. Serão as nossas escolhas literárias fruto do hábito, da influência externa (designadamente, do cânone) ou da nossa escolha própria, impulsiva ou mais amadurecida? E que consequências têm as respostas a estas perguntas? Lemos para descobrir novos mundos ou para confirmar o que sabemos? Procuramos novas vozes ou o eco das nossas respostas? Perguntas que não têm uma resposta única, mas sobre as quais vale a pena reflectir. A Estante (Inverno 2016) apresenta um desafio literário aos seus leitores, destinado a diversificar as escolhas. Num total de dezoito itens propõe objectivos que passam pela leitura de uma biografia, de autores de diferentes latitudes (Ásia, África, América do Sul), não ficção ou novela gráfica. As propostas podem ser discutíveis, mas a intenção é boa. Este livro que me chegou às mãos pega de novo no tema das escolhas de leitura e pareceu-me muito interessante. Não creio que haja uma resposta certa/errada. O importante é pensar sobre as opções e tomá-las de forma consciente. E ler, claro. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Os Brahamanes, Francisco Luiz Gomes




       O ano de 1415 marca simbolicamente o início de um novo período na história portuguesa, com o lançamento da grande aventura que foram os descobrimentos ultramarinos. Iniciou-se um tempo de contacto  com novas culturas, em particular com a Ásia, África e Américas, que se estendeu por séculos. Todavia, a influência deste acervo na literatura portuguesa não é, à partida, muito acentuada. Há a literatura de viagens, sem dúvida, grande parte dela escrita pelos missionários. E também obras como Os Lusíadas ou A peregrinação. Mas livros que dêem conta da vivência diária dos portugueses no além mar e do modo como se ligaram às culturas que foram encontrar, não são muitos. Aqui e ali ouvimos falar numa personagem que vai para as galés (como o Simão, de Amor de Perdição) ou de alguém que regressa rico do Brasil (como o primo Basílio que Eça faz regressar a Lisboa para desgraça de Luísa). 
    Há Wenceslau de Morais, claro, com a sua paixão pela cultura japonesa. E Ferreira de Castro, já no século XX. Esta mingua de autores surpreende-me e estou sempre à procura de quem tenha escrito sobre este tema. 
    Descobri este livro de Francisco Luiz Gomes há dias na banca da Minerva, na Feira do Livro, pela módica quantia de €4,00. O autor nasceu em Goa em 1829, tendo-se formado em medicina. Paralelamente teve um carreira política relevante, tendo representado a Índia Portuguesa nas Cortes Gerais (1861-1869). Liberal, a sua reputação ultrapassou largamente o território português. Faleceu em 1869 quando regressava a Goa, proveniente da Ilha da Madeira. 
    Tendo obra publicada na área da economia e da política, este é o seu único romance. A acção passa-se na Índia e envolve temas que remetem para o universo camiliano: paixão e vingança. Temos um lampejo do que era a vida dos europeus naquela região, sendo que a história se situa junto da comunidade inglesa. O porquê desta escolha, não consegui perceber. Liberdade criativa, sem dúvida. Mas talvez o romance miscigenado fosse demais para a sociedade portuguesa do século XIX. É precisamente nesse elemento amoroso que se situa a parte mais interessante do livro, por se intuir o que ele traz de revolucionário. Nota-se ainda a preocupação do autor em dar a conhecer um pouco da realidade do povo indiano que conheceu de perto, por ter vivido no território. livro encerra  uma forte crítica à escravatura dos povos africanos que em Portugal foi abolida em 1761 e na Inglaterra apenas mais de um século depois. Essa crítica surge, a meu ver, um pouco descontextualizada no livro, mas está bem escrita e vê-se que é sentida. Por isso, há distância de alguns séculos, comove pela sua intensidade. Para além do enredo amoroso, o outro aspecto que torna este livro interessante é a linguagem. Hoje já não se descrevem emoções como o faziam os autores do século XIX, incluindo Francisco Luiz Gomes. Só pelas suas palavras, de um barroco cristalino, vale a pena ler este livro. As personagens são simples, pouco trabalhadas, divididas entre bons e maus, sendo o seu percurso previsível para quem leu Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis. De resto, a fórmula romântica está lá: o sacrifício, a abnegação e a justa recompensa reservada pela vida aos que seguiram os caminhos do cristianismo, ao lado do castigo e arrependimento dos que não o fizeram. 
      Tudo ponderado a descoberta de (mais) este autor esquecido da língua portuguesa foi uma boa surpresa. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Bibliotecas para crianças









          A primeira fotografia mostra um aspecto da Biblioteca Pública de Cincinnati, especialmente vocacionado para crianças. A segunda é da biblioteca de Beijing, num espaço também destinado aos pequenos leitores. Outros exemplos podem ser vistos neste artigo  que encontrei na internet. E como Lisboa está atolhada em obras, talvez mais uma deste género viesse mesmo a calhar.  

terça-feira, 7 de junho de 2016

Notas de Cozinha de Leonardo da Vinci, Shelagh e Jonathan Routh



     As notas de cozinha de Leonardo da Vinci, uma oferta de aniversário de um dos meus melhores amigos, foram a minha leitura de cabeceira dos últimos dias, não obstante ser pouco dada a tachos e panelas. Mas mesmo para quem passa longe da cozinha estas notas são uma leitura imperdível.      

      Não se pode assegurar com absoluta certeza que estes sejam os apontamentos de cozinha de Leonardo Da Vinci. À sua morte deixou os manuscritos ao cuidado de Melzi, seu discípulo. Ao longo dos séculos os códices de Leonardo têm sido localizados em bibliotecas privilegiadas da Europa, designadamente em Madrid e em Leicester. O Codex Ramanoff, de onde são extraídas as notas de cozinha, terá sido encontrado no Hermitage e aí copiado. As circunstâncias que rodearam tal operação não são claras e as autoridades russas não confirmam, nem desmentem.  Mas não se duvida da importância da culinária na vida de Leonardo Da Vinci. Nascido em Florença o seu padrasto era pasteleiro, o que veio a calhar para alguém tão guloso como Leonardo. Da degustação passou à confecção. Mas o seu génio e a apetência pela culinária vegetariana nem sempre foram compreendidos pelos destinatários dos seus pratos, gente tão diversa como os clientes da Taberna dos Três Caracóis, Ludovico Sforza e Francico I de França. Leonardo nunca desanimou. 

          A primeira parte deste livro é composta por notas biográficas sobre Leonardo, um génio a quem devemos não só a Última Ceia, mas também o muito mais prosaico (mas inequivocamente útil) guardanapo. São vários episódios relatados não só como cozinheiro, mas também como mestre de festa e banquetes (lugar ocupado junto de Sforza). Tudo isto enquanto a sua extraordinária inteligência e capacidade de trabalho o levavam a invenções mirabolantes para o tempo (como o escafandro e a barbatana hoje usados no mergulho, tanques de guerra e máquinas de descascar alho), enquanto estudava astronomia, anatomia, hidráulica, cosmologia, mecânica, numa clara demonstração de que mais do que um homem do Renascimento Leonado Da Vinci foi o homem do Renascimento. A segunda parte do livro contém as receitas de cozinha, com tópico tão diversos como pudim de sabugueiro, sopa de caracóis e a sempre útil matéria do uso de venenos na cozinha. A não perder, pois!             

quarta-feira, 1 de junho de 2016

No dia da criança

Não me incluo no grupo dos adultos que gostam de ler livros infantis. O fenómeno Harry Potter passou-me totalmente ao lado, apesar dos esforços de alguns amigos para me ajudarem a perceber o encanto da história. As Crónicas de Narnia não foram além das 50 páginas. E O Senhor dos Anéis, um clássico da literatura infantil, mantém-se território inexplorado. Ainda assim, e contra todas as expectativas, dei por mim a ler A Pippi das Meias Altas, um clássico sueco reeditado pela Relógio d’Água. Enquanto lia as aventuras da rapariga de cabelos tão vermelhos que parecem ir pegar fogo ocorreu-me o quão triste poderia ser a sua vida, numa primeira leitura. Pippi vive numa quinta na companhia de um macaco e de um cavalo, depois de a mãe ter falecido e o pai desaparecido num naufrágio. Tem uma arca repleta de moedas de ouro e a cabeça cheia de histórias semeadas de evocações dos tempos em que viveu embarcada. E, no entanto, as suas histórias não são lúgubres, nem derrotistas. Pelo contrário, a mensagem é sempre de alegria e força para viver não como os outros querem mas como ela deseja.

Pensando nestes livros parece-me que um outro traço comum destas crianças é a imaginação. É ela que lhes permite darem a volta às situações e acreditarem que se vão desenvencilhar mesmo perante um mundo duro, cheio de regras e sem a presença de um adulto protector. Esta ausência intriga-me. São muitas as crianças dos livros que não têm um adulto que cuide delas, sendo órfãs. Por exemplo, Sara Crewe (a heroína de A princesinha), Ana dos Cabelos Ruivos, Tom Sawyer, Mogli e Annie. No fundo, retomando o fio dos contos de fadas tradicionais, em que algures na narrativa o pequeno protagonista dá por si sozinho no mundo. 
Podem existir várias explicações. Mas a mim ocorre-me uma em concreto: onde os adultos são protectores são também contentores e destruidores de possibilidades: “Não faças, não sabes, não é assim, vai para o teu quarto, faz os trabalhos, uma menina não faz isso, um homem não chora, etc, etc”
A Pippi não enfrentaria dois ladrões e dois polícias, a Sara Crewe não seria a protectora das alunas mais novas da escola, mesmo depois de cair em desgraça e o Mogli não descobriria por si mesmo qual o seu lugar na selva, se tivessem ao lado um adulto a dizer-lhes o que fazer.
Claro que sabemos que no mundo real as crianças precisam de alguém que as proteja e que delas cuide. O que me leva a pensar que esta ausência de progenitores tem uma mensagem que se destina, em última linha, aos adultos.
Talvez representem a sociedade com o seu peso e a sua força normativa. Ou talvez revelem aquilo que nos tornamos quando a criança que fomos desaparece. O que a Pippi, a Ana dos Cabelos Ruivos e o Tom nos mostram é que isso não pode acontecer. Todas estas personagens passam por desgostos e traições, sofrem desilusões e vêm os seus planos gorados. Como nos sucede a nós, está bom de ver. Mas isso não as derrota. Sendo inteligentes mantêm a capacidade de olhar para o mundo de forma fresca, curiosos com as pessoas e as situações que encontram e acreditando que no final tudo vai acabar bem. A mim, parece-me que a melhor atitude. Aliás, gosto tanto desse estado de espírito que vou fazer mais uma tentativa de ler as aventuras dos alunos de Hogwarts. E até já sei quem me vai emprestar os livros outra vez.