segunda-feira, 20 de junho de 2016

Dreaming of East, Barbara Hodgson


Depois de séculos confinados à ideia de que o destino natural de todas as mulheres até ao início do século XX era o lar, surgem agora diversos trabalhos de história que demonstram que a vida real nunca foi assim tão linear. São já muitos os livros que se detêm no percurso de mulheres que optaram por outros caminhos, conjugados ou não com o que alguém um dia designou como projectos mais amenos (como casar e ter filhos). E são tantas essas mulheres que, não podendo considerar-se a regra, também não podem ser vistas como simples excepções. A investigação na área da pintura (de que é exemplo o trabalho de Filipa Lowndes Vicente A arte sem história) e da história da música (Sounds and Sweet airs: The forgotten women of classic music, de Anna Beer) é disso elucidativo. E também o trabalho de Carla Hilário Quevedo As mulheres que fizeram Roma, bem elucidativo de que nem sempre aquelas se resignaram a ficar pacientemente sentadas a ver a História desenrolar-se. Isto para além da recuperação de figuras que ultrapassaram o esquecimento do tempo, mas foram muitas vezes deturpadas em aspectos essenciais, por esse poderoso mecanismo que é a imaginação romântica. Hipátia de Alexandria e Cleópatra são dois exemplos disso mesmo.

            O livro de Barbara Hodgson é mais uma machadada nessa visão tradicional. A autora põe em relevo o modo como a região do Médio Oriente constituiu um forte atractivo para muitas mulheres ocidentais, em particular no final do século XIX e inícios do século XX. Os costumes eram ali muito diferentes e mais liberais. Acresce que essas mulheres beneficiavam do estatuto híbrido decorrente de serem ocidentais e, com frequência, terem dinheiro. Algumas seguiram para aquela região para acompanharem o marido e outros familiares. Outras foram por sua conta e risco estudar, trabalhar ou mesmo visitar  tais países (um exemplo bem conhecido é o de Agatha Christie, que conheceu o seu segundo marido nas escavações arqueológicas em Ur). Este estudo de Hodgson é detalhado e completo, mas de leitura muito simples, sendo ilustrado com diversos exemplos de mulheres que se mudaram para o Médio Oriente e suas motivações. Um dos exemplos mais interessantes é o de Georgina Bell, inglesa, escritora, viajante e política. Sobre a sua vida, aliás, foi feito recentemente um filme em exibição entre nós, Rainha do Deserto, tendo no papel principal Nicole Kidman. Bell é admirável, até pela influência política que granjeou, mas não é caso único. Por isso, vale a pena investigar um pouco mais, sendo o livro de Hodgson, uma boa base para isso mesmo. 

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