quarta-feira, 1 de junho de 2016

No dia da criança

Não me incluo no grupo dos adultos que gostam de ler livros infantis. O fenómeno Harry Potter passou-me totalmente ao lado, apesar dos esforços de alguns amigos para me ajudarem a perceber o encanto da história. As Crónicas de Narnia não foram além das 50 páginas. E O Senhor dos Anéis, um clássico da literatura infantil, mantém-se território inexplorado. Ainda assim, e contra todas as expectativas, dei por mim a ler A Pippi das Meias Altas, um clássico sueco reeditado pela Relógio d’Água. Enquanto lia as aventuras da rapariga de cabelos tão vermelhos que parecem ir pegar fogo ocorreu-me o quão triste poderia ser a sua vida, numa primeira leitura. Pippi vive numa quinta na companhia de um macaco e de um cavalo, depois de a mãe ter falecido e o pai desaparecido num naufrágio. Tem uma arca repleta de moedas de ouro e a cabeça cheia de histórias semeadas de evocações dos tempos em que viveu embarcada. E, no entanto, as suas histórias não são lúgubres, nem derrotistas. Pelo contrário, a mensagem é sempre de alegria e força para viver não como os outros querem mas como ela deseja.

Pensando nestes livros parece-me que um outro traço comum destas crianças é a imaginação. É ela que lhes permite darem a volta às situações e acreditarem que se vão desenvencilhar mesmo perante um mundo duro, cheio de regras e sem a presença de um adulto protector. Esta ausência intriga-me. São muitas as crianças dos livros que não têm um adulto que cuide delas, sendo órfãs. Por exemplo, Sara Crewe (a heroína de A princesinha), Ana dos Cabelos Ruivos, Tom Sawyer, Mogli e Annie. No fundo, retomando o fio dos contos de fadas tradicionais, em que algures na narrativa o pequeno protagonista dá por si sozinho no mundo. 
Podem existir várias explicações. Mas a mim ocorre-me uma em concreto: onde os adultos são protectores são também contentores e destruidores de possibilidades: “Não faças, não sabes, não é assim, vai para o teu quarto, faz os trabalhos, uma menina não faz isso, um homem não chora, etc, etc”
A Pippi não enfrentaria dois ladrões e dois polícias, a Sara Crewe não seria a protectora das alunas mais novas da escola, mesmo depois de cair em desgraça e o Mogli não descobriria por si mesmo qual o seu lugar na selva, se tivessem ao lado um adulto a dizer-lhes o que fazer.
Claro que sabemos que no mundo real as crianças precisam de alguém que as proteja e que delas cuide. O que me leva a pensar que esta ausência de progenitores tem uma mensagem que se destina, em última linha, aos adultos.
Talvez representem a sociedade com o seu peso e a sua força normativa. Ou talvez revelem aquilo que nos tornamos quando a criança que fomos desaparece. O que a Pippi, a Ana dos Cabelos Ruivos e o Tom nos mostram é que isso não pode acontecer. Todas estas personagens passam por desgostos e traições, sofrem desilusões e vêm os seus planos gorados. Como nos sucede a nós, está bom de ver. Mas isso não as derrota. Sendo inteligentes mantêm a capacidade de olhar para o mundo de forma fresca, curiosos com as pessoas e as situações que encontram e acreditando que no final tudo vai acabar bem. A mim, parece-me que a melhor atitude. Aliás, gosto tanto desse estado de espírito que vou fazer mais uma tentativa de ler as aventuras dos alunos de Hogwarts. E até já sei quem me vai emprestar os livros outra vez. 

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