terça-feira, 14 de junho de 2016

Os Brahamanes, Francisco Luiz Gomes




       O ano de 1415 marca simbolicamente o início de um novo período na história portuguesa, com o lançamento da grande aventura que foram os descobrimentos ultramarinos. Iniciou-se um tempo de contacto  com novas culturas, em particular com a Ásia, África e Américas, que se estendeu por séculos. Todavia, a influência deste acervo na literatura portuguesa não é, à partida, muito acentuada. Há a literatura de viagens, sem dúvida, grande parte dela escrita pelos missionários. E também obras como Os Lusíadas ou A peregrinação. Mas livros que dêem conta da vivência diária dos portugueses no além mar e do modo como se ligaram às culturas que foram encontrar, não são muitos. Aqui e ali ouvimos falar numa personagem que vai para as galés (como o Simão, de Amor de Perdição) ou de alguém que regressa rico do Brasil (como o primo Basílio que Eça faz regressar a Lisboa para desgraça de Luísa). 
    Há Wenceslau de Morais, claro, com a sua paixão pela cultura japonesa. E Ferreira de Castro, já no século XX. Esta mingua de autores surpreende-me e estou sempre à procura de quem tenha escrito sobre este tema. 
    Descobri este livro de Francisco Luiz Gomes há dias na banca da Minerva, na Feira do Livro, pela módica quantia de €4,00. O autor nasceu em Goa em 1829, tendo-se formado em medicina. Paralelamente teve um carreira política relevante, tendo representado a Índia Portuguesa nas Cortes Gerais (1861-1869). Liberal, a sua reputação ultrapassou largamente o território português. Faleceu em 1869 quando regressava a Goa, proveniente da Ilha da Madeira. 
    Tendo obra publicada na área da economia e da política, este é o seu único romance. A acção passa-se na Índia e envolve temas que remetem para o universo camiliano: paixão e vingança. Temos um lampejo do que era a vida dos europeus naquela região, sendo que a história se situa junto da comunidade inglesa. O porquê desta escolha, não consegui perceber. Liberdade criativa, sem dúvida. Mas talvez o romance miscigenado fosse demais para a sociedade portuguesa do século XIX. É precisamente nesse elemento amoroso que se situa a parte mais interessante do livro, por se intuir o que ele traz de revolucionário. Nota-se ainda a preocupação do autor em dar a conhecer um pouco da realidade do povo indiano que conheceu de perto, por ter vivido no território. livro encerra  uma forte crítica à escravatura dos povos africanos que em Portugal foi abolida em 1761 e na Inglaterra apenas mais de um século depois. Essa crítica surge, a meu ver, um pouco descontextualizada no livro, mas está bem escrita e vê-se que é sentida. Por isso, há distância de alguns séculos, comove pela sua intensidade. Para além do enredo amoroso, o outro aspecto que torna este livro interessante é a linguagem. Hoje já não se descrevem emoções como o faziam os autores do século XIX, incluindo Francisco Luiz Gomes. Só pelas suas palavras, de um barroco cristalino, vale a pena ler este livro. As personagens são simples, pouco trabalhadas, divididas entre bons e maus, sendo o seu percurso previsível para quem leu Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis. De resto, a fórmula romântica está lá: o sacrifício, a abnegação e a justa recompensa reservada pela vida aos que seguiram os caminhos do cristianismo, ao lado do castigo e arrependimento dos que não o fizeram. 
      Tudo ponderado a descoberta de (mais) este autor esquecido da língua portuguesa foi uma boa surpresa. 

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