sábado, 9 de julho de 2016

O fim da mulher silenciosa




    Ben Jonson escreveu no século XVII A balada da mulher silenciosa (Song of the silent woman), um poema que descreve uma mulher que está a espera para ser arranjada e vestida para ir a uma festa e à qual pede um olhar, uma expressão que "faz da simplicidade uma graça", nas palavras do poeta. Não lhe pede que fale porque aparentemente o que as mulheres tinham para dizer não era interessante. Deste entendimento é resquício a expressão gaulesa sois belle e tais toi. Houve excepções, claro. As cartas de Madame de Sevigné (ridicularizada por Moliére pelas suas aspirações intelectuais) são um exemplo. O mesmo se diga das memórias de Elisabeth Vigée Lebrun, pintora francesa do século XVIII ou dos escritos de Madame de Chatelêt. Sempre existiram mulheres a escrever, a pintar e mesmo a dirigir países. E, claro, no século XIX, Jane Austen e as irmãs Bronte, são romancistas de referência. Mas a verdade é que durante séculos o que era ser mulher foi descrito essencialmente pelos homens. Agora, vivemos um tempo diverso pelo menos neste lado do planeta. As mulheres falam com voz própria, relatando as suas vivências e anseios, dúvidas e convicções. E assim vai-se suprindo uma falha com que muitas de nós crescemos: a descrição do mundo e do processo de maturação, por uma voz próxima da nossa. Por mim, tendo crescido sem o conhecimento destas obras, quando as leio sinto que encontro o que procurei durante a adolescência e início da vida adulta. Ainda nessa altura (e não foi assim há taaaanto tempo) eram poucas as narrativas pela voz feminina. Marion Zimmler Bradley e Isabel Allende eram duas excepções a juntar às autoras inglesas e, ainda assim, no terreno da ficção. A exposição do mundo pelos olhos de uma mulher que me precede, que responde às minhas dúvidas e que antecipa as escolhas que terei de fazer. Não me substitui nas opções. Mas mostra-me que há muitos caminhos que se podem percorrer para além daquele que por ser mais evidente é com frequência o mais trilhado. Este ano a parte de leão das minhas leituras tem sido constituído por obras com estas características. Deixo aqui as minhas impressões.Não são livros apenas "para mulheres" (se é que tal coisa existe). O que os caracteriza e une é que são relatos de quem decidiu ir descobrir o mundo, escritos no feminino. 
     Apenas miúdos de Patti Smith é um relato autobiográfico da juventude da artista norte-americana. Leva-nos a Nova Iorque, ao início do seu processo criativo e à sua relação com Robert Mapplethorpe. Lê-se de uma assentada. As dificuldades materiais pelas quais passaram, o desenvolvimento do tempo criativos, os meses no mítico Chelsea Hotel são descritos com a objectividade dos anos, mas sem que se perca a noção do tempo apaixonado e intenso que a autora viveu. Segue-se M Train, também traduzido para português, mas que ainda não li.Susan Neiman é uma das mais conceituadas filósofas contemporâneas. Em Portugal foi editado O Mal no Pensamento Moderno, mas há outros livros disponíveis como Why grow up? ou Moral Clarity. As obras de Neiman têm o condão de tratando de temas complexos serem de leitura escorreita mesmo para quem não tem formação académica em filosofia, pois escreve de forma muito clara e precisa. Não ilude ou escamoteia as questões mas consegue pôr-nos a pensar sobre elas e não a tentarmos perceber o que quer ela dizer. O seu pensamento é claro e está descrito de forma objectiva. Slow Fire  (ao que sei sem edição em Portugal) é o relato autobiográfico dos anos em que viveu em Berlim e ali estudou Filosofia, restando dizer que a acção decorre na década de 80 do século XX, com o muro a dividir a cidade e que a autora é descendente de judeus. É muito interessante ler as aventuras e o percurso intelectual e vivencial desta académica, pois relata-nos não apenas a vida universitária, mas também as suas interacções sociais e percepção da vida berlinense.  
    É sabido que ao longo da História existiram inúmeros mulheres pintoras e escultoras. Artemisia Gentilishi, Angela Kaufmann, Josefa d’Óbidos e Camille Claudel são apenas exemplos. Mas são poucos os registos escritos que lhes são conhecidos. Talvez por isso ganhem especial interesse o diário criativo de Frida Kahlo e a narrativa autobiográfica de Judy Chicago. As suas obras são muito diferentes entre si. O registo de Frida Kahlo é íntimo e nunca se destinou a ser publicado. A sua edição (disponível em Portugal) é um manancial de cor e dor, dividida entre a descoberta da riqueza cultural mexicana, o amor por Diego Rivera e as sequelas do acidente que teve em adolescente e que lhe deixou marcas no corpo para toda a vida. O livro de Judy Chicago teve na sua génese um propósito muito diverso. Descobri-o no Museu de Arte Contemporânea de Estocolmo. O museu está organizado de forma a que o público tenha acesso a livros directa ou indirectamente relacionados com o acervo em exposição. Como visitei o museu sozinha e sem restrições de horário tive tempo para explorar um exemplar desta obra. Foi assim que me apercebi de que Judy Chicago é uma das mais conceituadas artistas plásticas norte-americanas, feminista e activista. Este livro foi escrito em resposta ao desafio lançado por Anais Nin e visa responder à necessidade sentida pelas jovens pintoras que se sentiam algo desamparadas nos primeiros passos no mundo da arte. Mesmo para quem não é uma jovem candidata a artista plástica o livro é uma leitura interessante. Chicago relata a sua infância e juventude, entrada na vida adulta e maturação como mulher e como artista. É muito frontal nos relatos que faz, designadamente no plano da descoberta sexual e das suas opções amorosas. Algumas das realidades que descreve podem estar um pouco datadas (a autora nasceu em 1939), mas o livro está longe de ter apenas interesse histórico ou restrito a quem seja apreciador da sua obra artística. Aliás, eu não a conhecia e ainda não conheço grande parte do seu trabalho, o que não me impediu de achar a leitura deste livro viciante. A ler e reler, certamente. E, por fim, uma palavra para A minha vida, autobiografia de Isadora Duncan. Há anos que tenho a edição de bolso francesa e verifico que foi agora editada versão em português, pela Nova Acrópole. Duncan foi bailarina com uma carreira internacional que a levou a actuar um pouco por todo o mundo. A morte colheu-a num acidente de viação, impedindo-a de reler as provas deste livro e proceder às correcções necessárias. Mas ainda assim, a sua escrita vibrante pulsa em cada uma das páginas desta sua obra à medida que relata a sua progressão na carreira, as viagens feitas e as impressões de vida.


  

2 comentários:

  1. Peço desculpa por esta observação, mas este tipo de letra dificulta a leitura do teu post. Será que podes mudar? Obrigada.

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    1. Claro que sim. Espero que esta letra seja melhor de ler. E obrigada pelo aviso.

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