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| in O poeta enamorado |
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Os Cães e os Lobos, Irène Némirovsky
Este
livro narra a história de Ada uma jovem judia que se apaixona
por Harry, com quem partilha a religião, mas não os meios de fortuna. Harry é
rico, muito rico, enquanto Ada e a sua família lutam em Paris pela sua
subsistência, enfrentando todo o tipo de adversidades. O enlevo de Ada por Harry
começa na infância de ambos e é durante muito tempo platónico. Aquela paixão é
uma fantasia, um reduto de sonhos, face a uma vida difícil, entre dificuldades económicas,
abandono familiar e perseguição aos judeus. Ada tem, porém, talento para a
pintura e é dessa forma que entra na vida de Harry. A paixão platónica de
infância, que o tempo não apagou, acaba por encontrar terreno para a concretização.
A estrutura deste romance é, pois, muito
simples. Há um núcleo de pobre e outros de ricos. A rapariga pobre apaixona-se
pelo menino rico. Um traço saliente do livro é também a assunção de diversos
preconceitos contra os judeus. Desde o seu amor desenfreado ao dinheiro e ao
luxo, passando pela mãe controladora, bem como pela ideia fatalista de desgraça à espera, estão lá muitas das ideias feitas sobre a cultura desse povo. A autora era judia de origem, mas nunca se reviu
nesse ambiente. Esse facto, aliado aos desentendimentos constantes com a mãe,
pode explicar este levar à cena (no caso à escrita) de uma forma tão clara os indicados preconceitos. A única personagem que deles se afasta é Ada, um alter ego da escritora. Lutadora,
convicta e corajosa, é também fantasiosa e romântica. No momento decisivo, não
lhe falta, contudo pragmatismo. O papel das mulheres no livro é decisivo. Harry surge como a imagem preponderante num primeiro momento. Mas quando analisamos mais detalhadamente, percebemos que quem toma as decisões são as mulheres que o rodeiam: a mãe, Laurence e Ada. O final da narrativa põe termo àquela que é uma das características de Ada que perpassa todo o livro: uma imensa solidão. Esse é um aspecto que, a meu ver, redime o livro que surge demasiado apoiado em fórmulas de escrita já estudadas e sem grande inovação.
Quando a autora escreveu este livro tinha cerca de 40 anos. Na data da publicação a Europa estava mergulhada na II Guerra Mundial, de que a própria autora seria vitima, vindo a morrer em 1942 num campo de concentração nazi.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
O Verão Indiano
Em
A viagem sentimental Lawrence Sterne parodia
uma das invenções novecentistas: a viagem de iniciação. Todo o jovem bem-educado
e de posses terminava a sua educação com uma volta pela Europa civilizada: Paris,
Londres e Roma e Florença. A que se acresciam Madrid e Atenas para os mais
aventureiros. E, limite da ousadia, Istambul. São múltiplos os exemplos desse
périplo para jovens elegantes. Na literatura portuguesa, basta recordar a
viagem de Carlos Eduardo quando finalizou os estudos de medicina (Os Maias). E Henry James
dá-nos um vislumbre dessa mesma realidade, vivida no feminino no seu livro Retrato de Uma Senhora.
Hoje
as viagens são mais fáceis. Talvez por isso já ninguém acredite que basta ir a
Paris para nos encontrarmos a nós mesmos. Os destinos têm de ser mais
longínquos, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista cultural. A
partir da década de 60 a viagem de iniciação por excelência passou a ser a
Índia, por conta da forte carga religiosa e da colagem que a ela foi feita por
tantos semi-pensadores new age. Terzani,
no seu O fim é o meu princípio,
recorda os magotes de jovens que chegavam à Índia nos anos 60 e 70 e que
acabavam por se perder entre ashrams e gurus.
Isto
dito, sem dúvida que a viagem à Índia ocupa um lugar de destaque no imaginário
ocidental. Incluindo o desta blogger
que este ano pela primeira vez poisou os pés em solo indiano. Para tanto, levei
a cabo uma série de leituras preparatórias. Algumas delas estão documentadas na
fotografia que ilustra esta publicação. Outras ainda não foram concluídas, como
é o caso da autobiografia de Ghandi As
minhas experiências com a verdade.
Os
livros de Tiziano Terzani e de Ryziard Kapuzinski não são exclusivamente sobre
a Índia. Narram experiências e viagens mais vastas. Ainda assim, como escrevi
em publicação anterior, têm pontos em comum. Desde logo, o aviso quanto à
necessidade de preparação prévia, para evitar males maiores. Por exemplo, foi
ao ler Travels with Herodotus que
tomei conhecimento de que são muito poucos os indianos que falam inglês. Na
verdade, são mais de 17 línguas e dialectos nacionais, o que para um
estrangeiro como eu, põe problemas adicionais na organização da viagem, dado
que não conheço nenhum. Terzani, um apaixonado pela Índia, desdramatiza a carga
iniciática da viagem. Concordo. Por experiência própria sei que é difícil ter uma epifania no meio da rua em Nova Dehli, com temperaturas por
volta dos 40º graus e humidade muito acima do que estamos habituados. A única revelação possível é o desejo de beber uma garrafa de água fresca que não nos
conduza directamente ao hospital. Sobre isso mesmo, em tom tragicómico é o
livro de William Sutcliffe A viagem da
minha vida pela Índia de mala às costas. O narrador assume um tom de
autocomiseração enquanto se confronta com as diferenças entre a viagem
idealizada e a viagem real, para concluir, no regresso ao conforto inglês que
há uma terceira via: a viagem narrada, a qual pode incluir os episódios vividos
contados a uma nova luz. Muito diferentes são os relatos de Alberto Moravia e
Pier Paolo Pasolini. Homens maduros e conhecedores viajaram pela Índia no
âmbito de um convite para participarem num congresso de homenagem a
Rabindranath Tagore. As suas visões são distintas, mas críticas e
complementares. De tudo o que li, devo dizer que Uma ideia da Índia e O cheiro
da Índia, escritos nos anos 60 do século XX, são o que mais se aproxima do
país que vislumbrei. Em todos os relatos uma semelhança também verificada por
mim: a realidade indiana é tão forte que eclipsa a rica história do país. Quando
atravessamos as ruas da Índia, confrontando-nos com enormes disparidades
culturais, exemplos de miséria medieval (como lhe chamou Moravia), cores,
cheiros e sabores intensos, esquecemos os monumentos que visitamos. Quando penso
na Índia são as suas gentes que me vêem à cabeça. Não o Taj Mahal ou Kajurao
por muito impressionantes que sejam (e são). Recordo-me mais facilmente da
imagem impressionante de centenas de pessoas metidas num comboio sem ar
condicionado numa estação perdida na província indiana ou de uns rapazes a
tomarem banho num lago artificial junto das Portas da Índia, do que de Amber a
monumental antiga capital de Jaipur, cuja beleza e serenidade são esmagadoras. Um
outro livro de que gostei e me marcou foi Lendas da Índia do poeta e diplomata
português, Luís Filipe de Castro Mendes. Um conjunto de poemas límpidos e
tranquilos sobre esse país e sobre Angkor, um outro destino que faz parte do
meu imaginário. Poemas também, mas de um dos pais espirituais da Índia, Rabindranath
Tagore, compilados em A Asa e a Luz. Palavras aparentemente simples, mas que
escondem uma mensagem rica e bem mais complexa do que a que surge numa primeira
leitura. E, last but not least, a
minha leitura de cabeceira nesta primeira viagem ao continente indiano: Sete cartas a uma jovem amiga, de Krishnamurti.
Merece uma publicação à parte. E um dia, espero, tê-la-á- Por agora, apenas
posso dizer que ler aquelas páginas é o antídoto perfeito para aqueles que procuram
reduzir a espiritualidade indiana ao simplismo atroz do new age. Estão no pólo oposto um do outro. E, por agora, é o que me
sinto autorizada a dizer …
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Boas notícias
Um novo livro de Arturo Pérez-Reverte é sempre uma boa notícia. A Visão traz uma excelente entrevista com o escritor, para a qual uma amiga me alertou. Podem ler aqui e vale a pena reflectir sobre as suas palavras. Sobre o livro (que se passa nas vésperas da Revolução Francesa) e sobre o momento que vivemos.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
O fim é o meu princípio, Tiziano Terzani
Se quisermos levar a
cabo uma apresentação simples podemos dizer que Terzani foi um jornalista e
escritor italiano que viajou pelo mundo, com um interesse especial pelo
Oriente, tendo escrito sobre isso mesmo. Foi casado e deixou dois filhos. Escreveu
vários livros, sendo entre nós mais conhecido Disse-me um adivinho, relato de um ano de viagens pelo Oriente,
usando todos os meus de transporte menos os aéreos. Esta é a versão breve,
claro. Bem mais interessante é mergulhar na sua vida pelas suas próprias
palavras. É isso que este livro faz.
Já perto da morte Terzani manteve longas conversas com o
filho, relatando-lhe a sua infância em Itália, os sonhos que teve e o caminho
que percorreu. Terzani teve uma vida rica em acontecimentos e soube aproveitá-la.
Nasceu pobre, estudou e trabalhou, tendo concretizado o sonho de ir viver para
a China, seu ideal político. Sofreu aí uma forte desilusão, ao perceber como
funcionava o sistema comunista. Criou também a convicção de que a única
revolução verdadeira é aquela que cada homem faz dentro de si. E isso foi
confirmando ao longo da sua vida, assumindo aí particular relevo a sua estadia
na Índia. Terzani não adopta a postura deslumbrada de tantos ocidentais quanto
a esse país, cuja pobreza e sistema de castas não podem deixar de marcar quem o
visita (mesmo hoje, quando aquele último, foi oficialmente abolido). Chama
mesmo à atenção para o perigo das viagens à India feitas por pessoas
impreparadas que facilmente se deixam engolir por um país em que tudo é grande
e excessivo. Aliás, neste aspecto a sua descrição recorda o relato de Ryzard
Kapuscinski no seu livro Travels with
Herodotus, onde também é salientada a conveniência de preparação prévia
para quem queira conhecer este país com milhões de almas e milhões de deuses
que encarnam em simultâneo o bem e o mal. Ainda assim, é evidente a importância
que a experiência indiana teve na vida de Terzani. São ainda relatadas outras
vivências orientais, designadamente a sua passagem pela Tailândia e pelo
Vietname.
A última parte do livro é uma espécie de testamento
espiritual do escritor italiano. Muito descrente da sociedade contemporânea a
sua mensagem final é sobretudo um apelo ao sonho, à imaginação e à capacidade
de cada um forjar o seu próprio destino. No fundo, um elogio da auto-confiança
e do não conformismo. Uma mensagem perfeitamente consentânea com quem
acreditava que cada homem (ou mulher) se salva apenas a si mesmo (a).
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Mulheres, livros, quadros
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| Pino Daeni |
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| Berthe Morisot |
Curiosamente, sendo seres cuja menoridade e inferioridade foi durante séculos dada como adquirida, são muito comuns os quadros de mulheres a ler. Talvez por existir o consolo de que estariam ocupadas como patetices sentimentais ou romances de cavalaria, como a Luísa de O Primo Basílio. Mas, se calhar, quem assim pensou estava bem enganado. E muitas destas mulheres estavam a aprender a fazer uma revolução. Aqui ficam alguns exemplos de que gosto particularmente (o artigo original pode ser lido aqui)
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Recomendação de fim de semana
“A
edição do volume mantido na gaveta pelo poeta veio confirmar, em grande medida,
a novidade prenunciada pelos textos eróticos divulgados em vida por Drummond:
chama a atenção o carácter solar predominante no livro, positividade rara em
uma poesia caracterizada quase sempre pela corrosão, pelo desconcerto, pela
negatividade.”, in Posfácio de Mariana Quadros
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Joan Didion dixit
Didion é uma escritora pouco conhecida
em Portugal. Creio que da sua obra apenas se encontra traduzido uma memória autobiográfica,
O Ano do Pensamento Mágico. O livro é denso e relata o primeiro ano subsequente
à morte do marido de Didion, ocorrida de forma inesperada. Mas a autora
escreveu muito, muito mais. Peças jornalísticas, ensaios e ficção, bem como (de
parceria com o marido) o argumento de alguns filmes. Íntimo e Pessoal (Up close
and personal) com Robert Redford e Michelle Pfeiffer é um exemplo.
Estou longe de conhecer toda a sua
obra, mas tudo o que conheço é excelente. Como Blue Nights (sobre o qual já escrevi
aqui) e o ensaio Self-Respect (inicialmente publicado na Vogue em 1961), que
podem ler aqui.
E não podia concordar mais com a
citação. Ler biografias é essencial para as crianças. Adaptadas à sua idade, claro. Através delas aprendem a lidar com insucessos e frustrações, dificuldades e também alegrias. E ainda com a ideia da morte, final de qualquer biografia. Recordo-me de um dos meus livros favoritos em miúda, uma edição infantil sobre a vida de Beethoven. Não conheci a sua música se não anos mais tarde. Mas li e reli vezes sem conta o relato das suas peculiaridades, da sua vida familiar e da surdez que não o impediu de continuar a compor. E passados tantos anos, ainda consigo convocar alguns dos desenhos que ilustravam o livro.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
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