segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Verão Indiano

Em A viagem sentimental Lawrence Sterne parodia uma das invenções novecentistas: a viagem de iniciação. Todo o jovem bem-educado e de posses terminava a sua educação com uma volta pela Europa civilizada: Paris, Londres e Roma e Florença. A que se acresciam Madrid e Atenas para os mais aventureiros. E, limite da ousadia, Istambul. São múltiplos os exemplos desse périplo para jovens elegantes. Na literatura portuguesa, basta recordar a viagem de Carlos Eduardo quando finalizou os estudos de medicina (Os Maias). E Henry James dá-nos um vislumbre dessa mesma realidade, vivida no feminino no seu livro Retrato de Uma Senhora.
Hoje as viagens são mais fáceis. Talvez por isso já ninguém acredite que basta ir a Paris para nos encontrarmos a nós mesmos. Os destinos têm de ser mais longínquos, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista cultural. A partir da década de 60 a viagem de iniciação por excelência passou a ser a Índia, por conta da forte carga religiosa e da colagem que a ela foi feita por tantos semi-pensadores new age. Terzani, no seu O fim é o meu princípio, recorda os magotes de jovens que chegavam à Índia nos anos 60 e 70 e que acabavam por se perder entre ashrams e gurus.
Isto dito, sem dúvida que a viagem à Índia ocupa um lugar de destaque no imaginário ocidental. Incluindo o desta blogger que este ano pela primeira vez poisou os pés em solo indiano. Para tanto, levei a cabo uma série de leituras preparatórias. Algumas delas estão documentadas na fotografia que ilustra esta publicação. Outras ainda não foram concluídas, como é o caso da autobiografia de Ghandi As minhas experiências com a verdade.
Os livros de Tiziano Terzani e de Ryziard Kapuzinski não são exclusivamente sobre a Índia. Narram experiências e viagens mais vastas. Ainda assim, como escrevi em publicação anterior, têm pontos em comum. Desde logo, o aviso quanto à necessidade de preparação prévia, para evitar males maiores. Por exemplo, foi ao ler Travels with Herodotus que tomei conhecimento de que são muito poucos os indianos que falam inglês. Na verdade, são mais de 17 línguas e dialectos nacionais, o que para um estrangeiro como eu, põe problemas adicionais na organização da viagem, dado que não conheço nenhum. Terzani, um apaixonado pela Índia, desdramatiza a carga iniciática da viagem. Concordo. Por experiência própria sei que é difícil ter uma epifania no meio da rua em Nova Dehli, com temperaturas por volta dos 40º graus e humidade muito acima do que estamos habituados. A única revelação possível é o desejo de beber uma garrafa de água fresca que não nos conduza directamente ao hospital. Sobre isso mesmo, em tom tragicómico é o livro de William Sutcliffe A viagem da minha vida pela Índia de mala às costas. O narrador assume um tom de autocomiseração enquanto se confronta com as diferenças entre a viagem idealizada e a viagem real, para concluir, no regresso ao conforto inglês que há uma terceira via: a viagem narrada, a qual pode incluir os episódios vividos contados a uma nova luz. Muito diferentes são os relatos de Alberto Moravia e Pier Paolo Pasolini. Homens maduros e conhecedores viajaram pela Índia no âmbito de um convite para participarem num congresso de homenagem a Rabindranath Tagore. As suas visões são distintas, mas críticas e complementares. De tudo o que li, devo dizer que Uma ideia da Índia e O cheiro da Índia, escritos nos anos 60 do século XX, são o que mais se aproxima do país que vislumbrei. Em todos os relatos uma semelhança também verificada por mim: a realidade indiana é tão forte que eclipsa a rica história do país. Quando atravessamos as ruas da Índia, confrontando-nos com enormes disparidades culturais, exemplos de miséria medieval (como lhe chamou Moravia), cores, cheiros e sabores intensos, esquecemos os monumentos que visitamos. Quando penso na Índia são as suas gentes que me vêem à cabeça. Não o Taj Mahal ou Kajurao por muito impressionantes que sejam (e são). Recordo-me mais facilmente da imagem impressionante de centenas de pessoas metidas num comboio sem ar condicionado numa estação perdida na província indiana ou de uns rapazes a tomarem banho num lago artificial junto das Portas da Índia, do que de Amber a monumental antiga capital de Jaipur, cuja beleza e serenidade são esmagadoras. Um outro livro de que gostei e me marcou foi Lendas da Índia do poeta e diplomata português, Luís Filipe de Castro Mendes. Um conjunto de poemas límpidos e tranquilos sobre esse país e sobre Angkor, um outro destino que faz parte do meu imaginário. Poemas também, mas de um dos pais espirituais da Índia, Rabindranath Tagore, compilados em A Asa e a Luz. Palavras aparentemente simples, mas que escondem uma mensagem rica e bem mais complexa do que a que surge numa primeira leitura. E, last but not least, a minha leitura de cabeceira nesta primeira viagem ao continente indiano: Sete cartas a uma jovem amiga, de Krishnamurti. Merece uma publicação à parte. E um dia, espero, tê-la-á- Por agora, apenas posso dizer que ler aquelas páginas é o antídoto perfeito para aqueles que procuram reduzir a espiritualidade indiana ao simplismo atroz do new age. Estão no pólo oposto um do outro. E, por agora, é o que me sinto autorizada a dizer …



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