quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os Cães e os Lobos, Irène Némirovsky

Este livro narra a história de Ada uma jovem judia que se apaixona por Harry, com quem partilha a religião, mas não os meios de fortuna. Harry é rico, muito rico, enquanto Ada e a sua família lutam em Paris pela sua subsistência, enfrentando todo o tipo de adversidades. O enlevo de Ada por Harry começa na infância de ambos e é durante muito tempo platónico. Aquela paixão é uma fantasia, um reduto de sonhos, face a uma vida difícil, entre dificuldades económicas, abandono familiar e perseguição aos judeus. Ada tem, porém, talento para a pintura e é dessa forma que entra na vida de Harry. A paixão platónica de infância, que o tempo não apagou, acaba por encontrar terreno para a concretização.

         A estrutura deste romance é, pois, muito simples. Há um núcleo de pobre e outros de ricos. A rapariga pobre apaixona-se pelo menino rico. Um traço saliente do livro é também a assunção de diversos preconceitos contra os judeus. Desde o seu amor desenfreado ao dinheiro e ao luxo, passando pela mãe controladora, bem como pela ideia fatalista de desgraça à espera, estão lá muitas das ideias feitas sobre a cultura desse povo. A autora era judia de origem, mas nunca se reviu nesse ambiente. Esse facto, aliado aos desentendimentos constantes com a mãe, pode explicar este levar à cena (no caso à escrita) de uma forma tão clara os indicados preconceitos. A única personagem que deles se afasta é Ada, um alter ego da escritora. Lutadora, convicta e corajosa, é também fantasiosa e romântica. No momento decisivo, não lhe falta, contudo pragmatismo. O papel das mulheres no livro é decisivo. Harry surge como a imagem preponderante num primeiro momento. Mas quando analisamos mais detalhadamente, percebemos que quem toma as decisões são as mulheres que o rodeiam: a mãe, Laurence e Ada. O final da narrativa põe termo àquela que é uma das características de Ada que perpassa todo o livro: uma imensa solidão. Esse é um aspecto que, a meu ver, redime o livro que surge demasiado apoiado em fórmulas de escrita já estudadas e sem grande inovação. 
        Quando a autora escreveu este livro tinha cerca de 40 anos.  Na data da publicação a Europa estava mergulhada na II Guerra Mundial, de que a própria autora seria vitima, vindo a morrer em 1942 num campo de concentração nazi. 

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