segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Livraria do mundo: Assouline





        


        Prospor e Martine Assouline criaram esta marca que leva o apelido de ambos há vinte anos. O objectivo foi produzir a primeira marca de luxo em matéria de cultura. Os livros têm um papel central no projecto, mas o conceito é mais vasto e propõe-se apresentar tudo o que possa tornar a biblioteca um lugar (ainda) mais apetecível. A loja de Londres é um exercício de impecável bom gosto, como, aliás, também o sítio na internet (ver aqui). Os objectos de desejo que verdadeiramente me apetecia trazer para casa são alguns dos livros que por lá se encontram, sobre temas variados e com fotografias e textos impecáveis. Deixo algumas fotografias da minha lavra, sendo que na página que indico acima há outras igualmente dignas de observação atenta.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Astérix



            Texto corrido (e não BD) com ilustrações. Mais uma recordação de infância que se vai, depois do golpe que foi descobrir que a Anita se chamava, afinal, Martine. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Susan Neiman

A primeira vez que ouvi falar de Susan Neiman foi num programa de rádio há mais de 10 anos. A autora estava em Portugal a lançar O mal no pensamento moderno – Uma história alternativa da filosofia (ao que sei, o único dos seus livros traduzido em português). Na altura, comprei a obra e li algumas partes. Mas só no ano passado numa livraria em Londres tornei a encontrar obras de Neiman. Em particular, este Why grow up? A primeira observação a fazer está relacionada com um aspecto instrumental, mas não isento de importância. O livro surge publicado numa colecção de livros de bolso, maximizando o acesso do grande público. Este é um dos aspectos que me cativa na cultura anglo-saxónica. A filosofia não é assunto de alguns, poucos, iluminados. É antes uma tarefa de todos, pois uma vida reflectida é um ponto essencial para uma vida bem vivida (qualquer que seja o entendimento que tenhamos sobre esta última questão).
         Why grow up? fala precisamente sobre o processo de amadurecimento que, não termina finda a adolescência, mas prossegue ao longo de toda a nossa vida. Pelo menos quando as coisas correm bem. Numa linguagem simples, mas não simplista, Neiman faz uma introdução histórica e comparatística, convocando um dos seus filósofos de eleição: Kant. Depois, introduz as coordenadas do seu pensamento sobre os instrumentos para nos tornarmos adultos: estudo, trabalho e viagens, explorando o que esperar de cada um destes vectores. Isto sem esquecer as características da sociedade actual, marcada pela superficialidade e infantilização constante dos cidadãos, feitas por eles próprios e pelas forças sociais. No limite, aliás, é contra estas que amadurecemos. Cidadãos que pensam por si não se distraem, como bem salienta a autora, com pão e circo. E, no fundo, quem quer verdadeiramente governar cidadãos adultos? 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Ainda sobre livros e hábitos de leitura



     As opções de leitura são fortemente condicionadas pelas escolhas de edição, claro. Os gostos e abertura de espírito dos editores são, assim, um aspecto essencial. Achei muito interessante esta entrevista publicada na CNN com Elda Rotor, editora de clássicos da Penguin. Podem ler aqui. Bom, bom era o cargo ser ocupado a seguir por um português. Porque como resulta da entrevista a nacionalidade dos editores pode também fazer a diferença. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Jane




Tive um fim-de-semana inesperadamente austeniano. E tudo por culpa de Simone de Beauvoir. Eu explico. O estado espírito à la Austen começou com a leitura do artigo que Emily Witt no The New York Times Style Magazine (podem ler aqui) publicou sobre o gosto das caminhadas que lhe foi insuflado pela leitura da autobiografia de Beauvoir. Esta, colocada como professora numa escola em Marselha longe da família, dos amigos e do seu amante, acabou por encontrar nas passeatas pelos bosques limítrofes o antídoto para o que seriam uns meses insípidos. Witt realça o facto de Baeuvoir ter sido uma precursora de obras como Wild de Chreryl Strayed ou Trilhos de Robyn Davidson. O primeiro não li, apenas vi excertos do filme entre sonos e sonhos num voo intercontinental. O segundo é o relato da travessia que a autora fez pelo deserto da Austrália, conduzindo uma manada de camelos.
Algumas horas depois de ter feito esta leitura começam a vir-me à mente imagens da série Orgulho e Preconceito da BBC. Nelas Elisabeth Bennett passeia sozinha pelos bosques, entregue à contemplação da natureza e às reflexões mais ou menos preconceituosas a que gostava de se dedicar. Seria uma falsa memória ou uma liberdade adaptativa do século XX?  Única solução possível para o dilema: reler Orgulho e Preconceito. E assim foi. Não há dúvidas, a heroína de Austen passeava sozinha pelos campos, apreciando a solidão e a liberdade, procurando mesmo evitar encontros com terceiros que lhe roubassem o prazer daquelas horas. Austen chegou antes da papisa do feminismo europeu, provando mais uma vez que quem a lê como uma escritora do chá das cinco passa bem ao lado da riqueza da sua obra. Nos livros dela, there’s much more than meets the eye!

domingo, 9 de outubro de 2016

Billie Holiday, Muñoz e Sampayo



             Foi triste a vida de Billie Holiday. Marcada pela violência, pelo racismo e pelo consumo de estupefacientes. Lê-se no prefácio deste livro que, apesar disso, tinha uma alegria interior que não a abandonou. Isso não se vislumbra nesta novela gráfica, escrita em homenagem à cantora norte-americana. Está escrita de forma original e com desenhos de grande beleza, mas o que fica é a ideia de uma tristeza sem fim e de que a vida por vezes é muito injusta. Oxalá Billie tenha tido essa tal alegria interior e a sua vida tenha tido momentos felizes para contrastar com o que é narrado nesta obra.  

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Orange is the new black - O ano que passei numa prisão de mulheres - Piper Kerman

Foi com alguma reserva que encarei este livro. Acho as memórias e autobiografias dos textos mais difíceis de escrever, dada a tentação humana de oscilar entre o discurso auto-desculpabilizador e a tendência para exagerar o seu próprio valor. Não é fácil escrever sobre si mesmo com distanciamento. 
   Uma destas noites, devidamente acompanhada de uma taça de chirasi (prato que não se encontra em cantinas prisionais, excepto, talvez no Japaão) aventurei-me nesta leitura. E valeu bem a pena. A autora oferece um relato pessoal, mas objectivo, capaz de reconhecer a sua responsabilidade sem deixar de mostrar as falhas do sistema.
         Piper Kerman nasceu em Boston numa família desafogada, tendo frequentado uma das melhores universidade norte-americanas. Depois, oscilante quanto ao seu futuro profissional, acabou por embarcar numa aventura que a levou a ser condenada pela prática dos crimes de branqueamento de capitais e tráfico de estupefacientes. É para cumprimento de uma pena de quinze meses de prisão que dá entrada num estabelecimento prisional de segurança mínima. O livro é o relato do período entre a condenação e a entrega voluntária (vários anos, devido a incidências processuais) e o tempo de cumprimento efectivo da pena. Da leitura do livro ficou um relato franco, mas delicado da vida prisional. Permite ver, e a autora sublinha mesmo esse aspecto, que ela era uma privilegiada, dado o apoio que recebia do meio exterior (família e amigos), com que muitas reclusas não podiam contar. Permite também compreender a desumanidade inerentes ao sistema e o desafio que é manter a identidade dentro de uma estrutura como a prisional. A de pessoalização começa logo à entrada da prisão com um discurso frio e a atribuição de um número. O relato de Piper Kerman põe em relevo as muitas dificuldades do dia-a-dia de quem cumpre pena de prisão, quer as práticas (obtenção de bens necessários), quer as decorrentes da perda de valor enquanto cidadão perante o poder. Embora não se detenha longamente na questão, a autora não deixa de chamar à atenção para a diferença entre o cidadão que está em liberdade e dialoga com o poder e o que está preso, tendo uma voz muito mais baixa ou mesmo não tendo voz. As dificuldades em viver no meio prisional são descritas de forma impressiva. E é também evidente o peso que ganha cada amizade, rara e duramente conquistada. Por fim, a escritora salienta ainda as dificuldades de inserção social que esperam aqueles que terminam a sua pena e voltam à vida em sociedade. Dificuldades em encontrar trabalho, em reorganizar a sua vida e em deixar para trás o passado de criminalidade. O caso de Kerman foi uma excepção, mas ela não deixa de reflectir sobre os parcos recursos das suas companheiras prisionais.

         A vida prisional é um dos tabus da nossa sociedade. Escreve-se pouco e pensa-se ainda menos sobre o sentido de cumprir uma pena desta natureza, sentido que transcende o da aplicação de um castigo. E, no entanto, só pensando sobre o tema é possível organizar o sistema prisional de forma a que quem lá entra possa ter instrumentos para não regressar. Nessa medida, a leitura desta obra, ainda que oriunda de um país diferente do nosso, é um bom elemento de reflexão, para qualquer membro da nossa sociedade. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma das mais perfeitas definições de Amizade


É um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Digo sensíveis, porque um monge, um solitário, pode não ser mau e viver sem conhecer a amizade. Digo virtuosos, porque os maus não têm senão cúmplices, os voluptuosos têm companheiros de deboche, os interesseiros têm associados, os políticos reúnem os facciosos, o comum dos homens ociosos tem ligações, os príncipes têm cortesãos. Só os homens virtuosos têm amigos. Cetegus era o cúmplice de Catilina e Mecenas o cortesão de Octávio, mas Cícero era amigo de Ático. (...) 

                                  Voltaire  in Dicionário Filosófico, editora sistema solar, pág. 21