segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Jane




Tive um fim-de-semana inesperadamente austeniano. E tudo por culpa de Simone de Beauvoir. Eu explico. O estado espírito à la Austen começou com a leitura do artigo que Emily Witt no The New York Times Style Magazine (podem ler aqui) publicou sobre o gosto das caminhadas que lhe foi insuflado pela leitura da autobiografia de Beauvoir. Esta, colocada como professora numa escola em Marselha longe da família, dos amigos e do seu amante, acabou por encontrar nas passeatas pelos bosques limítrofes o antídoto para o que seriam uns meses insípidos. Witt realça o facto de Baeuvoir ter sido uma precursora de obras como Wild de Chreryl Strayed ou Trilhos de Robyn Davidson. O primeiro não li, apenas vi excertos do filme entre sonos e sonhos num voo intercontinental. O segundo é o relato da travessia que a autora fez pelo deserto da Austrália, conduzindo uma manada de camelos.
Algumas horas depois de ter feito esta leitura começam a vir-me à mente imagens da série Orgulho e Preconceito da BBC. Nelas Elisabeth Bennett passeia sozinha pelos bosques, entregue à contemplação da natureza e às reflexões mais ou menos preconceituosas a que gostava de se dedicar. Seria uma falsa memória ou uma liberdade adaptativa do século XX?  Única solução possível para o dilema: reler Orgulho e Preconceito. E assim foi. Não há dúvidas, a heroína de Austen passeava sozinha pelos campos, apreciando a solidão e a liberdade, procurando mesmo evitar encontros com terceiros que lhe roubassem o prazer daquelas horas. Austen chegou antes da papisa do feminismo europeu, provando mais uma vez que quem a lê como uma escritora do chá das cinco passa bem ao lado da riqueza da sua obra. Nos livros dela, there’s much more than meets the eye!

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