sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Orange is the new black - O ano que passei numa prisão de mulheres - Piper Kerman

Foi com alguma reserva que encarei este livro. Acho as memórias e autobiografias dos textos mais difíceis de escrever, dada a tentação humana de oscilar entre o discurso auto-desculpabilizador e a tendência para exagerar o seu próprio valor. Não é fácil escrever sobre si mesmo com distanciamento. 
   Uma destas noites, devidamente acompanhada de uma taça de chirasi (prato que não se encontra em cantinas prisionais, excepto, talvez no Japaão) aventurei-me nesta leitura. E valeu bem a pena. A autora oferece um relato pessoal, mas objectivo, capaz de reconhecer a sua responsabilidade sem deixar de mostrar as falhas do sistema.
         Piper Kerman nasceu em Boston numa família desafogada, tendo frequentado uma das melhores universidade norte-americanas. Depois, oscilante quanto ao seu futuro profissional, acabou por embarcar numa aventura que a levou a ser condenada pela prática dos crimes de branqueamento de capitais e tráfico de estupefacientes. É para cumprimento de uma pena de quinze meses de prisão que dá entrada num estabelecimento prisional de segurança mínima. O livro é o relato do período entre a condenação e a entrega voluntária (vários anos, devido a incidências processuais) e o tempo de cumprimento efectivo da pena. Da leitura do livro ficou um relato franco, mas delicado da vida prisional. Permite ver, e a autora sublinha mesmo esse aspecto, que ela era uma privilegiada, dado o apoio que recebia do meio exterior (família e amigos), com que muitas reclusas não podiam contar. Permite também compreender a desumanidade inerentes ao sistema e o desafio que é manter a identidade dentro de uma estrutura como a prisional. A de pessoalização começa logo à entrada da prisão com um discurso frio e a atribuição de um número. O relato de Piper Kerman põe em relevo as muitas dificuldades do dia-a-dia de quem cumpre pena de prisão, quer as práticas (obtenção de bens necessários), quer as decorrentes da perda de valor enquanto cidadão perante o poder. Embora não se detenha longamente na questão, a autora não deixa de chamar à atenção para a diferença entre o cidadão que está em liberdade e dialoga com o poder e o que está preso, tendo uma voz muito mais baixa ou mesmo não tendo voz. As dificuldades em viver no meio prisional são descritas de forma impressiva. E é também evidente o peso que ganha cada amizade, rara e duramente conquistada. Por fim, a escritora salienta ainda as dificuldades de inserção social que esperam aqueles que terminam a sua pena e voltam à vida em sociedade. Dificuldades em encontrar trabalho, em reorganizar a sua vida e em deixar para trás o passado de criminalidade. O caso de Kerman foi uma excepção, mas ela não deixa de reflectir sobre os parcos recursos das suas companheiras prisionais.

         A vida prisional é um dos tabus da nossa sociedade. Escreve-se pouco e pensa-se ainda menos sobre o sentido de cumprir uma pena desta natureza, sentido que transcende o da aplicação de um castigo. E, no entanto, só pensando sobre o tema é possível organizar o sistema prisional de forma a que quem lá entra possa ter instrumentos para não regressar. Nessa medida, a leitura desta obra, ainda que oriunda de um país diferente do nosso, é um bom elemento de reflexão, para qualquer membro da nossa sociedade. 

Sem comentários:

Enviar um comentário