quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ler Lolita em Teerão, Azar Nafisi


     Azar Nafisi foi professora de literatura na Universidade de Teerão. A subida ao poder dos fundamentalistas islâmicos naquele país acabou por conduzir ao seu afastamento, tal como sucedeu a outros membros do corpo docente e intelectuais iranianos. Ler Lolita em Teerão foi escrito depois da autora regressar aos Estados Unidos da América (onde tinha estudado). É o relato de um tempo de liberdade aprisionada. Nafisi funda um clube de leitura com antigas alunas, que se mantém no mais absoluto secretismo. É o retrato de cada uma delas que nos oferece, com um relato na primeira pessoa das dificuldades e do desespero de um cidadão comum que vê a sua liberdade a desaparecer até não se mais do que uma recordação. E é também um testemunho do que a leitura pode ser para quem ama os livros. Só quem está nesta situação consegue comungar do medo de ver confiscados os livros que tem ou da pressa em adquirir vários exemplares da mesma obra, antes que desapareçam para sempre do mercado.
         Ouvi falar deste livro pela primeira vez há vários numa publicação francesa. Que tenha sido traduzido para português foi algo que me deixou muito feliz. Por estes dias tornei a ler as suas páginas, na sequência de conversas no meu clube de leitura. Um clube muito diferente do de Nafisi, porque se reúne em liberdade. E muito parecido, na medida em que os seus membros também não abdicam do prazer de ler o que lhes apetece. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Gorda, Isabela Figueiredo



       Não há existências comuns, nem vidas banais. Apesar da frieza das estatísticas, das aparente rotina das vidas e de um anonimato de que poucos nos libertamos, para mim, não há nada mais interessante do que as pessoas, despidas de estereótipos e de ideias feitas.
         Este é um dos motivos que me leva a gostar tanto de A Gorda, romance de Isabela Figueiredo. Adjectivar o outro com base numa única característica é um dos mais comuns sinais de simplificação do que não é simplificável. O gordo, o dentuço, o marrão ou o caixa de óculos são sempre muito mais do que o excesso de peso, os dentes saídos, a aparente dedicação cega ao estudo ou as dificuldades de visão. Isabela Figueiredo começa, pois, por recorrer a um adjectivo simultaneamente anónimo e pejorativo, para depois nos oferecer um livro que é um resgate do carácter único do ser humano. Por que ao longo de quase 300 páginas mergulhamos nessa aventura entusiasmante (mas pouco em voga nestes dias de fast food relacional) de descobrir o outro. A gorda chama-se, na verdade, Maria Luísa e é pessoa inteira. Com carne, espírito, uma mundividência, relações familiares, uma carreira, paixões, alegrias, desilusões e interesses. Acompanhamo-la desde 1975 até aos nossos dias. A sua condição física marca-a perante si e os outros, mas não a limita. A vida de Maria Luísa entrelaça-se com a história do país e do mundo. Só na aparência essas ligações narrativas surgem como fáceis de escrever. 
         Para além do conteúdo, o livro conquista-nos pela forma. Isabela Figueiredo tem uma escrita rica, detalhada, melódica, sensual. Que nos enche como leitores e envergonha os projectos literários que possamos acalentar. As figuras de estilo surgem naturais e o vocabulário é pleno. Por exemplo, esta descrição do simples acto de comer pão: “Preciso de saborear os meus pãezinhos com manteiga, de os sentir na língua, contra o céu-da-boca, degluti-los, fazê-los transpor a garganta, senti-los no estômago, sossegando o bicho escurso da fome que aí mora. O odor dos pãezinhos do dia, o miolo mole, a côdea seca, a forma como racham, quando os abro com a mão, que delícia, doutor!, Farinha, fermento, sal, água e cozimento. Sem pão, o meu bicho negro morde-me, doutor, e dói-me o espaço vazio” (pág. 170).
         Este livro recordou-me um outro, Todos os nomes de José Saramago. Aí um funcionário do Registo Central rebela-se contra o anonimato e vai à procura da história de uma mulher de que lhe cabia, tão só, registar o óbito. Neste livro, uma funcionária (Maria Luísa é professora do ensino secundário), liberta-se de ser um número e mostra-se pessoa inteira. Não adianta pensarmos se as suas escolhas foram certas ou erradas. Na vida, há muitas opções que fazemos que não passam por esse crivo. São as nossas opções e resta-nos esperar que corram bem. Como ela faz.
         Estando próximo do final do ano, arrisco dizer que este foi o melhor livro que li em 2016. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Dito em voz alta, entrevistas sobre literatura, isto é, sobretudo a Manuel António Pina






         São doze entrevistas concedidas entre os anos de 2000 e 2012 recolhidas num livro. Onde se lêem coisas assim: 

         "As pessoas precisam cada vez mais, em tempos usurários como os nosso, de algo que possa dar algum sentido à própria existência. Não passa pela cabeça de ninguém que a vida possa apenas ser comércio, usura, ganhunça isto é, que a vida seja só vidinha. Acho que a popularidade da poesia radica na mesma necessidade de respostas que leva muita gente a procurar as religiões, num mundo subitamente órfão de ideologias (as ideologias funcionam como sistemas de respostas mais ou menos prontas a usar). A poesia seria então uma espécie de religião laica, pois também a sua vocação essencial é a de "religare". Infelizmente, a poesia tem poucas respostas para dar; guarda, no entanto, perguntas que desde sempre inquietam o coração dos homens: a morte, o amor, o tempo. Já é alguma coisa num mundo em que a pergunta quase exclusiva é: Quanto custa?" 

                                                                                     Entrevista de Sérgio Almeida, pág. 89.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filosofemos

         Celebra-se hoje o Dia Mundial da Filosofia. Ao contrário do que alguns pensam, esta não é uma espécie de matéria fechada e apenas susceptível de acesso por alguns privilegiados. Todos somos ou podemos ser filósofos, na medida em que nos questionamos, pomos em causa e insistimos em pensar pela nossa própria cabeça. Para não o fazer em circuito fechado é sempre bom encontrar interlocutores. Não para ver confirmado o que pensamos (embora isso também seja agradável), mas para irmos mais além. Por estes dias, os meus companheiros de eleição são Peter Singer, Susan Neiman, Martha Nussbaum e sempre o velho amigo Aristóteles. Acima de todos eles, desde a minha adolescência e se calhar para sempre, Bertrand Russel. Pessoas que têm alguma coisa a dizer e que por isso falam claro, directo e sem redondilhas. E que me mostram todos os dias que a grande aventura é viver a vida com princípios, convicções e alegria. Aqui ao lado, a ilustrar este texto, deixo uma sugestão disponível em versão traduzida para português: a vida de Russell em banda desenhada. Uma espécie de ouro sobre azul em forma de livro. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Saramago



          Hoje José Saramago celebraria o seu aniversário.O primeiro livro que li dele foi O Memorial do Convento. Mas os que mais me marcaram foram Todos os Nomes e O Evangelho segundo Jesus Cristo.O primeiro por dar brilho a um funcionário da Conservatória que tem imaginação para resgatar o que há de único no ser humano para além do anonimato que nos cobre a todos. O segundo pela conversa entre Deus e o Diabo, num barco no meio do mar, de que me lembro sempre que vejo o sol a bater nas ondas daquele. Esta frase é extraída do livro A viagem do elefante. Gosto dela pela esperança que carrega. Cada um sabe onde deseja ser esperado e só se pode desejar que cada um de nós consiga lá chegar. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Adonis em Lisboa


Pequeno Auditório CCB

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016, Adonis esteve no Pequeno Auditório do CCB para falar sobre a sua poesia e o que mais lhe ia na alma. Na semana em que Donald Trump ganhou as eleições nos EUA, o seu nome não foi dito. O mesmo não se pode dizer da história e política externa do seu país. Adonis, pseudónimo Ali Ahmad Said, acompanhado entre outros, de Nuno Júdice (que traduziu para português os poemas que compõe a antologia Arco-Íris do Instante), falou sobre a poesia árabe e o efeito do islamismo na mesma. Revelou também a origem do seu pseudónimo, encontrado ainda no início da adolescência. Mas a conversa foi muito mais longe. Falou-se sobre o momento que o mundo vive, com especial incidência no drama de países árabes, como é o caso da Síria (de onde é natural o poeta). Sobre o silêncio dos intelectuais europeus que a tudo assistem sem uma palavra (este mutismo, à escala global, é também denunciado por Noam Chomsky no seu recente Quem governa o Mundo?). E também sobre a falta de liberdade do mundo actual. Adonis disse-se optimista para o futuro, mas não a curto prazo. Aliás, foram amargas as suas palavras (embora realistas) quanto ao imenso poder dos EUA um país que, crê, nunca teve qualquer preocupação com ideias de liberdade. A começar pelo modo como aquela nação nasceu, destruindo a civilização que encontraram no continente americano. Adonis não rejeitou a sua responsabilidade em apontar caminhos alternativos ao mundo que vivemos. Esse caminho parece-me bem difícil de trilhar, pois pressupõe que a Europa se recupere enquanto realidade política e cultural, assumindo o seu papel na luta pelos direitos humanos. Sabemos como isso está a correr. Para além da conversa (que soube a pouco, face à inteligência, simpatia e amplitude de pensamento de Adonis) interessa a obra do poeta. Ainda estou no início dessa descoberta, mas ficaram-me os olhos nesta verdade “Não podes ser lanterna se não levares a noite às costas.” E assim é, de facto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

À volta dos livros


  

          Por que lemos?
         A pergunta tem tantas respostas, quantos os leitores. E, provavelmente, o mesmo leitor não responde de modo idêntico todos os dias.
         Para mim, ler é uma conversa desafiante. Eu, o livro e, por via deste, o autor ou autora. Não gosto de ler o que já sei. Aprendi a fazer este exercício: pelo menos uma vez por mês escolher um livro improvável. Pelo seu autor, pelo tema, pelo tipo de literatura. Por regra, as minhas escolhas literárias conduzem ao romance, clássico ou contemporâneo e ao ensaio, polvilhados aqui e ali com alguma poesia em língua portuguesa.
        Por isso, o desafio que me lanço de vez em quando é sair desses caminhos. Após anos de interregno juntei-me há três meses a uma nova comunidade de leitores. Também por essa via as escolhas literárias ganharam um novo contributo. Mas isso não impediu que prosseguisse com o meu método próprio de alargar horizontes (ou, pelo menos, tentar). Ler um livro de BD, género literário que não faz parte das minhas escolhas óbvias, uma obra de divulgação científica, um autor totalmente desconhecido nacional ou estrangeiro. Neste último caso, de preferência de uma latitude longínqua. Procuro seguir o meu instinto, mas também beneficio de sugestões de amigos. Na foto estão algumas das leituras “desafiantes” deste ano. Cada uma equivale a uma conversa com alguém muito diferente de mim e em cujo percurso não senti o eco dos meus passos prévios. Um pequeno novo mundo. Tenho de ser franca, nem todas foram apostas inteiramente conseguidas, mas não há nenhuma de que me arrependa. Quanto mais não seja (como sucedeu com a colectânea de poesia coreana traduzida que comprei) ajudaram-me a perceber os limites da minha mundividência. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Talco de Vidro, Marcello Quintanilha

Cícero disse que a inveja é a amargura que se sente perante a felicidade alheia. O que seja a felicidade é algo que é difícil de definir e que varia de pessoa para pessoa. O mais comum é a inveja incidir sobre o conforto material de um terceiro, seja sob a forma de um novo carro, umas férias num lugar paradisíaco ou uma mala de marca.
            Sempre achei que há um outro tipo de inveja que incide sobre objectos mais subtis. Por exemplo, a alegria interior. Basta pensarmos na pergunta tradicional quando nos apresentamos bem-dispostos sobretudo em sítios aparentemente improváveis, como o local de trabalho à segunda-feira de manhã. Causa perplexidade que tenhamos bom ânimo, sem motivo aparente. 
            A protagonista deste livro, Rosângela de seu nome, tem uma vida aparentemente perfeita. Infância e adolescência sem contrariedades, entrada na vida profissional facilitada pelo apoio familiar, um bom marido, dois filhos saudáveis e conforto material. Tudo parece perfeito. Embora provavelmente não seja. Daí o incómodo que a protagonista sente com a presença da prima pobre e divorciada que, apesar das adversidades se mantém bela. Mas não é a beleza da prima o que verdadeiramente causa agruras à protagonista da história. É algo de mais difuso e que ela própria não sabe identificar ou dar nome. Para mim, o que inveja à prima é esse bem infinitamente raro que a mesma traz consigo de não se deixar derrotar pelas adversidades da vida. De acreditar e seguir acreditando, apesar de tudo. Mas o certo é que esse sentimento vago e ao mesmo tempo agudo causa em Rosângela um profundo mau estar. De tal modo que a faz questionar a sua condição de vida e entrar numa espiral de auto-destruição. A narrativa pode, lido o que escrevi, parecer excessiva. Mas isso é quando a abordamos com pensamento lógico, o que não é o caso da protagonista. Rosângela está sob o efeito das emoções e muito em particular da inveja. É o seu percurso que acompanhamos a um ritmo trepidante, as suas angústias e dúvidas, a insatisfação que lhe corrói o espírito. Todas essas emoções são bem espelhadas pelas ilustrações de Marcello Quintanilha (que assina também o texto), autor brasileiro com obra já vasta traduzida em vários idiomas. Não o conhecia, mas fiquei com vontade de ler outros livros seus.