terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Gorda, Isabela Figueiredo



       Não há existências comuns, nem vidas banais. Apesar da frieza das estatísticas, das aparente rotina das vidas e de um anonimato de que poucos nos libertamos, para mim, não há nada mais interessante do que as pessoas, despidas de estereótipos e de ideias feitas.
         Este é um dos motivos que me leva a gostar tanto de A Gorda, romance de Isabela Figueiredo. Adjectivar o outro com base numa única característica é um dos mais comuns sinais de simplificação do que não é simplificável. O gordo, o dentuço, o marrão ou o caixa de óculos são sempre muito mais do que o excesso de peso, os dentes saídos, a aparente dedicação cega ao estudo ou as dificuldades de visão. Isabela Figueiredo começa, pois, por recorrer a um adjectivo simultaneamente anónimo e pejorativo, para depois nos oferecer um livro que é um resgate do carácter único do ser humano. Por que ao longo de quase 300 páginas mergulhamos nessa aventura entusiasmante (mas pouco em voga nestes dias de fast food relacional) de descobrir o outro. A gorda chama-se, na verdade, Maria Luísa e é pessoa inteira. Com carne, espírito, uma mundividência, relações familiares, uma carreira, paixões, alegrias, desilusões e interesses. Acompanhamo-la desde 1975 até aos nossos dias. A sua condição física marca-a perante si e os outros, mas não a limita. A vida de Maria Luísa entrelaça-se com a história do país e do mundo. Só na aparência essas ligações narrativas surgem como fáceis de escrever. 
         Para além do conteúdo, o livro conquista-nos pela forma. Isabela Figueiredo tem uma escrita rica, detalhada, melódica, sensual. Que nos enche como leitores e envergonha os projectos literários que possamos acalentar. As figuras de estilo surgem naturais e o vocabulário é pleno. Por exemplo, esta descrição do simples acto de comer pão: “Preciso de saborear os meus pãezinhos com manteiga, de os sentir na língua, contra o céu-da-boca, degluti-los, fazê-los transpor a garganta, senti-los no estômago, sossegando o bicho escurso da fome que aí mora. O odor dos pãezinhos do dia, o miolo mole, a côdea seca, a forma como racham, quando os abro com a mão, que delícia, doutor!, Farinha, fermento, sal, água e cozimento. Sem pão, o meu bicho negro morde-me, doutor, e dói-me o espaço vazio” (pág. 170).
         Este livro recordou-me um outro, Todos os nomes de José Saramago. Aí um funcionário do Registo Central rebela-se contra o anonimato e vai à procura da história de uma mulher de que lhe cabia, tão só, registar o óbito. Neste livro, uma funcionária (Maria Luísa é professora do ensino secundário), liberta-se de ser um número e mostra-se pessoa inteira. Não adianta pensarmos se as suas escolhas foram certas ou erradas. Na vida, há muitas opções que fazemos que não passam por esse crivo. São as nossas opções e resta-nos esperar que corram bem. Como ela faz.
         Estando próximo do final do ano, arrisco dizer que este foi o melhor livro que li em 2016. 

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