quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Talco de Vidro, Marcello Quintanilha

Cícero disse que a inveja é a amargura que se sente perante a felicidade alheia. O que seja a felicidade é algo que é difícil de definir e que varia de pessoa para pessoa. O mais comum é a inveja incidir sobre o conforto material de um terceiro, seja sob a forma de um novo carro, umas férias num lugar paradisíaco ou uma mala de marca.
            Sempre achei que há um outro tipo de inveja que incide sobre objectos mais subtis. Por exemplo, a alegria interior. Basta pensarmos na pergunta tradicional quando nos apresentamos bem-dispostos sobretudo em sítios aparentemente improváveis, como o local de trabalho à segunda-feira de manhã. Causa perplexidade que tenhamos bom ânimo, sem motivo aparente. 
            A protagonista deste livro, Rosângela de seu nome, tem uma vida aparentemente perfeita. Infância e adolescência sem contrariedades, entrada na vida profissional facilitada pelo apoio familiar, um bom marido, dois filhos saudáveis e conforto material. Tudo parece perfeito. Embora provavelmente não seja. Daí o incómodo que a protagonista sente com a presença da prima pobre e divorciada que, apesar das adversidades se mantém bela. Mas não é a beleza da prima o que verdadeiramente causa agruras à protagonista da história. É algo de mais difuso e que ela própria não sabe identificar ou dar nome. Para mim, o que inveja à prima é esse bem infinitamente raro que a mesma traz consigo de não se deixar derrotar pelas adversidades da vida. De acreditar e seguir acreditando, apesar de tudo. Mas o certo é que esse sentimento vago e ao mesmo tempo agudo causa em Rosângela um profundo mau estar. De tal modo que a faz questionar a sua condição de vida e entrar numa espiral de auto-destruição. A narrativa pode, lido o que escrevi, parecer excessiva. Mas isso é quando a abordamos com pensamento lógico, o que não é o caso da protagonista. Rosângela está sob o efeito das emoções e muito em particular da inveja. É o seu percurso que acompanhamos a um ritmo trepidante, as suas angústias e dúvidas, a insatisfação que lhe corrói o espírito. Todas essas emoções são bem espelhadas pelas ilustrações de Marcello Quintanilha (que assina também o texto), autor brasileiro com obra já vasta traduzida em vários idiomas. Não o conhecia, mas fiquei com vontade de ler outros livros seus.

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