domingo, 25 de dezembro de 2016

Um cântico de Natal, Charles Dickens


          Subjacente ao Natal (para lá do mito religioso) estão crenças de renascimento e renovação enraízadas na natureza humana e cuja origem remota às religiões pagãs. Um conto de Natal de Dickens exemplifica isso mesmo. Um homem-  Ebenezer Scrooge - vergado pelos anos e pelas desilusões e cansado das hipocrisias dos seus semelhantes, recusa-se a participar nos festejas. Não vê neles sentido e prefere a companhia do dinheiro. Ainda que nenhum de nós admita que Scrooge é um exemplo a seguir, é fácil compreendê-lo. Vivemos numa sociedade egoísta, onde o ter se sobrepõe ao ser. O Natal é para muitos o exacerbar do consumismo. E quem tem de atravessar filas de trânsito nas grandes cidades, sabe bem como é difícil manter o coração puro. O que esta história de Dickens tem de maravilhoso, para mim é a redenção de Scrooge. O confronto com a sua história de vida e a percepção de que, apesar das imperfeições de todos nós, as pessoas são o que o mundo tem de melhor. É nessa compreensão que pode alicerçar-se um espírito de Natal que vá para além do dia 25 de Dezembro e acompanhe a rotação anual do planeta. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Feliz Natal





            E com tudo isto, entre livros lidos e por ler, chegámos ao Natal. Votos de Boas Festas para todos os que frequentam este espaço!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Livrarias do Mundo: Soderbokhandeln, em Estocolmo










        As livrarias têm esta característica adorável: ainda que possam ser parecidas, são todas diferentes e irrepetíveis. Estas fotografias foram tiradas em Estocolmo na Soderbokhandeln, livraria independente que tem as portas abertas na capital da Suécia desde 1927. As paredes são forradas de livros do chão ao tecto. E mesmo não sabendo dizer uma palavra em sueco, apetece ficar por ali sem tempo contado, a perceber a lógica a que obedece a sua (des) organização. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O sonho, Sebastião da Gama






                                                                                          in Pelo sonho é que nós vamos

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Comer, amar e orar - um relato pessoal

A primeira vez que li Comer, Orar e Amar foi há mais de dez anos. Vi o filme com a Julia Roberts e a opinião que tinha formulado na leitura manteve-se. Parafraseando Shakespeare: muito barulho para quase nada. Não é um livro especialmente bem escrito, tendo diversos lugares comuns de que nunca se liberta. A personagem principal tem cerca de 30 anos, está casada, mas não quer continuar com esse status e não sabe bem o que fazer com a vida. Percebemos que perdeu o gosto pela vida, que segue em piloto automático, que não tem chama. E para a encontrar precisa de fazer uma viagem. Felizmente tem meios para o efeito e, por isso, segue a caminho de Roma (para comer e aprender o belo idioma), Índia (para encontrar a espiritualidade) e Bali (onde surge o amor). Esta é – tão só - uma viagem pessoal descrita num bildungsroman de terceira categoria. A narradora não está em busca de tudo (ao contrário do que se escreve na capa da edição inglesa do livro). Está à procura de si própria. O sucesso imenso do livro apenas me levou a concluir que há muita gente com vontade de se encontrar passeando pelo mundo. Sobretudo se tiver garantias de que, no final da viagem, vai encontrar o amor da sua vida, prova cabal de que deixar a segurança do casamento anterior foi a melhor opção. Deus nos livre da protagonista terminar o livro apenas feliz por ter comido bem, viajado e aprendido a meditar ... mas sem par!
            Meio a brincar, meio a sério, decidi reler a obra de Elisabeth Gilbert quando ficou claro que a minha viagem de Verão seria à Índia. O que dizer?, às vezes tenho momentos de loucura que atribuo à privação de açúcar.
        Peguei no livro quando rumei a Roma para uma pausa de fim-de- semana alargado e consegui suportar com relativa facilidade o capítulo dedicado a essa cidade, bem como a discrepância de experiências. É certo que eu não sou uma americana alta e loura, triste com a vida que levo, mas ainda assim parece-me mal não ter tido de esquivar-me ao espírito de permanente flirt que grassa em Roma. Também não dei por mim com o desprendimento da protagonista quanto aos quilos em excesso provenientes de um consumo abusivo de piza e gelados. Em compensação, talvez por não provir de um país em que não se sabe estar à mesa e em que a comida de plástico é rainha, não precisei de por os pés em Itália para descobrir os prazeres da comida. O cozido à portuguesa, a sopa de baldroegas e o arroz doce a que me habituei desde pequena, ao lado de outras iguarias, conduziram a que sempre tenha desconfiado dos que dizem não retirar prazer da comida. Na verdade, sempre achei que quem não gosta de comer, não pode ser bom ...

     O estoicismo revelado em Itália foi por água abaixo na Índia. Cometi a imprudência de apenas levar a versão de bolso do bildungsroman que me ocupava e as cartas de Krishnamurti. Lidas estas, tive que apelar à solidariedade entre viajantes para conseguir qualquer coisinha para ler nos voos de ligação às diversas cidades. É impressionante como o livro de Gilbert está cheio de ideias feitas, demasiadas para tão longas horas dentro de aviões. E como consegue passar completamente ao lado da beleza e da miséria que grassam na Índia. Claro que se Pasolini e Moravia se curvaram perante a dificuldade, Gilbert dificilmente iria mais longe. Mas ainda assim, quando estamos no local, impressiona ainda mais o vazio do livro. O ioga e a filosofia que lhe estão subjacentes são, em simultâneo, mais simples e mais complexos do que aquela narradora antevê. Isso mesmo se percebe quando caminhamos pelas ruas de Varanasi, com o seu misto de grito profano e atmosfera devota. Claro que o ioga não é exclusivo da Índia e admite outras práticas. Mas, o que é certo, é que se trata de uma disciplina com vários graus de exigência, mas que no limite é tão rigorosa como as práticas religiosas ocidentais são acusadas de ser. Comer, Orar e Amar apela a uma espiritualidade pop muito em voga nos nosso dias e enganadora quando nos debruçamos sobre os textos originais provenientes do Oriente. 

            O que se retira de todo o livro de Gilbert é que se trata tão só e apenas de uma jornada pessoal, de alguém que não está satisfeito com a vida que leva e pode alterá-la de forma radical, usufruindo do prazer de viajar. É uma solução apelativa, mas na melhor das hipóteses infantil. Não é preciso ir a Roma para comer bem e não é necessário ir à Índia para termos uma vida espiritual. Aliás, nem sequer é preciso fazer ioga. Seguramente, não precisamos de ir a Bali para encontrar o amor ou recuperar o gosto pela vida. Motivo pelo qual, não terei de reler a terceira parte da obra de Gilbert, nem atravessar o mundo para ir falar com o adivinho que entretanto se tornou uma celebridade mundial. Ambas estas não actividades me trazem um certo alívio, confesso. 


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Do filósofo em cada um de nós

Sócrates 
Filosofar é aprender a morrer. A frase é atribuída a Cícero e, uma coisa é certa, não fez grande serviço à causa filosófica. “Juntem-se a nós e aprendam a morrer” está longe de ser um anúncio apelativo. Além de que, com todo o respeito que Cícero merece, não é a descrição mais exacta do que seja a filosofia. “Juntem-se a nós e aprendam a viver”. Não só chama mais gente, como é muito mais verdadeiro.
         Para muitas pessoas a filosofia é aquela disciplina que alguns tiveram no liceu, onde um bando de pessoas já mortas tentava explicar o sentido da vida e do mundo. Depois, feito o exame, cada um segue o seu percurso e os filósofos desaparecem do nosso horizonte. A verdade é que existe um preconceito segundo o qual filosofar é tarefa reservada a uns quantos iniciados, que usam uma linguagem hermética e que se ocupam de questões complexas e que têm pouca utilidade no quotidiano. Os últimos anos têm mostrado que não se podia estar mais longe da verdade. Há toda uma formada de “novos” filósofos que se recusam a desempenhar o papel de sábios encerrados numa torre de marfim. Ao contrário, apostam na divulgação do seu trabalho junto do grande público e trazem para esse espaço obras que muitos acreditaram terem sido engolidas pelas areias do tempo. Alain de Botton, com obras como Status Ansiedade e O consolo da filosofia, é um exemplo desse trabalho que vem sendo feito. Outro nome de relevo é o do filósofo australiano Peter Singer. Singer é reconhecido como um defensor dos direitos dos animais e pensador de questões éticas contemporâneos. Um dos seus trabalhos mais interessantes é A Vida que podemos salvar. Trata-se de um estudo sobre o modo como cada cidadão do mundo dito desenvolvido pode contribuir para erradicar a pobreza em particular no continente africano. Não se trata de um trabalho sobre a caridadezinha, mas antes de uma reflexão profunda e muito bem documentada sobre o impacto das escolhas que podemos fazer para alterar este mundo, contra o qual tantas vezes rezingamos e nos revoltamos.
         Ao lado dos novos filósofos, temos ainda os clássicos, que se podem revisitar sem medos, agora que o fantasma dos exames e provas gerais de acesso está longe. A vida é muito mais do que a vidinha e as coisas de que temos forçosamente de nos ocupar enquanto por cá andamos. Há, seguramente, um propósito maior para cada um de nós. E descobri-lo é o primeiro passo para o concretizar. Quem melhor do que Aristóteles com a sua Ética a Nicómaco ou Erasmo de Roterdão com a sua Utopia para nos compelir a sair da caverna? Afinal, como disse Sócrates, apenas uma vida examinada merece ser vivida. E, como aparentemente, só se vive uma vez, quanto mais depressa começarmos, mais proveito dela tiraremos. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O paraíso são os outros, valter hugo mãe

Não sei se será a influência das telenovelas de outros tempos, com as suas paixões contrariadas e relatos de amores aflitivos, mas há por aí a tese de que o amor é difícil. É complicado, fugidio e magoa. Ou, como cantou alguém cujo nome não me ocorre, love hurts. Talvez isto explique os números de vítimas de violência doméstica que durante anos se mantêm com o agressor confundindo posse e amor. Ou o caso, menos contundente mas não menos dramático, dos que vão abolorecendo por dentro, adiando o amor em nome de sucedâneos imaginários ou virtuais que lhes esvaziam os dias.
         Não li quase nada de valter hugo mãe, mas este livro, só pelo título que contraria o grande papa do existencialismo, caiu-me no goto. As ilustrações de Esgar Acelerado são uma maravilha de cor e imaginação. E o texto de valter hugo mãe está cheio de verdades simples que muitos insistem em ignorar. Como esta “O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa de ser uma solução.” A protagonista do livro é uma menina que observa os casais. Novos e velhos, enamorados ou nem tanto. Festivos ou discretos. O facto da narradora ser uma criança não significa que este seja (apenas) um livro infantil. Devia ser de leitura obrigatória para todos os adultos. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quem governa o mundo?, Noam Chomsky



          Podemos concordar com Chomsky ou discordar dele. O que não podemos é deixar de o ler e de pensar no que ele nos escreve.