terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Comer, amar e orar - um relato pessoal

A primeira vez que li Comer, Orar e Amar foi há mais de dez anos. Vi o filme com a Julia Roberts e a opinião que tinha formulado na leitura manteve-se. Parafraseando Shakespeare: muito barulho para quase nada. Não é um livro especialmente bem escrito, tendo diversos lugares comuns de que nunca se liberta. A personagem principal tem cerca de 30 anos, está casada, mas não quer continuar com esse status e não sabe bem o que fazer com a vida. Percebemos que perdeu o gosto pela vida, que segue em piloto automático, que não tem chama. E para a encontrar precisa de fazer uma viagem. Felizmente tem meios para o efeito e, por isso, segue a caminho de Roma (para comer e aprender o belo idioma), Índia (para encontrar a espiritualidade) e Bali (onde surge o amor). Esta é – tão só - uma viagem pessoal descrita num bildungsroman de terceira categoria. A narradora não está em busca de tudo (ao contrário do que se escreve na capa da edição inglesa do livro). Está à procura de si própria. O sucesso imenso do livro apenas me levou a concluir que há muita gente com vontade de se encontrar passeando pelo mundo. Sobretudo se tiver garantias de que, no final da viagem, vai encontrar o amor da sua vida, prova cabal de que deixar a segurança do casamento anterior foi a melhor opção. Deus nos livre da protagonista terminar o livro apenas feliz por ter comido bem, viajado e aprendido a meditar ... mas sem par!
            Meio a brincar, meio a sério, decidi reler a obra de Elisabeth Gilbert quando ficou claro que a minha viagem de Verão seria à Índia. O que dizer?, às vezes tenho momentos de loucura que atribuo à privação de açúcar.
        Peguei no livro quando rumei a Roma para uma pausa de fim-de- semana alargado e consegui suportar com relativa facilidade o capítulo dedicado a essa cidade, bem como a discrepância de experiências. É certo que eu não sou uma americana alta e loura, triste com a vida que levo, mas ainda assim parece-me mal não ter tido de esquivar-me ao espírito de permanente flirt que grassa em Roma. Também não dei por mim com o desprendimento da protagonista quanto aos quilos em excesso provenientes de um consumo abusivo de piza e gelados. Em compensação, talvez por não provir de um país em que não se sabe estar à mesa e em que a comida de plástico é rainha, não precisei de por os pés em Itália para descobrir os prazeres da comida. O cozido à portuguesa, a sopa de baldroegas e o arroz doce a que me habituei desde pequena, ao lado de outras iguarias, conduziram a que sempre tenha desconfiado dos que dizem não retirar prazer da comida. Na verdade, sempre achei que quem não gosta de comer, não pode ser bom ...

     O estoicismo revelado em Itália foi por água abaixo na Índia. Cometi a imprudência de apenas levar a versão de bolso do bildungsroman que me ocupava e as cartas de Krishnamurti. Lidas estas, tive que apelar à solidariedade entre viajantes para conseguir qualquer coisinha para ler nos voos de ligação às diversas cidades. É impressionante como o livro de Gilbert está cheio de ideias feitas, demasiadas para tão longas horas dentro de aviões. E como consegue passar completamente ao lado da beleza e da miséria que grassam na Índia. Claro que se Pasolini e Moravia se curvaram perante a dificuldade, Gilbert dificilmente iria mais longe. Mas ainda assim, quando estamos no local, impressiona ainda mais o vazio do livro. O ioga e a filosofia que lhe estão subjacentes são, em simultâneo, mais simples e mais complexos do que aquela narradora antevê. Isso mesmo se percebe quando caminhamos pelas ruas de Varanasi, com o seu misto de grito profano e atmosfera devota. Claro que o ioga não é exclusivo da Índia e admite outras práticas. Mas, o que é certo, é que se trata de uma disciplina com vários graus de exigência, mas que no limite é tão rigorosa como as práticas religiosas ocidentais são acusadas de ser. Comer, Orar e Amar apela a uma espiritualidade pop muito em voga nos nosso dias e enganadora quando nos debruçamos sobre os textos originais provenientes do Oriente. 

            O que se retira de todo o livro de Gilbert é que se trata tão só e apenas de uma jornada pessoal, de alguém que não está satisfeito com a vida que leva e pode alterá-la de forma radical, usufruindo do prazer de viajar. É uma solução apelativa, mas na melhor das hipóteses infantil. Não é preciso ir a Roma para comer bem e não é necessário ir à Índia para termos uma vida espiritual. Aliás, nem sequer é preciso fazer ioga. Seguramente, não precisamos de ir a Bali para encontrar o amor ou recuperar o gosto pela vida. Motivo pelo qual, não terei de reler a terceira parte da obra de Gilbert, nem atravessar o mundo para ir falar com o adivinho que entretanto se tornou uma celebridade mundial. Ambas estas não actividades me trazem um certo alívio, confesso. 


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