segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Do filósofo em cada um de nós

Sócrates 
Filosofar é aprender a morrer. A frase é atribuída a Cícero e, uma coisa é certa, não fez grande serviço à causa filosófica. “Juntem-se a nós e aprendam a morrer” está longe de ser um anúncio apelativo. Além de que, com todo o respeito que Cícero merece, não é a descrição mais exacta do que seja a filosofia. “Juntem-se a nós e aprendam a viver”. Não só chama mais gente, como é muito mais verdadeiro.
         Para muitas pessoas a filosofia é aquela disciplina que alguns tiveram no liceu, onde um bando de pessoas já mortas tentava explicar o sentido da vida e do mundo. Depois, feito o exame, cada um segue o seu percurso e os filósofos desaparecem do nosso horizonte. A verdade é que existe um preconceito segundo o qual filosofar é tarefa reservada a uns quantos iniciados, que usam uma linguagem hermética e que se ocupam de questões complexas e que têm pouca utilidade no quotidiano. Os últimos anos têm mostrado que não se podia estar mais longe da verdade. Há toda uma formada de “novos” filósofos que se recusam a desempenhar o papel de sábios encerrados numa torre de marfim. Ao contrário, apostam na divulgação do seu trabalho junto do grande público e trazem para esse espaço obras que muitos acreditaram terem sido engolidas pelas areias do tempo. Alain de Botton, com obras como Status Ansiedade e O consolo da filosofia, é um exemplo desse trabalho que vem sendo feito. Outro nome de relevo é o do filósofo australiano Peter Singer. Singer é reconhecido como um defensor dos direitos dos animais e pensador de questões éticas contemporâneos. Um dos seus trabalhos mais interessantes é A Vida que podemos salvar. Trata-se de um estudo sobre o modo como cada cidadão do mundo dito desenvolvido pode contribuir para erradicar a pobreza em particular no continente africano. Não se trata de um trabalho sobre a caridadezinha, mas antes de uma reflexão profunda e muito bem documentada sobre o impacto das escolhas que podemos fazer para alterar este mundo, contra o qual tantas vezes rezingamos e nos revoltamos.
         Ao lado dos novos filósofos, temos ainda os clássicos, que se podem revisitar sem medos, agora que o fantasma dos exames e provas gerais de acesso está longe. A vida é muito mais do que a vidinha e as coisas de que temos forçosamente de nos ocupar enquanto por cá andamos. Há, seguramente, um propósito maior para cada um de nós. E descobri-lo é o primeiro passo para o concretizar. Quem melhor do que Aristóteles com a sua Ética a Nicómaco ou Erasmo de Roterdão com a sua Utopia para nos compelir a sair da caverna? Afinal, como disse Sócrates, apenas uma vida examinada merece ser vivida. E, como aparentemente, só se vive uma vez, quanto mais depressa começarmos, mais proveito dela tiraremos. 

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