domingo, 26 de março de 2017

O sabor da conquista, Michael Krondl

A comida e os hábitos gastronómicos fazem parte da História. Michael Krondl que é, para além do mais, historiador culinário e debruça-se neste livro sobre as especiarias. Como chegaram à Europa e como entraram nos hábitos dos que aqui viviam. E como permanecem nos nossos dias após um período em que saíram de moda.

A narrativa começa em St Albans sob os auspícios de um viajante lendário, John Mandeville. São protagonistas privilegiados a canela, a pimenta e a noz-moscada. Os cenários de eleição são três cidades europeias que, sucessivamente, dominaram o comércio de especiarias: Veneza, Lisboa e Amesterdão. Para escrever o livro o autor deslocou-se àquelas cidades, entrevistando quem conhece o passado e o presente daquele comércio e a sua influência na vida actual. A narrativa entretece, assim, factos históricos com a modernidade. O livro tem subjacente investigação histórica detalhada (há uma extensa lista bibliográfica) e está escrito de forma clara e objectiva, completada, aqui e ali, com uma nota de humor. Debruça-se sobre o modo como venezianos, portugueses e holandeses procuraram controlar o negócio das especiarias Acima de tudo há imensa informação sobre temas que não surgem nos manuais de história habituais. Por exemplo, como era a alimentação na Idade Média, utilização feita das especiarias (ao que parece a grande maioria dos pratos era excessivamente condimentada), características alucinogénias da noz-moscada e ainda uma curiosidade interessante sobre o número de pastelarias existentes na nossa capital. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O estilo é coragem


   
                       in Antologia da Poesia Soviética, tradução de Manuel Seabra, Editorial Futura, 1973, pág. 202.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Os russos ao fim da tarde em Lisboa

    Ontem ao final da tarde fui ouvir falar sobre escritores russos no Chiado. Foi uma iniciativa da Bertrand com moderação de Anabela Mota Ribeiro. Cheguei atrasada, mas ouvi e vi o suficiente para poder dizer que gostei muito.
         Falou-se de autores que já conhecia como Tólstoi, Dostoiveski, Gogol e Tchekov. Mas também de outros que me são ainda desconhecidos. Como Pushkin, cujo romance Eugen Onegin passou a integrar a minha lista de leituras depois de ouvir uma das participantes explicar o motivo pelo qual a sua Tatiana é uma das personagens femininas da literatura russa que prefere. E também Svetlana Aleksievitsh, autora de títulos como O fim do homem soviético, também a ler em breve. Nada foi dito (pelo menos desde que cheguei) sobre escritores como Vladimir Nabokov, Ivan Turguniév ou Anatoli Ribakov. Não o digo em tom crítico, pois o tempo era escasso e a matéria vasta. Mas mais tarde, reflectindo sobre o que ouvi, lembrei-me desses escritores, pela importância que tiveram e têm ainda hoje para mim. Nabokov, amaldiçoado pelo sucesso de Lolita (uma obra me parece que foi muito mal lida, sendo que para mim, é Azar Nafisi uma das pessoas que a descodificou), mas que também deixa perplexo quem ler Convite para uma Decapitação. De Turgueniev, disse Tólstoi que era um escritor francês a escrever em russo. Mas eu recordo a impressão que me causou Terra Virgem, o romance onde relata as dificuldades dos jovens burgueses revolucionários colocados junto do proletariado. Li-o quando tinha menos de 20 anos e as palavras do russo tornaram evidente que se é louvável amar a humanidade, nem sempre é fácil concretizar esse amor no dia-a-dia, quando somos confrontados com pessoas reais, com defeitos e fraquezas. E Ribakov? É o autor de Os filhos da Rua Arbat e da sua sequela, O medo. Para mim, são dois livros incontornáveis para quem quer conhecer o que foi a vida no país dos sovietes. Seguindo um conjunto de jovens que vivem na Rua Arbat (uma das mais conhecidas artérias de Moscovo) Ribakov relata-nos as suas alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e vilanias, denunciando o regime soviético. O medo segue a história do grupo no período estalinista.
       Para além da clássica dicotomia entre Tólstoi e Dostoievski, uma das questões interessantes que se colocou foi a de saber se há uma idade certa para ler os russos, uma pergunta que ficou a ecoar em mim. Não sei. Comecei a ler esses dois autores com quinze ou dezasseis anos e a partir deles cheguei aos outros russos. Foi-me essencial ler O Crime e Castigo, Anna Karenina e Os Irmãos Karamazov ou O idiota. Hoje, não sei se conseguiria relê-los. A Anna Karenina penso que não, porque, como já escrevi aqui no blogue, a paixão que tive por Tólstoi acabou por se esfumar. Apesar de A morte de Ivan Ilitch e da Ressurreição, dois livros que me marcaram profundamente. Também não sei se releria Nabokov, Ribakov e Turguniev, talvez. Mas que eles devem ser lidos, seja em que idade for, não tenho dúvidas. Acrescentam-nos dimensão, confrontam-nos e avivam-nos a memória quanto ao privilégio que é viver em liberdade.
       Balanço do fim de tarde - recordações de leituras passadas, dois livros novos para comprar e a vontade de reler mais uma vez As memória de Adriano de Marguerite Yourcenar que me saltaram à vista a partir de uma das prateleiras da livraria.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Vislumbres da Índia, Octavio Paz

Vislumbres da Índia é composto por um conjunto de ensaios que Octavio Paz dedicou àquele país. O escritor foi viver para a Índia por ali ter sido colocado no âmbito da sua carreira diplomática. A estadia foi profícua para o seu percurso como poeta e ensaísta, como o próprio reconhece. Apesar de não ser um livro grande em termos de número de páginas, este conjunto de ensaios contém ampla informação sobre como temas tão diversos como a história, a organização social (designadamente, as castas), a religião e a arte indianas. Paz, naturalmente, não se limita a apresentar dados. Os ensaios são marcados pela forma como consegue ligar os elementos de informação que foi coligindo com as características da civilização ocidental e, em particular, pela forma como traça paralelos entre a Índia e o seu México natal. São ensaios escritos de forma escorreita, mas com grande profundidade. Este facto é tanto mais extraordinário quando pensamos nos vários temas que o autor aborda. Octavio Paz coloca-se como observador (o que, a meu ver, é a única posição em que a maioria dos estrangeiros que escrevem sobre a Índia se pode colocar, se quiser ser honesto do ponto de vista intelectual). Fá-lo com rigor e humildade, não pretendendo saber tudo ou ter compreendido um país que lhe era tão estranho face ao seu percurso de vida. Disso exemplo, é o que escreve sobre as castas, um tema muito complexo e de difícil apreensão. Basta ter em atenção que existem mais de 3000 castas, cada uma com os seus rituais, divindades, tabus e formas de alimentação. 
        Gostei muito de ler este livro e parece-me uma boa porta de entrada para conhecer melhor o país que o protagoniza.