Ontem
ao final da tarde fui ouvir falar sobre escritores russos no Chiado. Foi uma iniciativa
da Bertrand com moderação de Anabela Mota Ribeiro. Cheguei atrasada, mas ouvi e
vi o suficiente para poder dizer que gostei muito.
Falou-se de autores que já conhecia como
Tólstoi, Dostoiveski, Gogol e Tchekov. Mas também de outros que me são ainda
desconhecidos. Como Pushkin, cujo romance Eugen Onegin passou a integrar a
minha lista de leituras depois de ouvir uma das participantes explicar o motivo
pelo qual a sua Tatiana é uma das personagens femininas da literatura russa que
prefere. E também Svetlana Aleksievitsh, autora de títulos como O fim do homem soviético, também a ler
em breve. Nada foi dito (pelo menos desde que cheguei) sobre escritores como
Vladimir Nabokov, Ivan Turguniév ou Anatoli Ribakov. Não o digo em tom crítico,
pois o tempo era escasso e a matéria vasta. Mas mais tarde, reflectindo sobre o
que ouvi, lembrei-me desses escritores, pela importância que tiveram e têm
ainda hoje para mim. Nabokov, amaldiçoado pelo sucesso de Lolita (uma obra me parece que foi muito mal lida, sendo que para
mim, é Azar Nafisi uma das pessoas que a descodificou), mas que também deixa
perplexo quem ler Convite para uma
Decapitação. De Turgueniev, disse Tólstoi que era um escritor francês a
escrever em russo. Mas eu recordo a impressão que me causou Terra Virgem, o romance onde relata as
dificuldades dos jovens burgueses revolucionários colocados junto do
proletariado. Li-o quando tinha menos de 20 anos e as palavras do russo
tornaram evidente que se é louvável amar a humanidade, nem sempre é fácil concretizar
esse amor no dia-a-dia, quando somos confrontados com pessoas reais, com
defeitos e fraquezas. E Ribakov? É o autor de Os filhos da Rua Arbat e da sua sequela, O medo. Para mim, são dois livros incontornáveis para quem quer
conhecer o que foi a vida no país dos sovietes. Seguindo um conjunto de jovens
que vivem na Rua Arbat (uma das mais conhecidas artérias de Moscovo) Ribakov
relata-nos as suas alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e vilanias,
denunciando o regime soviético. O medo segue
a história do grupo no período estalinista.
Para além da clássica dicotomia entre
Tólstoi e Dostoievski, uma das questões interessantes que se colocou foi a de
saber se há uma idade certa para ler os russos, uma pergunta que ficou a ecoar
em mim. Não sei. Comecei a ler esses dois autores com quinze ou dezasseis anos e a partir deles cheguei aos outros russos. Foi-me essencial ler O Crime e
Castigo, Anna Karenina e Os Irmãos
Karamazov ou O idiota. Hoje, não
sei se conseguiria relê-los. A Anna
Karenina penso que não, porque, como já escrevi aqui no blogue, a paixão
que tive por Tólstoi acabou por se esfumar. Apesar de A morte de Ivan Ilitch e da Ressurreição,
dois livros que me marcaram profundamente. Também não sei se releria Nabokov,
Ribakov e Turguniev, talvez. Mas que eles devem ser lidos, seja em que idade
for, não tenho dúvidas. Acrescentam-nos dimensão, confrontam-nos e avivam-nos a
memória quanto ao privilégio que é viver em liberdade.
Balanço do fim de tarde - recordações
de leituras passadas, dois livros novos para comprar e a vontade de reler mais
uma vez As memória de Adriano de Marguerite
Yourcenar que me saltaram à vista a partir de uma das prateleiras da livraria.