sexta-feira, 17 de março de 2017

Os russos ao fim da tarde em Lisboa

    Ontem ao final da tarde fui ouvir falar sobre escritores russos no Chiado. Foi uma iniciativa da Bertrand com moderação de Anabela Mota Ribeiro. Cheguei atrasada, mas ouvi e vi o suficiente para poder dizer que gostei muito.
         Falou-se de autores que já conhecia como Tólstoi, Dostoiveski, Gogol e Tchekov. Mas também de outros que me são ainda desconhecidos. Como Pushkin, cujo romance Eugen Onegin passou a integrar a minha lista de leituras depois de ouvir uma das participantes explicar o motivo pelo qual a sua Tatiana é uma das personagens femininas da literatura russa que prefere. E também Svetlana Aleksievitsh, autora de títulos como O fim do homem soviético, também a ler em breve. Nada foi dito (pelo menos desde que cheguei) sobre escritores como Vladimir Nabokov, Ivan Turguniév ou Anatoli Ribakov. Não o digo em tom crítico, pois o tempo era escasso e a matéria vasta. Mas mais tarde, reflectindo sobre o que ouvi, lembrei-me desses escritores, pela importância que tiveram e têm ainda hoje para mim. Nabokov, amaldiçoado pelo sucesso de Lolita (uma obra me parece que foi muito mal lida, sendo que para mim, é Azar Nafisi uma das pessoas que a descodificou), mas que também deixa perplexo quem ler Convite para uma Decapitação. De Turgueniev, disse Tólstoi que era um escritor francês a escrever em russo. Mas eu recordo a impressão que me causou Terra Virgem, o romance onde relata as dificuldades dos jovens burgueses revolucionários colocados junto do proletariado. Li-o quando tinha menos de 20 anos e as palavras do russo tornaram evidente que se é louvável amar a humanidade, nem sempre é fácil concretizar esse amor no dia-a-dia, quando somos confrontados com pessoas reais, com defeitos e fraquezas. E Ribakov? É o autor de Os filhos da Rua Arbat e da sua sequela, O medo. Para mim, são dois livros incontornáveis para quem quer conhecer o que foi a vida no país dos sovietes. Seguindo um conjunto de jovens que vivem na Rua Arbat (uma das mais conhecidas artérias de Moscovo) Ribakov relata-nos as suas alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e vilanias, denunciando o regime soviético. O medo segue a história do grupo no período estalinista.
       Para além da clássica dicotomia entre Tólstoi e Dostoievski, uma das questões interessantes que se colocou foi a de saber se há uma idade certa para ler os russos, uma pergunta que ficou a ecoar em mim. Não sei. Comecei a ler esses dois autores com quinze ou dezasseis anos e a partir deles cheguei aos outros russos. Foi-me essencial ler O Crime e Castigo, Anna Karenina e Os Irmãos Karamazov ou O idiota. Hoje, não sei se conseguiria relê-los. A Anna Karenina penso que não, porque, como já escrevi aqui no blogue, a paixão que tive por Tólstoi acabou por se esfumar. Apesar de A morte de Ivan Ilitch e da Ressurreição, dois livros que me marcaram profundamente. Também não sei se releria Nabokov, Ribakov e Turguniev, talvez. Mas que eles devem ser lidos, seja em que idade for, não tenho dúvidas. Acrescentam-nos dimensão, confrontam-nos e avivam-nos a memória quanto ao privilégio que é viver em liberdade.
       Balanço do fim de tarde - recordações de leituras passadas, dois livros novos para comprar e a vontade de reler mais uma vez As memória de Adriano de Marguerite Yourcenar que me saltaram à vista a partir de uma das prateleiras da livraria.

2 comentários:

  1. Desconhecia Ribakov, muito obrigada pela referência.
    Adoro literatura russa, destaco para além dos já mencionados, Gontcharov e o seu inesquecível "Oblomov", Lermontov, Bulgakov, Leskov, Saltykov-Shchedrin, Béli, Babel, Ulistískaia, Gorki, Bem como os ucranianos Némirovski e Vassili Grossman que tem um livro descomunal "Vida e Destino".

    Tenho em espera "Memórias de Adriano".
    Passo regularmente aqui mas nunca comento, hoje vi-me obrigada a fazê-lo. Espero que não leve a mal ter sugerido tantos escritores, que certamente já conhece.

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  2. Olá, não me importo nada que sugira livros e fiqeui muito contente por ter comentado o texto. Não conheço alguns dos autores que indicou (como Leskov, Béli e Babel) e vou explorar esses novos territórios. Quanto às Memórias de Adriano tenho a certeza de que vai gostar. É um livro para ler e reler... Boas leituras!

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