Sobre os mundos grandes, fora e dentro de cada um de nós, in Já não terei tempo (memórias), Ed. Gradiva.
quarta-feira, 26 de abril de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
When breathe becomes air, Paul Kalanithi
Tinha visto
este livro na Brainpickings.
Pareceu-me interessante, mas a verdade é que quando me deparei com ele numa livraria do aeroporto de Frankfurt interroguei-me se seria mesmo o tipo de coisa que se quer ler enquanto se espera quatro horas por um voo de ligação. Não sei. Para mim, foram quatro horas que passaram num ápice. Paul Kalanithi era um neurocirurgião a quem foi diagnosticado um cancro nos pulmões que o acabaria por levar à morte. Tinha trinta e sete anos. Esta é a versão breve do livro. Mas ele é muito mais do que isso. Como o seu autor o foi. O livro é a recordação da sua vida. Dos livros que amou e dos afectos que cultivou. Da sua vocação e das horas de trabalho que dedicou àquela. De como Paul Kalanithi procurou sempre encontrar um sentido para a vida e de como percebeu que afinal, os planos por si feitos a médio e longo prazo, não iam realizar-se. E de como ultrapassou isso, o melhor que lhe foi possível. Como tantos de nós, era pai, marido, filho, neto, amigo, colega. Há quem afirme que o livro é demasiado "cerebral", não dando a medida do sofrimento decorrente de se saber que se vai morrer em breve. Não concordo. É um livro contido, onde o autor não nos fustiga com a sua eventual raiva e desespero, pela morte precoce. De certeza que sentiu todas essas emoções, quem não as sentiria? De certeza que se perguntou "porquê eu?" mesmo reconhecendo a inutilidade da pergunta. Vem-me à memória o seu relato sobre a ida a Wiscousin, onde lhe oferecem a posição com que sempre sonhou e as condições de vida que sempre desejou e percebe que não vai poder aceitar. Quem não se sentiria esmagado com o confronto com esta realidade? Tocou-me ainda uma das suas frases, quando conversa com a mulher sobre um eventual filho, dizendo-lhe que o sentido da vida não é evitar o sofrimento, mas criar significado.
Pareceu-me interessante, mas a verdade é que quando me deparei com ele numa livraria do aeroporto de Frankfurt interroguei-me se seria mesmo o tipo de coisa que se quer ler enquanto se espera quatro horas por um voo de ligação. Não sei. Para mim, foram quatro horas que passaram num ápice. Paul Kalanithi era um neurocirurgião a quem foi diagnosticado um cancro nos pulmões que o acabaria por levar à morte. Tinha trinta e sete anos. Esta é a versão breve do livro. Mas ele é muito mais do que isso. Como o seu autor o foi. O livro é a recordação da sua vida. Dos livros que amou e dos afectos que cultivou. Da sua vocação e das horas de trabalho que dedicou àquela. De como Paul Kalanithi procurou sempre encontrar um sentido para a vida e de como percebeu que afinal, os planos por si feitos a médio e longo prazo, não iam realizar-se. E de como ultrapassou isso, o melhor que lhe foi possível. Como tantos de nós, era pai, marido, filho, neto, amigo, colega. Há quem afirme que o livro é demasiado "cerebral", não dando a medida do sofrimento decorrente de se saber que se vai morrer em breve. Não concordo. É um livro contido, onde o autor não nos fustiga com a sua eventual raiva e desespero, pela morte precoce. De certeza que sentiu todas essas emoções, quem não as sentiria? De certeza que se perguntou "porquê eu?" mesmo reconhecendo a inutilidade da pergunta. Vem-me à memória o seu relato sobre a ida a Wiscousin, onde lhe oferecem a posição com que sempre sonhou e as condições de vida que sempre desejou e percebe que não vai poder aceitar. Quem não se sentiria esmagado com o confronto com esta realidade? Tocou-me ainda uma das suas frases, quando conversa com a mulher sobre um eventual filho, dizendo-lhe que o sentido da vida não é evitar o sofrimento, mas criar significado.
O livro recordou-me Mortalidade de Christopher Hitchens. Tal como
com esse escritor, a morte impediu Paul Kalanithi de terminar o seu
livro e de o rever. Ambos os livros são reflexões sobre a morte e por essa via
sobre o valor da vida. Todos nós vivemos a ilusão da imortalidade, decorrente
de não sabermos o dia em que chegaremos ao fim. E muitos vão deixando os dias
passar, não de forma plácida, mas passiva. Nem Kalanithi, nem Hitchens viveram
assim. E isso é algum consolo, ainda que mitigado.
Uma entrevista à viúva de Kalanithi pode ser lida aqui.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
A conspiração, Will Eisner
É uma das maiores fraudes
históricas de sempre. Mas, apesar de repetidamente desmontada, renasce uma e
outra vez, numa espécie de reinterpretação maldita da fénix.
Os protocolos são um texto onde, pretensamente, os judeus passam a escrito a
sua intenção de dominar o mundo. Foram fabricados a pedido de membros da corte
do Czar Nicolau, para o impedir de levar a cabo esforços de modernização,
fazendo-o crer que esta era parte do plano judaico para atingir o poder. Os
textos foram publicados pela primeira vez em 1905 e desde então têm conhecido
sucessivas edições em numerosos países. O objectivo é sempre o mesmo – acicatar
o ódio para melhor instrumentalizar as multidões.
Will Eisner, cansado do reaparecimento uma e outra vez dos protocolos, cuja
falsidade foi já demonstrada, inclusive junto dos Tribunais, decidiu utilizar a
BD para levar a verdade a um número mais alargado de pessoas. Como o próprio
escrever “(…) Tenho esperanças de que o presente livro possa ajudar a cravar
mais um prego no caixão desta aterradora, vampírica fraude". O livro tem
ainda um prólogo de Umberto Eco e é completado por uma extensa bibliografia
sobre o tema.
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Um quarto com vista, E.M. Forster
Por estes dias, reli Um quarto com vista, de E.M. Forster. A acção deste livro tem
início em Florença e é também nessa cidade que a narrativa chega ao fim. Pelo
meio, assistimos ao processo de amadurecimento de Lucy Honeychurch,
pequeno-burguesa inglesa em viagem com a sua prima mais velha, Charlotte
Bartlett. Não sabemos se Lucy é alta ou baixa, gorda ou magra, feia ou bonita.
Numa época em que as mulheres eram descritas minuciosamente (e, por regra, só
as muitas belas ou muito feias eram dignas de atenção dos romancistas) esse desinteresse
pelo aspecto físico da protagonista é uma primeira nota diferenciadora. E não
será um acaso, mas antes um sinal de atenção de Forster: todos temos histórias
para contar, a vida acontece também às pessoas comuns.
Desde o início que compreendemos que Lucy está
insatisfeita com a viagem, sentindo-se sufocada no que não vê senão como uma
continuação da vida acabrunhada que levava em Inglaterra. As trocas de opiniões
com a prima e a falta de paciência para os preconceitos desta e de outros
turistas ingleses que encontra na pensão Bertollini são elucidativos. Este descontentamento
é reflexo de um problema mais vasto. Ao longo da acção vemo-la dividida entre o
peso das convenções em que não se revê e o medo das consequências de delas se
afastar. Como acontece a todos, consciente ou inconscientemente, impõe-se o
dilema de escolher. Devo dizer que comecei por pensar neste livro como sendo
uma história de amor. Mas agora que fiz a sua releitura já não o classificaria
assim. Penso que é um bildungsroman,
um dos poucos que tem como protagonista uma mulher. Publicado no ano de 1903,
este livro surge numa altura em que existe já um movimento feminista e em que
muitas mulheres procuravam o seu próprio passo. Existiam também já algumas
mulheres a viajarem sem dama de companhia, por sua conta e risco. Dreaming of East de Barbara Hodgson tem como
protagonistas algumas dessas mulheres, por exemplo, Gertrude Bell.
A inquietude de Lucy é expressa de forma clara
pelo autor: “Ela ansiava por algo grande e estava convencida de que viria até
ela na plataforma ventosa de um carro eléctrico. Mas não se atreveria. Não era próprio
de uma dama. Porquê? Porque razão a maior parte das coisas grandes não eram
próprias de uma dama? (…). A sua missão era inspirar os outros a realizações em
vez de elas próprias realizarem. (…)” O único momento em que Lucy se liberta
totalmente das convenções e do que é esperado é quando toca piano, em
particular Beethoven, um perigo de que ela mesma está consciente.
As tentativas de Lucy para estancar a sua
vitalidade existencial vão esbarrar em dois elementos: a viagem e o amor. A
primeira é um clássico no romance de formação. Aquando da publicação da
primeira edição deste livro, o Grand Tour era parte da educação dos jovens de
boas famílias (por exemplo, o nosso Carlos Eduardo da Maia), incluindo
passagens por Londres, Paris, Roma, Florença e, para os mais afoitos, Atenas e
Constantinopla. O segundo é introduzido neste livro através de George Emerson, acompanhado
pelo seu pai. Não é por acaso que estes dois ingleses têm o nome de Ralph Waldo
Emerson, filósofo norte-americano novecentista fundador do transcendentalismo.
George Emerson e o seu pai menosprezam as convenções sociais sem sentido,
acreditam na beleza e na força do amor. Para Lucy, habituada a uma vida
controlada, marcada pela prudência, sem ter verdadeiramente qualquer razão para
se opor ao bom senso da prima, mas antevendo que ele não lhe vai trazer a vida
que anseia, eles funcionam como uma força que a atrai e assusta. A transformação
que nela se opera está espelhada nesta frase: “Algo acontecera aos vivos tinham
chegado a uma situação em que o carácter manda e a Infância entra nos caminhos
ramificados da Juventude.” Mas o reconhecer algo novo ao perceber o que seja e
como agir perante ele, vai um longo caminho, que ocupa o resto do livro.
Escrito de forma clara e simples, esta obra tem ainda um outro mérito, relativamente
ao desfecho. E.M. Forster, ao contrário de Henry James em Retrato de uma Senhora (1881) e de
Virgínia Woolf em A viagem (1915), teve
a coragem de por a sua protagonista a exercer a sua vontade e forjar o seu próprio
destino.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
A utilidade do inútil
Há uns dias ouvi uma professora queixar-se
do desinteresse dos alunos pelas matérias leccionadas. O culto do fácil e do
apelativo juntou-se à superficialidade e consumismo que caracterizam a nossa
sociedade. Se calhar, estou a parecer uma espécie de velha do Restelo, a
vociferar furiosamente sobre os gloriosos dias de ontem. Mas não é assim. Se
pensarmos bem quando éramos miúdos havia imensa coisa custosa na escola.
Lembro-me do esforço para decorar a composição dos aparelhos digestivo e respiratório,
por exemplo, bem como do combate com as equações, maxime monómios e polinómios. Não eram momentos
divertidos ou apelativos. E não tinham que ser. Afinal, ainda hoje por muito
que amemos o nosso trabalho, há sempre aqueles dias em que preferíamos estar na
praia, de preferência do outro lado do planeta. Ou seja, nem tudo na vida
é pane e circus e a escola serve também, para nos preparar
para isso mesmo. Depois da conversa que tive com a minha amiga professora (uma
pessoa brilhante, detentora de um doutoramento e que é um privilégio ouvir
discorrer sobra a matéria que ensina) ocorreu-me este livro do filósofo
italiano Nuccio Ordine. É um livro pequeno no tamanho de leitura muito
proveitosa. Ordine faz a defesa da leitura dos clássicos e da sua reintrodução
no ensino. E para quê? O que se ganha com isso, como perguntam alguns miúdos
nos nossos dias. “Ganha-se” a percepção de que nem tudo se reduz ao dinheiro e
que este sendo um bom criado é um mau patrão. Aprende-se a pensar por si, a
sair das suas contingências e a imaginar mais e melhor para nós e para o mundo.
Tudo coisas muito úteis e que realmente não podem ser reconduzidas ao dinheiro,
porque ao invés do carro ou do telemóvel topo de gama, não têm preço. E, como
todos sabemos, o que não tem preço é o que tem mais valor.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





