sexta-feira, 7 de abril de 2017

A utilidade do inútil



   Há uns dias ouvi uma professora queixar-se do desinteresse dos alunos pelas matérias leccionadas. O culto do fácil e do apelativo juntou-se à superficialidade e consumismo que caracterizam a nossa sociedade. Se calhar, estou a parecer uma espécie de velha do Restelo, a vociferar furiosamente sobre os gloriosos dias de ontem. Mas não é assim. Se pensarmos bem quando éramos miúdos havia imensa coisa custosa na escola. Lembro-me do esforço para decorar a composição dos aparelhos digestivo e respiratório, por exemplo, bem como do combate com as equações, maxime monómios e polinómios. Não eram momentos divertidos ou apelativos. E não tinham que ser. Afinal, ainda hoje por muito que amemos o nosso trabalho, há sempre aqueles dias em que preferíamos estar na praia, de preferência do outro lado do planeta. Ou seja, nem tudo na vida é pane e circus e a escola serve também, para nos preparar para isso mesmo. Depois da conversa que tive com a minha amiga professora (uma pessoa brilhante, detentora de um doutoramento e que é um privilégio ouvir discorrer sobra a matéria que ensina) ocorreu-me este livro do filósofo italiano Nuccio Ordine. É um livro pequeno no tamanho de leitura muito proveitosa. Ordine faz a defesa da leitura dos clássicos e da sua reintrodução no ensino. E para quê? O que se ganha com isso, como perguntam alguns miúdos nos nossos dias. “Ganha-se” a percepção de que nem tudo se reduz ao dinheiro e que este sendo um bom criado é um mau patrão. Aprende-se a pensar por si, a sair das suas contingências e a imaginar mais e melhor para nós e para o mundo. Tudo coisas muito úteis e que realmente não podem ser reconduzidas ao dinheiro, porque ao invés do carro ou do telemóvel topo de gama, não têm preço. E, como todos sabemos, o que não tem preço é o que tem mais valor.

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