sexta-feira, 14 de abril de 2017

Um quarto com vista, E.M. Forster

Por estes dias, reli Um quarto com vista, de E.M. Forster. A acção deste livro tem início em Florença e é também nessa cidade que a narrativa chega ao fim. Pelo meio, assistimos ao processo de amadurecimento de Lucy Honeychurch, pequeno-burguesa inglesa em viagem com a sua prima mais velha, Charlotte Bartlett. Não sabemos se Lucy é alta ou baixa, gorda ou magra, feia ou bonita. Numa época em que as mulheres eram descritas minuciosamente (e, por regra, só as muitas belas ou muito feias eram dignas de atenção dos romancistas) esse desinteresse pelo aspecto físico da protagonista é uma primeira nota diferenciadora. E não será um acaso, mas antes um sinal de atenção de Forster: todos temos histórias para contar, a vida acontece também às pessoas comuns.
Desde o início que compreendemos que Lucy está insatisfeita com a viagem, sentindo-se sufocada no que não vê senão como uma continuação da vida acabrunhada que levava em Inglaterra. As trocas de opiniões com a prima e a falta de paciência para os preconceitos desta e de outros turistas ingleses que encontra na pensão Bertollini são elucidativos. Este descontentamento é reflexo de um problema mais vasto. Ao longo da acção vemo-la dividida entre o peso das convenções em que não se revê e o medo das consequências de delas se afastar. Como acontece a todos, consciente ou inconscientemente, impõe-se o dilema de escolher. Devo dizer que comecei por pensar neste livro como sendo uma história de amor. Mas agora que fiz a sua releitura já não o classificaria assim. Penso que é um bildungsroman, um dos poucos que tem como protagonista uma mulher. Publicado no ano de 1903, este livro surge numa altura em que existe já um movimento feminista e em que muitas mulheres procuravam o seu próprio passo. Existiam também já algumas mulheres a viajarem sem dama de companhia, por sua conta e risco. Dreaming of East de Barbara Hodgson tem como protagonistas algumas dessas mulheres, por exemplo, Gertrude Bell.
A inquietude de Lucy é expressa de forma clara pelo autor: “Ela ansiava por algo grande e estava convencida de que viria até ela na plataforma ventosa de um carro eléctrico. Mas não se atreveria. Não era próprio de uma dama. Porquê? Porque razão a maior parte das coisas grandes não eram próprias de uma dama? (…). A sua missão era inspirar os outros a realizações em vez de elas próprias realizarem. (…)” O único momento em que Lucy se liberta totalmente das convenções e do que é esperado é quando toca piano, em particular Beethoven, um perigo de que ela mesma está consciente.
As tentativas de Lucy para estancar a sua vitalidade existencial vão esbarrar em dois elementos: a viagem e o amor. A primeira é um clássico no romance de formação. Aquando da publicação da primeira edição deste livro, o Grand Tour era parte da educação dos jovens de boas famílias (por exemplo, o nosso Carlos Eduardo da Maia), incluindo passagens por Londres, Paris, Roma, Florença e, para os mais afoitos, Atenas e Constantinopla. O segundo é introduzido neste livro através de George Emerson, acompanhado pelo seu pai. Não é por acaso que estes dois ingleses têm o nome de Ralph Waldo Emerson, filósofo norte-americano novecentista fundador do transcendentalismo. George Emerson e o seu pai menosprezam as convenções sociais sem sentido, acreditam na beleza e na força do amor. Para Lucy, habituada a uma vida controlada, marcada pela prudência, sem ter verdadeiramente qualquer razão para se opor ao bom senso da prima, mas antevendo que ele não lhe vai trazer a vida que anseia, eles funcionam como uma força que a atrai e assusta. A transformação que nela se opera está espelhada nesta frase: “Algo acontecera aos vivos tinham chegado a uma situação em que o carácter manda e a Infância entra nos caminhos ramificados da Juventude.” Mas o reconhecer algo novo ao perceber o que seja e como agir perante ele, vai um longo caminho, que ocupa o resto do livro. Escrito de forma clara e simples, esta obra tem ainda um outro mérito, relativamente ao desfecho. E.M. Forster, ao contrário de Henry James em Retrato de uma Senhora (1881) e de Virgínia Woolf em A viagem (1915), teve a coragem de por a sua protagonista a exercer a sua vontade e forjar o seu próprio destino. 

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