sexta-feira, 21 de abril de 2017

When breathe becomes air, Paul Kalanithi

Tinha visto este livro na Brainpickings
    Pareceu-me interessante, mas a verdade é que quando me deparei com ele numa livraria do aeroporto de Frankfurt interroguei-me se seria mesmo o tipo de coisa que se quer ler enquanto se espera quatro horas por um voo de ligação. Não sei. Para mim, foram quatro horas que passaram num ápice. Paul Kalanithi era um neurocirurgião a quem foi diagnosticado um cancro nos pulmões que o acabaria por levar à morte. Tinha trinta e sete anos. Esta é a versão breve do livro. Mas ele é muito mais do que isso. Como o seu autor o foi. O livro é a recordação da sua vida. Dos livros que amou e dos afectos que cultivou. Da sua vocação e das horas de trabalho que dedicou àquela. De como Paul Kalanithi procurou sempre encontrar um sentido para a vida e de como percebeu que afinal, os planos por si feitos a médio e longo prazo, não iam realizar-se. E de como ultrapassou isso, o melhor que lhe foi possível. Como tantos de nós, era pai, marido, filho, neto, amigo, colega. Há quem afirme que o livro é demasiado "cerebral", não dando a medida do sofrimento decorrente de se saber que se vai morrer em breve. Não concordo. É um livro contido, onde o autor não nos fustiga com a sua eventual raiva e desespero, pela morte precoce. De certeza que sentiu todas essas emoções, quem não as sentiria? De certeza que se perguntou "porquê eu?" mesmo reconhecendo a inutilidade da pergunta. Vem-me à memória o seu relato sobre a ida a Wiscousin, onde lhe oferecem a posição com que sempre sonhou e as condições de vida que sempre desejou e percebe que não vai poder aceitar. Quem não se sentiria esmagado com o confronto com esta realidade? Tocou-me ainda uma das suas frases, quando conversa com a mulher sobre um eventual filho, dizendo-lhe que o sentido da vida não é evitar o sofrimento, mas criar significado.
O livro recordou-me Mortalidade de Christopher Hitchens. Tal como com esse escritor, a morte impediu Paul Kalanithi de terminar o seu livro e de o rever. Ambos os livros são reflexões sobre a morte e por essa via sobre o valor da vida. Todos nós vivemos a ilusão da imortalidade, decorrente de não sabermos o dia em que chegaremos ao fim. E muitos vão deixando os dias passar, não de forma plácida, mas passiva. Nem Kalanithi, nem Hitchens viveram assim. E isso é algum consolo, ainda que mitigado.
Uma entrevista à viúva de Kalanithi pode ser lida aqui

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