sexta-feira, 26 de maio de 2017

É isto que eu faço, Lindsey Addario

Diz-se que uma das consequências da exposição frequente a actos de violência é uma gradual perda de sensibilidade por parte dos observadores. Talvez isso explique por que motivo as redes sociais não foram invadidas por cartazes a dizer “je suis Manchester”. Já fomos Paris, Bruxelas, Londres e Madrid e começamos a ficar algo saturados pois ser algo mais que nós próprios é penoso. Lindsey Addario é norte-americana e tem feito carreira como fotojornalista. Neste livro narra as suas memórias profissionais e pessoais. As primeiras, na sua singularidade, encontram eco em muitos de nós. Desde as vicissitudes do divórcio parental passando pela dificuldade em encontrar um parceiro que a compreenda e apoie, não é difícil ao leitor (a) acompanhar as alegrias, tristezas e dúvidas da autora. Mas com a sua vida profissional, a história é outra. Tendo passado por alguns dos cenários mais violentos da história contemporânea Addario viveu na primeira pessoa aquilo que para os comuns mortais apenas lhe chega via televisão ou internet. Irão, Iraque, Afeganistão, Síria, Sudão são apenas alguns dos locais onde esteve e de onde junta fotografias neste livro onde nos mostra o dia-a-dia de um correspondente em cenário de guerra. Aquela realidade é impressionante (os relatos das mulheres sudaneses tocaram-me particularmente), como extraordinário é o facto de a autora manter a esperança, o equilíbrio e a capacidade de procurar a felicidade.  Mas talvez este último facto não seja assim tão surpreendente: o confronto com a mortalidade torna-nos mais selectivos quanto às nossas fontes de sofrimento. E esse é o passo de gigante para nos focarmos no essencial. 

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