quarta-feira, 10 de maio de 2017

Na penúria em Paris e em Londres, George Orwell

Nos seus livros para crianças a Condessa de Ségur não escondia o fenómeno da miséria. Havia sempre pobres nas suas obras, mas os mesmos não tinham voz. Serviam essencialmente dois propósitos: mostrar aos meninos e meninas ricos a sorte que tinham e permitir-lhe exercer essa virtude magna que é a caridade. Porque eram pobres e porque assim permaneciam era matéria que não entrava nas cogitações dos pequenos heróis da condessa ou dos seus papás e mamãs. Madame de Ségur, russa de nascimento e francesa após ter casado, escreveu no século XIX. Foi também nessa época em Franca que Emílio Zola causou escândalo ao descrever com realismo a pobreza urbana e os seus protagonistas em Germinal. O relato era apresentado era pouco consentâneo com o apaziguamento das consciências burguesas cristãs. A dura realidade da miséria foi descrita por outros autores em outras latitudes como Máximo Gorki, na Rússia. Quem lê as obras de Zoma e Gorki percebe grande parte da história europeia do século XX.
         Na penúria em Paris e em Londres é a descrição feita pelo escritor inglês do que é a vida sem dinheiro em duas das principais capitais europeias. A pobreza ali retratada nada tem de romântico e também não se coaduna com momentos de felicidade. Aliás, depois de lermos este livro torna-se difícil acompanhar aqueles que olhando para os miseráveis da nossa época insistem em que, apesar de nada terem, são felizes. Orwell relata a busca incessante por pequenos trabalhos, as dificuldades em fugir à polícia (a mendicidade era então crime), a fome, a falta de higiene, o embrutecimento causado também pela bebida, único refúgio possível numa existência dura e sem dinheiro. Mais do que tecer juízo de valor Orwell conclui que a sua experiência (que qualifica como superficial) lhe permitiu perceber que a realidade é bem mais complexa do que parece. Nem todos os pobres são pessoas que não querem trabalhar. Há salários que não permitem sair da pobreza. Afastam-se assim os discursos simplistas em que no tempo de Orwell como hoje tantas vezes caímos. E, como o mesmo conclui, deixa de se apreciar de forma petulante uma qualquer refeição tomada num qualquer restaurante. 

2 comentários:

  1. Olá!
    Também tenho alguns livros da Condessa de Ségur. Adoro.
    Estes não conhecia. Parecem muito bonitos.
    Boas leituras

    ResponderEliminar
  2. Obrigada. Também tenho boas recordações da leitura dos livros da Condessa. Boas leituras!

    ResponderEliminar