segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Convento do Prazer, Margareth Cavendish

Só o título já é uma provocação. E nem o ar sério da Duquesa de NewCastle nascida Margareth Lucas, impede a imaginação de disparar. O Convento do Prazer  é uma peça de teatro publicada no século XVII, num tempo em que as mulheres, e muito menos as aristocratas, não escreviam sem correr o risco de cair no ridículo. Mas Cavendish escreveu e muito: peças de teatro, ensaios filosóficos, obras científicas, o primeiro livro de ficção científica conhecido na Europa (The blazing world) e biografias.
         O Convento é uma peça de teatro que foca um tema exposto de forma tímida mas recorrente na literatura: a vida sem homens ou, mais precisamente, sem a presença tutelar do marido. Numa época em que grande parte dos casamentos assentava em decisões de negócios ou de política (com excepção dos muito pobres, claro), a escrita de Cavendish parte desta premissa: uma jovem herdeira, rica, inteligente e bonita decide evitar os pretendentes que se preparam para lhe bater à porta. A rebelião contra o casamento não é um tema inteiramente original. Já Shakespeare o tinha tratado com a sua Catarina de A Fera Amansada. A heroína de Cavendish (Lady Happy) cria um convento para si e para as suas amigas, aí vivendo recolhida em prazeres que não incluem a presença masculina. Que deleites serão esses é matéria que ocupa os pretendentes (entre o despeitado e o receoso) e aguça a curiosidade de quem acompanha a peça. Cavendish, à semelhança de outras mulheres que escreveram no século XVII, assume uma postura ambivalente, ora reclamando direitos para as mulheres e lamentando a sua condição subalterna, ora admitindo a posição de natural inferioridade daquelas. Na peça há uma denúncia veemente dos males do casamento. Mas, para um olhar atento, é cristalino que os mesmos assentam – naquele tempo, como hoje – não no consórcio, mas no consorte que se escolhe. A peça é também uma comédia de enganos, leve e sem grandes pretensões, não pondo em causa a ordem social estabelecida, pelo menos de forma evidente. E diga-se que isso não deve ter sido apenas para agradar ao público (Cavendish foi uma autêntica celebridade no seu tempo): a autora era ela própria casada e ao que consta muito feliz, pois que Lord Cavendish era, ao que sabe, um homem de vistas largas e que muito apreciava o talento da esposa. Duas qualidades importantes para qualquer marido. 

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