Não
sei se Natália Nunes faz parte daqueles autores que foram em tempos conhecidos e
depois caíram no esquecimento. O nosso país tem uma lista razoável desses
escritores: Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, apenas
para dar alguns exemplos. Comprei Vénus Turbulenta há vários anos (fiquei curiosa com o título e arrisquei) e posso dizer que foi um dos livros que
mais gostei de ler. A protagonista, nascida no seio de uma família burguesa, liberta-se
das amarras e limitações da sua educação, trocando a realização das
expectativas que a família e o meio social tinham para si pela construção da
sua própria vida, livre e senhora das suas escolhas. Na altura, pareceu-me que
Natália Nunes, com a sua escrita confessional e intimista, tinha a capacidade
de entrar dentro dos seus protagonistas, ler o meio em que se inseriam e oferecer
uma história em que o leitor/a conseguia rever-se, ainda que a sua própria vida
estivesse nos antípodas do que ia lendo.
Uma das provações do leitor português é
a dificuldade em encontrar os livros que quer ler quando se trata de obras que já têm alguns anos e que por isso dificilmente se
encontram nas livrarias. Neste momento, eu própria enceto uma busca por
Passagem para a Índia de E.M. Forster, livro em tempos editada em Portugal e agora
desaparecido. Mas isso são contas de outro rosário e se trago aqui esta pequena
dificuldade pessoal, é porque também se revela difícil encontrar as obras de
Natália Nunes. Mas elas existem, sem dúvida. E, assim, consegui encontrar
Assembleia de Mulheres. A primeira edição deste livro é de 1964. E esse é um
aspecto essencial para se perceber o carácter revolucionário da obra. Acompanhamos
o quotidiano de várias mulheres que trabalham como curadoras num museu de
Lisboa. Para além dos diálogos, a autora introduz-nos nos pensamentos de cada
uma delas (muitas vezes de sentido inverso ao que dizem). Conhecemos a sua
falta de horizontes, o modo como esperam de forma impaciente pelo toque das
17h00 que anuncia o fim de mais uma jornada laboral (que de trabalho tem pouco)
e os seus preconceitos (último reduto dos infelizes). A autora não tece
considerações morais, mas põe a nu a infelicidade conformada daquelas vidas, submetidas ao "tem de ser assim, sempre assim foi e assim é que tem de ser". Não há narrador e as personagens encontram-se no espaço
comum (o local de trabalho) pouco ou nada partilhando. O livro surge num
momento em que já se adivinham outras possibilidades para o país e para as
mulheres. E também essa nova vida, essa possibilidade de viver de outra forma,
causa revolta em algumas (como desabafa uma das personagens “O que me custa não
é o ter de estar subordinada aos princípios, mas sim umas submeterem-se e
outras terem o atrevimento de se libertarem! Só por uma questão de meio ou de
uns tantos anos … Com isso é que eu não posso!”).
Será esta escrita datada? Mesmo que
assim fosse isso em nada retiraria o interesse do livro e da autora, pela forma
vibrante e viva como escreve. Mas, pela minha parte, acho que o livro acaba por
ter ainda alguma actualidade, pois apesar de relatar uma realidade de há meio
século atrás, há preconceitos que subsistem.
Por mim, adicionei mais dois livros à
minha lista de “livros quase impossíveis de encontrar, mas de que eu não
desisto”: Uma portuguesa em Paris e Autobiografia de uma Mulher Romântica.
Ambos de Natália Nunes, dados como esgotados ou fora do mercado. Mas vou
procurar e há sempre a esperança de uma reedição.