sábado, 24 de junho de 2017


(Fotografia extraída da net, sem menção de autoria)


     A casa de Rimbaud em Harar na Etiópia. O poeta francês viveu na cidade, mas não nesta casa, que nem sequer existia. Foi muito mais tarde construída e é um museu dedicado à memória do poeta. Longe da guerra, da fome e da doença há um país que para os portugueses foi sempre uma fantasia, o reino do sonhado Preste João da Índia. E há quem defenda que foi também uma das inspirações da Utopia de Thomas More. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Assembleia de Mulheres, Natália Nunes

    Não sei se Natália Nunes faz parte daqueles autores que foram em tempos conhecidos e depois caíram no esquecimento. O nosso país tem uma lista razoável desses escritores: Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, apenas para dar alguns exemplos. Comprei Vénus Turbulenta há vários anos (fiquei curiosa com o título e arrisquei) e posso dizer que foi um dos livros que mais gostei de ler. A protagonista, nascida no seio de uma família burguesa, liberta-se das amarras e limitações da sua educação, trocando a realização das expectativas que a família e o meio social tinham para si pela construção da sua própria vida, livre e senhora das suas escolhas. Na altura, pareceu-me que Natália Nunes, com a sua escrita confessional e intimista, tinha a capacidade de entrar dentro dos seus protagonistas, ler o meio em que se inseriam e oferecer uma história em que o leitor/a conseguia rever-se, ainda que a sua própria vida estivesse nos antípodas do que ia lendo.
        Uma das provações do leitor português é a dificuldade em encontrar os livros que quer ler quando se trata de obras que já têm alguns anos e que por isso dificilmente se encontram nas livrarias. Neste momento, eu própria enceto uma busca por Passagem para a Índia de E.M. Forster, livro em tempos editada em Portugal e agora desaparecido. Mas isso são contas de outro rosário e se trago aqui esta pequena dificuldade pessoal, é porque também se revela difícil encontrar as obras de Natália Nunes. Mas elas existem, sem dúvida. E, assim, consegui encontrar Assembleia de Mulheres. A primeira edição deste livro é de 1964. E esse é um aspecto essencial para se perceber o carácter revolucionário da obra. Acompanhamos o quotidiano de várias mulheres que trabalham como curadoras num museu de Lisboa. Para além dos diálogos, a autora introduz-nos nos pensamentos de cada uma delas (muitas vezes de sentido inverso ao que dizem). Conhecemos a sua falta de horizontes, o modo como esperam de forma impaciente pelo toque das 17h00 que anuncia o fim de mais uma jornada laboral (que de trabalho tem pouco) e os seus preconceitos (último reduto dos infelizes). A autora não tece considerações morais, mas põe a nu a infelicidade conformada daquelas vidas, submetidas ao "tem de ser assim, sempre assim foi e assim é que tem de ser". Não há narrador e as personagens encontram-se no espaço comum (o local de trabalho) pouco ou nada partilhando. O livro surge num momento em que já se adivinham outras possibilidades para o país e para as mulheres. E também essa nova vida, essa possibilidade de viver de outra forma, causa revolta em algumas (como desabafa uma das personagens “O que me custa não é o ter de estar subordinada aos princípios, mas sim umas submeterem-se e outras terem o atrevimento de se libertarem! Só por uma questão de meio ou de uns tantos anos … Com isso é que eu não posso!”).
        Será esta escrita datada? Mesmo que assim fosse isso em nada retiraria o interesse do livro e da autora, pela forma vibrante e viva como escreve. Mas, pela minha parte, acho que o livro acaba por ter ainda alguma actualidade, pois apesar de relatar uma realidade de há meio século atrás, há preconceitos que subsistem.
      Por mim, adicionei mais dois livros à minha lista de “livros quase impossíveis de encontrar, mas de que eu não desisto”: Uma portuguesa em Paris e Autobiografia de uma Mulher Romântica. Ambos de Natália Nunes, dados como esgotados ou fora do mercado. Mas vou procurar e há sempre a esperança de uma reedição.