terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ghandi, A minha vida e as minhas experiências com a verdade


Ao lado de Nelson Mandela, Ghandi é dos políticos mais admirados do século XX. Não porque fosse isento de defeitos. Mas porque procurava superar-se e por se ter mantido fiel aos seus ideais. Esta é a sua autobiografia. Nela reflecte no seu percurso vivencial, dá conta das suas dificuldades e relata as impressões que colheu sobre a sua época. Escreve de forma clara e assume os seus erros. Questionada sobre os livros que a influenciaram Marguerite Yourcenar referiu esta obra, indicando que a releu sempre com grande proveito. Hoje celebra-se mais um aniversário da independência da Índia. Razão mais do que suficiente para deixar aqui esta referência a um livro que tenho vindo a descobrir paulatinamente. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Durrell e Miller



“Se, como diz, não pode escrever BONS livros, então não escreva. Não escreva nada, literalmente. Fique quieto. Guarde lá dentro. Deixe acumular. Deixe explodir dentro de si. Posso compreender Homero dormitando. Mas isso é diferente de Homero escrevendo oculto por um pseudónimo. Um homem pode cair, pode realizar obra indigna dele, pode enlouquecer. Mas nunca deve incarnar deliberadamente uma personalidade menor, um fantasma, um substituto.”
Henry Miller para Lawrence Durrel, Correspondência, pág. 128.

sábado, 12 de agosto de 2017

Correspondência, Lawrence Durrell e Henry Miller

Os nossos dias são marcados por relações volúveis em que o simples facto de se iniciar um relacionamento amoroso, mudar de trabalho ou alterar a residência levam ao afastamento de pessoas que se tinham como amigas. Também por isso esta colectânea de cartas trocadas entre Lawrence Durrell e Henry Miller é deliciosa. Num tempo em que não havia internet e os contactos por telefone eram raros, os dois escritores lograram construir uma amizade epistolar com um ou outro encontro presencial, numa cumplicidade que se prolongou durante décadas.
A primeira carta é de Durrell. Data de Agosto de 1935 e foi enviada de Corfu. Nela o escritor inglês dirige-se pela primeira vez ao autor norte-americano para lhe dar conta do quanto gostou de Trópico de Câncer. A correspondência segue de seguida, primeiro ainda com um tom formal (Sr Durrell e Sr. Miller) ganhando gradual intimidade (Larry e Henry). E de que se escrevem os amigos? De tudo. Apoiam-se e encorajam-se mutuamente, falam sobre a vida pessoal, partilham projecto, gostos e embirrações. Quando as cartas se iniciam é Miller que é famoso, apesar da colagem que é feita ao mesmo do rótulo de escritor pornográfico. Durrell conforta-o ao longo dos anos, afirmando que o tempo de Miller, em que será verdadeiramente reconhecido, ainda não chegou. Quanto a Miller encoraja Durrell, procura oportunidades para o dar a conhecer e regozija-se com o êxito de O Quarteto de Alexandria. Não há sombra de inveja ou ciúme entre ambos, provando a verdade da frase de Demócrito que abre o prefácio da edição portuguesa "O acordo das ideias engendra a amizade". 
Durrell, ligado ao British Information Office, escreve a Miller dos sítios onde vai sendo colocado e outros que vai conhecendo em viagem. Queixa-se amargamente da sua estadia em Alexandria admitindo, porém, que a cidade egípcia lhe dá imenso material de escrita. Miller, mais sedentário, assenta em Big Sur, Califórnia, de onde envia grande parte das cartas. A troca de cartas sobrevive às vicissitudes pessoais e profissionais e mesmo às dificuldades de correio decorrentes da II Guerra Mundial. A publicação das mesmas foi feita com o acordo dos dois escritores, apesar da resistência inicial de Durrell, cioso da sua vida privada (que, aliás, como lhe fez saber Miller surge apenas entrevista, atenta a sua natural reserva). 
Por cá, foram publicadas pela Editora Ulisseia em 1964 (encontrei-as num alfarrabista, claro). 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Enigma, História de uma mudança de sexo, Jan Morris

Jan Morris é uma das mais conhecidas escritoras de viagens da actualidade. Antes disso, formou-se em Oxford, foi soldado ao serviço do exército inglês e jornalista. Tem sido também uma viajante infatigável, tendo percorrido, em serviço ou por prazer o que parece ser o mundo todo. Neste livro relata-nos a sua vida e o caminho percorrido desde que se apercebeu que, tendo nascido com o aspecto exterior de um menino, sentia-se, na verdade, menina. Morris compreendeu cedo a sua situação. Teria, segundo escreve, cerca de três ou quatro anos. A partir daí foi tentando encontrar o seu lugar no mundo, tendo mesmo casado e sido pai de cinco filhos. Já na meia-idade, acabou por mudar mesmo de sexo, tendo sido operado pelo médico que identifica como Dr. B, em Casablanca.
 O livro está muitíssimo bem escrito, com fluidez, rigor, emoção e exposição da autora na medida necessária à compreensão do tema. A escrita de Morris surge poética em algumas descrições feitas, que nos transportam mentalmente ao local por ela descrito. Por exemplo, na descrição que faz sobre os seus mergulhos no pequeno lago de Glyders, no País de Gales “Aí podia tomar banho sozinha. Logo pela manhã trepava pelos montes acima, para o lugar onde o lago se estendia, cercado de junças, muito sereno, bem próximo de uma garganta suave. A luz era pálida e brumosa, o ar acre, e em volta de mim os montes galeses erguiam-se, azuis, à claridade matinal”. Quando se começa a ler este livro é difícil interromper, pois a escrita é tão natural que parece estármos a ter uma conversa com a autora na sua casa em Gales, bebendo uma chávena de chá, enquanto nos relata a sua vida. E tal sensação não é afastada quando intuímos a solidão e momentos de sofrimento que viveu, por força da transexualidade (apesar da própria autora reconhecer que a sua vida foi muito mais feliz e acompanhada que a de outras pessoas que enfrentaram e enfrentam a mesma situação).
A transexualidade é um tema que raramente surge tratado na literatura a que o grande público tem acesso. Só por si esta edição já merece destaque (a edição inglesa original data da década de 70 do século passado). Mas, para além do interesse específico do tema, Morris consegue ir ainda mais longe. Mesmo quem vê a transexualidade de fora encontra aqui ampla matéria de reflexão. Sobre aquela, claro. Mas também sobre o modo como nos percepcionamos, a diferença entre género e sexo, de que forma este último nos define e o verdadeiro sentido do amor.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Um hotel com história


Hotel Continental Ho Chi Minh (Vietname) 
Situado numa das ruas principais – a Dâng Khoi - de Ho Chi Minh, o Hotel Continental continua a ser uma referência naquela cidade de Vietname. Antes da revolução comunista triunfar Ho Chi Minh era Saigão e a Rua Dânh Khoi era a Rue Catinat. O Hotel Continental era já o Hotel Continental. Para além de ser lindíssimo é uma referência na história da literatura. Graham Greene escreveu ali O Americano Tranquilo, Duras referiu-o por diversas vezes nas suas obras (por exemplo, O Amante da China do Norte) e Tiziano Terzani hospedou-se nele durante a guerra do Vietname, tal como outros correspondentes internacionais. Tudo isso parece esquecido hoje na cidade vietnamita. Enorme, recheada de cartazes do líder que lhe deu o nome e que convivem pacificamente com lojas das principais marcas de luxo mundiais, Ho Chi Minh fervilha de actividade. O passado colonial emerge aqui e ali. Por exemplo, neste hotel e no Rex (a poucos metros, era outro poiso dos correspondentes da imprensa internacional), na igreja de Notre Dâme (inspirada na homónima francesa) e no posto dos correios construído à frente daquela última.
 Mas dos escritores ocidentais que referi, nada se diz. Mesmo de Duras, nascida na antiga Indochina francesa, apenas encontrei uma edição em inglês de O Amante. Apagados da vida literária de uma cidade onde se encontram já os best-sellers sentimentais do Ocidente (incluindo Nicholas Sparks) e obras panegíricas sobre o grande líder. Mas não faz mal. Quem conhece o mapa literário não precisa de sinais para chegar ao sítio que lhe interessa. E o Hotel Continental, com o seu restaurante Le Bourgeois, ali se mantém, com uma leve nota de subversão. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A vida de sonho de Sukhanov, Olga Grushin

As razões do sucesso ou fracasso de um livro nem sempre são evidentes. Não faltam exemplos de obras medíocres que conhecem êxito transitório ou permanente. E também não são raros os casos de livros magníficos com carreiras muito discretas junto do público e da crítica. A vida de sonho de Suhkanov é, para mim, uma situação de flagrante injustiça. Passou e mantém-se quase desconhecido no nosso país quando é uma pequena obra-prima. O título do livro é-lhe dado pelo nome do protagonista. Quando a acção se inicia Andrei Suhkanov é um caso de sucesso no aparelho soviético. Casado com o amor da sua vida, pai de dois filhos, vive num apartamento num luxuoso bairro de Moscovo e é o director da mais importante revista de arte da URSS. No entanto, na construção perfeita que é a sua vida surgem já pequenas fissuras. A indiferença da mulher, a ingratidão e falhas de carácter dos filhos e o facto de toda a sua vida profissional se basear numa mentira. Há mais de vinte anos Suhkanov abdicou da sua liberdade, tecendo loas à arte colectivista soviética e denegrindo todas as demais expressões artísticas reduzindo-as a subprodutos burgueses. Tem agora de escrever um artigo onde demonstre que Pablo Picasso é um fraco artista, indigno da comoção e aplauso públicos que vem recebendo. O génio de Picasso é o derradeiro desafio à consciência de Suhkanov. Para adensar as dificuldades, um antigo rival da juventude, que manteve a sua integridade pagando o preço que o regime soviético cobrava, reentra na sua vida. São estas as linhas principais do conflito que faz esta obra.
Olga Grushin
Este foi o romance de estreia de Olga Grushin, escritora nascida em Moscovo e a viver há anos nos Estados Unidos da América. Demonstra domínio da técnica narrativa, tem personagens consistentes e a acção prende do início ao fim. Acompanhamos o protagonista enquanto o mesmo assiste ao desmoronar das bases em que construiu a sua vida. 
Aquando da publicação do original recebeu diversas nomeações e prémios (ver aqui). No nosso país, porém, não teve grande sucesso. Comprei-o numa feira do livro das que vão existindo nas estações de metro em lisboa por ter lido a sinopse na contracapa, o que me aguçou a curiosidade. Desde então tenho-o oferecido a vários amigos (na última Feira do Livro o preço eram uns inacreditáveis €4,00), pois acho-o uma obra imperdível. Ao que sei nenhuma das obras posteriores de Olga Grushin foi publicada entre nós, o que é uma pena.