Cansado/a do planeta Terra? Este livro pode ser a solução para umas férias diferentes. Com muita informação científica e também com doses generosas de imaginação, as duas autoras mostram o que fazer em cada um dos planetas que compõem o sistema solar, para ter umas férias únicas. As ilustrações são lindas e ideias não faltam neste livro que vi há dias à venda. Agora que as férias estão a chegar ao fim (pelo menos as minhas) é uma leitura inspiradora. E quem sabe se o que hoje parece ficção científica não virá um dia a ser uma opção real?
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
domingo, 27 de agosto de 2017
Histórias Etíopes, Manuel João Ramos
Por estes dias, a temperatura na capital da Etiópia ronda os 17ºC. A humidade situa-se pelos 86%. Adis Abeba dista de Lisboa cerca de 12 horas de voo, sem
contar com os tempos de pausa, pois não há ligação directa. Juntem-se as
dificuldades do fuso horário e as inerentes a equacionar eventuais perigos da
viagem e talvez a deslocação ao reino atribuído a Preste João das Índias não
possa ser decidida e levada a cabo por impulso.
E,
no entanto, a Etiópia, destino que pode parecer improvável num primeiro
momento, está longe de ser uma terra estranha para os portugueses. A improbabilidade assenta não apenas na lonjura, mas também no carácter trágico da história recente deste país. Mas um povo é sempre muito mais do que as suas tragédias. E é isso que este livro de Manuel João Ramos, antropólogo, nos permite descobrir.
O Preste
João pode nunca ter existido. Mas as rainhas cristãs, que receberam
os nossos antepassados quando estes ali chegaram no século XVI, não são ficções, mas personagens verdadeiras. É sobre elas e sobre a presença dos portugueses naquele país africano
que incide esta obra de Manuel João Ramos. Mas não só. Pela sua escrita e pelos
seus desenhos visitamos diversas cidades daquele país africano, conhecemos
figuras do seu povo, passeamos pelo passado e pelo presente da Etiópia, guiados
por narrativas orais que sobreviveram ao tempo. No final, fica um sentimento de
proximidade de que não suspeitava quando iniciei esta leitura. E uma certa
vontade de um dia, quem sabe, aventurar-me a tomar um avião com rumo a Adis
Abeba.
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Os Cinco e O Segredo dos Templários
O Verão tem destas coisas: traz-nos recordações
há muito esquecidas, também de leituras de infância. Os Templários são uma
inspiração constante na literatura ocidental, quer na ficção, quer no ensaio. E
também na literatura infantil, como bem demonstra este livro dos Cinco que
desencantei há dias. Primeiro duvidei mesmo de o ter já lido, mas à medida que
ia virando as páginas a história veio-me à memória. As personagens são de Enid
Blyton, o texto de Serge Rozenzweig e o desenho de Bernard Dufosse. E, claro, o
famoso tesouro dos Templários tem aqui o papel principal.
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Ghandi, A minha vida e as minhas experiências com a verdade
Ao
lado de Nelson Mandela, Ghandi é dos políticos mais admirados do século XX. Não
porque fosse isento de defeitos. Mas porque procurava superar-se e por se ter
mantido fiel aos seus ideais. Esta é a sua autobiografia. Nela reflecte no seu
percurso vivencial, dá conta das suas dificuldades e relata as impressões que
colheu sobre a sua época. Escreve de forma clara e assume os seus erros.
Questionada sobre os livros que a influenciaram Marguerite Yourcenar referiu esta obra, indicando que a releu sempre com grande proveito. Hoje celebra-se
mais um aniversário da independência da Índia. Razão mais do que suficiente para
deixar aqui esta referência a um livro que tenho vindo a descobrir
paulatinamente.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Durrell e Miller
“Se,
como diz, não pode escrever BONS livros, então não escreva. Não escreva nada,
literalmente. Fique quieto. Guarde lá dentro. Deixe acumular. Deixe explodir
dentro de si. Posso compreender Homero dormitando. Mas isso é diferente de
Homero escrevendo oculto por um pseudónimo. Um homem pode cair, pode realizar
obra indigna dele, pode enlouquecer. Mas nunca deve incarnar deliberadamente
uma personalidade menor, um fantasma, um substituto.”
Henry
Miller para Lawrence Durrel, Correspondência, pág. 128.
sábado, 12 de agosto de 2017
Correspondência, Lawrence Durrell e Henry Miller
Os
nossos dias são marcados por relações volúveis em que o simples facto de se
iniciar um relacionamento amoroso, mudar de trabalho ou alterar a residência
levam ao afastamento de pessoas que se tinham como amigas. Também por isso
esta colectânea de cartas trocadas entre Lawrence Durrell e Henry Miller é
deliciosa. Num tempo em que não havia internet e os contactos por telefone eram
raros, os dois escritores lograram construir uma amizade epistolar com um ou
outro encontro presencial, numa cumplicidade que se prolongou durante décadas.
A
primeira carta é de Durrell. Data de Agosto de 1935 e foi enviada de Corfu. Nela
o escritor inglês dirige-se pela primeira vez ao autor norte-americano para lhe
dar conta do quanto gostou de Trópico de Câncer. A correspondência segue de
seguida, primeiro ainda com um tom formal (Sr Durrell e Sr. Miller) ganhando
gradual intimidade (Larry e Henry). E de que se escrevem os amigos? De tudo.
Apoiam-se e encorajam-se mutuamente, falam sobre a vida pessoal, partilham
projecto, gostos e embirrações. Quando as cartas se iniciam é Miller que é famoso, apesar da colagem que é feita ao mesmo do rótulo de escritor pornográfico. Durrell conforta-o ao longo dos anos, afirmando que o tempo de Miller, em que será verdadeiramente reconhecido, ainda não chegou. Quanto a Miller encoraja Durrell, procura oportunidades para o dar a conhecer e regozija-se com o êxito de O Quarteto de Alexandria. Não há sombra de inveja ou ciúme entre ambos, provando a verdade da frase de Demócrito que abre o prefácio da edição portuguesa "O acordo das ideias engendra a amizade".
Durrell, ligado ao British Information Office,
escreve a Miller dos sítios onde vai sendo colocado e outros que vai conhecendo
em viagem. Queixa-se amargamente da sua estadia em Alexandria admitindo, porém,
que a cidade egípcia lhe dá imenso material de escrita. Miller, mais
sedentário, assenta em Big Sur, Califórnia, de onde envia grande parte das
cartas. A troca de cartas sobrevive às vicissitudes pessoais e profissionais e
mesmo às dificuldades de correio decorrentes da II Guerra Mundial. A publicação
das mesmas foi feita com o acordo dos dois escritores, apesar da resistência
inicial de Durrell, cioso da sua vida privada (que, aliás, como lhe fez saber
Miller surge apenas entrevista, atenta a sua natural reserva).
Por cá, foram publicadas pela Editora Ulisseia em 1964 (encontrei-as num alfarrabista, claro).
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
Enigma, História de uma mudança de sexo, Jan Morris
Jan
Morris é uma das mais conhecidas escritoras de viagens da actualidade. Antes
disso, formou-se em Oxford, foi soldado ao serviço do exército inglês e
jornalista. Tem sido também uma viajante infatigável, tendo percorrido, em
serviço ou por prazer o que parece ser o mundo todo. Neste livro relata-nos a
sua vida e o caminho percorrido desde que se apercebeu que, tendo nascido com o
aspecto exterior de um menino, sentia-se, na verdade, menina. Morris
compreendeu cedo a sua situação. Teria, segundo escreve, cerca de três ou
quatro anos. A partir daí foi tentando encontrar o seu lugar no mundo, tendo
mesmo casado e sido pai de cinco filhos. Já na meia-idade, acabou por mudar
mesmo de sexo, tendo sido operado pelo médico que identifica como Dr. B, em
Casablanca.
O livro está muitíssimo bem escrito, com
fluidez, rigor, emoção e exposição da autora na medida necessária à compreensão
do tema. A escrita de Morris surge poética em algumas descrições feitas, que
nos transportam mentalmente ao local por ela descrito. Por exemplo, na
descrição que faz sobre os seus mergulhos no pequeno lago de Glyders, no País
de Gales “Aí podia tomar banho sozinha. Logo pela manhã trepava pelos montes
acima, para o lugar onde o lago se estendia, cercado de junças, muito sereno,
bem próximo de uma garganta suave. A luz era pálida e brumosa, o ar acre, e em
volta de mim os montes galeses erguiam-se, azuis, à claridade matinal”. Quando
se começa a ler este livro é difícil interromper, pois a escrita é tão natural
que parece estármos a ter uma conversa com a autora na sua casa em Gales,
bebendo uma chávena de chá, enquanto nos relata a sua vida. E tal sensação não
é afastada quando intuímos a solidão e momentos de sofrimento que viveu, por
força da transexualidade (apesar da própria autora reconhecer que a sua vida
foi muito mais feliz e acompanhada que a de outras pessoas que enfrentaram e
enfrentam a mesma situação).
A
transexualidade é um tema que raramente surge tratado na literatura a que o
grande público tem acesso. Só por si esta edição já merece destaque (a edição inglesa original data da década de 70 do século
passado). Mas, para além do interesse específico do tema, Morris consegue ir
ainda mais longe. Mesmo quem vê a transexualidade de fora encontra aqui ampla
matéria de reflexão. Sobre aquela, claro. Mas também sobre o modo como nos
percepcionamos, a diferença entre género e sexo, de que forma este último nos
define e o verdadeiro sentido do amor.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Um hotel com história
![]() |
| Hotel Continental Ho Chi Minh (Vietname) |
Situado
numa das ruas principais – a Dâng Khoi - de Ho Chi Minh, o Hotel Continental
continua a ser uma referência naquela cidade de Vietname. Antes da revolução
comunista triunfar Ho Chi Minh era Saigão e a Rua Dânh Khoi era a Rue Catinat. O Hotel Continental era já o Hotel Continental. Para além de ser lindíssimo é
uma referência na história da literatura. Graham Greene escreveu ali O Americano Tranquilo, Duras referiu-o
por diversas vezes nas suas obras (por exemplo, O Amante da China do Norte) e Tiziano Terzani hospedou-se nele
durante a guerra do Vietname, tal como outros correspondentes internacionais.
Tudo isso parece esquecido hoje na cidade vietnamita. Enorme, recheada de
cartazes do líder que lhe deu o nome e que convivem pacificamente com lojas das
principais marcas de luxo mundiais, Ho Chi Minh fervilha de actividade. O
passado colonial emerge aqui e ali. Por exemplo, neste hotel e no Rex (a poucos
metros, era outro poiso dos correspondentes da imprensa internacional), na
igreja de Notre Dâme (inspirada na homónima francesa) e no posto dos correios
construído à frente daquela última.
Mas dos escritores ocidentais que referi, nada
se diz. Mesmo de Duras, nascida na antiga Indochina francesa, apenas encontrei
uma edição em inglês de O Amante. Apagados
da vida literária de uma cidade onde se encontram já os best-sellers
sentimentais do Ocidente (incluindo Nicholas Sparks) e obras panegíricas sobre
o grande líder. Mas não faz mal. Quem conhece o mapa literário não precisa de
sinais para chegar ao sítio que lhe interessa. E o Hotel Continental, com o seu
restaurante Le Bourgeois, ali se mantém, com uma leve nota de subversão.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
A vida de sonho de Sukhanov, Olga Grushin
As
razões do sucesso ou fracasso de um livro nem sempre são evidentes. Não faltam
exemplos de obras medíocres que conhecem êxito transitório ou permanente. E
também não são raros os casos de livros magníficos com carreiras muito
discretas junto do público e da crítica. A
vida de sonho de Suhkanov é, para mim, uma situação de flagrante injustiça.
Passou e mantém-se quase desconhecido no nosso país quando é uma pequena
obra-prima. O título do livro é-lhe dado pelo nome do protagonista. Quando a
acção se inicia Andrei Suhkanov é um caso de sucesso no aparelho soviético. Casado
com o amor da sua vida, pai de dois filhos, vive num apartamento num luxuoso
bairro de Moscovo e é o director da mais importante revista de arte da URSS. No
entanto, na construção perfeita que é a sua vida surgem já pequenas fissuras. A
indiferença da mulher, a ingratidão e falhas de carácter dos filhos e o facto
de toda a sua vida profissional se basear numa mentira. Há mais de vinte anos
Suhkanov abdicou da sua liberdade, tecendo loas à arte colectivista soviética e
denegrindo todas as demais expressões artísticas reduzindo-as a subprodutos
burgueses. Tem agora de escrever um artigo onde demonstre que Pablo Picasso é
um fraco artista, indigno da comoção e aplauso públicos que vem recebendo. O
génio de Picasso é o derradeiro desafio à consciência de Suhkanov. Para adensar
as dificuldades, um antigo rival da juventude, que manteve a sua integridade
pagando o preço que o regime soviético cobrava, reentra na sua vida. São estas
as linhas principais do conflito que faz esta obra.
![]() |
| Olga Grushin |
Este
foi o romance de estreia de Olga Grushin, escritora nascida em Moscovo e a
viver há anos nos Estados Unidos da América. Demonstra domínio da técnica
narrativa, tem personagens consistentes e a acção prende do início ao fim. Acompanhamos o protagonista enquanto o mesmo assiste ao desmoronar das bases em que construiu a sua vida.
Aquando da publicação do original recebeu diversas nomeações e
prémios (ver aqui). No nosso país, porém, não teve grande sucesso. Comprei-o numa feira do
livro das que vão existindo nas estações de metro em lisboa por ter lido a
sinopse na contracapa, o que me aguçou a curiosidade. Desde então tenho-o oferecido
a vários amigos (na última Feira do Livro o preço eram uns inacreditáveis
€4,00), pois acho-o uma obra imperdível. Ao que sei nenhuma das obras
posteriores de Olga Grushin foi publicada entre nós, o que é uma pena.
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