quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A vida de sonho de Sukhanov, Olga Grushin

As razões do sucesso ou fracasso de um livro nem sempre são evidentes. Não faltam exemplos de obras medíocres que conhecem êxito transitório ou permanente. E também não são raros os casos de livros magníficos com carreiras muito discretas junto do público e da crítica. A vida de sonho de Suhkanov é, para mim, uma situação de flagrante injustiça. Passou e mantém-se quase desconhecido no nosso país quando é uma pequena obra-prima. O título do livro é-lhe dado pelo nome do protagonista. Quando a acção se inicia Andrei Suhkanov é um caso de sucesso no aparelho soviético. Casado com o amor da sua vida, pai de dois filhos, vive num apartamento num luxuoso bairro de Moscovo e é o director da mais importante revista de arte da URSS. No entanto, na construção perfeita que é a sua vida surgem já pequenas fissuras. A indiferença da mulher, a ingratidão e falhas de carácter dos filhos e o facto de toda a sua vida profissional se basear numa mentira. Há mais de vinte anos Suhkanov abdicou da sua liberdade, tecendo loas à arte colectivista soviética e denegrindo todas as demais expressões artísticas reduzindo-as a subprodutos burgueses. Tem agora de escrever um artigo onde demonstre que Pablo Picasso é um fraco artista, indigno da comoção e aplauso públicos que vem recebendo. O génio de Picasso é o derradeiro desafio à consciência de Suhkanov. Para adensar as dificuldades, um antigo rival da juventude, que manteve a sua integridade pagando o preço que o regime soviético cobrava, reentra na sua vida. São estas as linhas principais do conflito que faz esta obra.
Olga Grushin
Este foi o romance de estreia de Olga Grushin, escritora nascida em Moscovo e a viver há anos nos Estados Unidos da América. Demonstra domínio da técnica narrativa, tem personagens consistentes e a acção prende do início ao fim. Acompanhamos o protagonista enquanto o mesmo assiste ao desmoronar das bases em que construiu a sua vida. 
Aquando da publicação do original recebeu diversas nomeações e prémios (ver aqui). No nosso país, porém, não teve grande sucesso. Comprei-o numa feira do livro das que vão existindo nas estações de metro em lisboa por ter lido a sinopse na contracapa, o que me aguçou a curiosidade. Desde então tenho-o oferecido a vários amigos (na última Feira do Livro o preço eram uns inacreditáveis €4,00), pois acho-o uma obra imperdível. Ao que sei nenhuma das obras posteriores de Olga Grushin foi publicada entre nós, o que é uma pena. 

Sem comentários:

Enviar um comentário