sábado, 12 de agosto de 2017

Correspondência, Lawrence Durrell e Henry Miller

Os nossos dias são marcados por relações volúveis em que o simples facto de se iniciar um relacionamento amoroso, mudar de trabalho ou alterar a residência levam ao afastamento de pessoas que se tinham como amigas. Também por isso esta colectânea de cartas trocadas entre Lawrence Durrell e Henry Miller é deliciosa. Num tempo em que não havia internet e os contactos por telefone eram raros, os dois escritores lograram construir uma amizade epistolar com um ou outro encontro presencial, numa cumplicidade que se prolongou durante décadas.
A primeira carta é de Durrell. Data de Agosto de 1935 e foi enviada de Corfu. Nela o escritor inglês dirige-se pela primeira vez ao autor norte-americano para lhe dar conta do quanto gostou de Trópico de Câncer. A correspondência segue de seguida, primeiro ainda com um tom formal (Sr Durrell e Sr. Miller) ganhando gradual intimidade (Larry e Henry). E de que se escrevem os amigos? De tudo. Apoiam-se e encorajam-se mutuamente, falam sobre a vida pessoal, partilham projecto, gostos e embirrações. Quando as cartas se iniciam é Miller que é famoso, apesar da colagem que é feita ao mesmo do rótulo de escritor pornográfico. Durrell conforta-o ao longo dos anos, afirmando que o tempo de Miller, em que será verdadeiramente reconhecido, ainda não chegou. Quanto a Miller encoraja Durrell, procura oportunidades para o dar a conhecer e regozija-se com o êxito de O Quarteto de Alexandria. Não há sombra de inveja ou ciúme entre ambos, provando a verdade da frase de Demócrito que abre o prefácio da edição portuguesa "O acordo das ideias engendra a amizade". 
Durrell, ligado ao British Information Office, escreve a Miller dos sítios onde vai sendo colocado e outros que vai conhecendo em viagem. Queixa-se amargamente da sua estadia em Alexandria admitindo, porém, que a cidade egípcia lhe dá imenso material de escrita. Miller, mais sedentário, assenta em Big Sur, Califórnia, de onde envia grande parte das cartas. A troca de cartas sobrevive às vicissitudes pessoais e profissionais e mesmo às dificuldades de correio decorrentes da II Guerra Mundial. A publicação das mesmas foi feita com o acordo dos dois escritores, apesar da resistência inicial de Durrell, cioso da sua vida privada (que, aliás, como lhe fez saber Miller surge apenas entrevista, atenta a sua natural reserva). 
Por cá, foram publicadas pela Editora Ulisseia em 1964 (encontrei-as num alfarrabista, claro). 

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