Já
não resta muito da presença judaica na Lisboa antiga. O tempo e sobretudo o terramoto
de 1755 encarregaram-se de esbater essa presença. Há a Rua da Judiaria em
Alfama e o monumento no Largo de S. Domingos, homenagem aos que perecerem em 1506.
E há também a recordação na obra dos escritores portugueses. Há uns dias atrás,
quando ia a passar na Praça do Rossio onde outrora tinham lugar os autos-de-fé,
veio-me à memória o romance de Camilo Castelo Branco, o Judeu. Escrito em dois
volumes baseia-se na vida de António José Silva, dramaturgo português do século
XVIII, autor de obras como a comédia As
guerras de Alecrim e Manjerona. Mas a vida de António José foi tudo menos
uma comédia. Perseguido e torturado pela inquisição sob a acusação de ser judeu
(era, de facto, cristão-novo) acabou por ser executado num auto-de-fé. É dessa
matéria que se compõe a narrativa de Camilo Castelo Branco, num livro que é uma
homenagem ao amor e à amizade, valores que compõem a luz deste romance, por oposição
às trevas do preconceito e da ignorância. Na escola não gostei de ler Amor de Perdição. O expoente máximo do
romantismo português pareceu-me excessivo e os amores de Teresa, Simão e
Mariana estiveram longe de me cativar. Mas este O Judeu, a meu ver, devia ser de leitura obrigatória e parece-me o
melhor livro de Camilo.
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
terça-feira, 26 de setembro de 2017
O mistério de Maria do Céu, Alice Ogando
Encontrei
este livro num alfarrabista e comprei-o porque gostei da capa e me intrigou o
título. Afinal, que mistério poderia ter uma menina com um ar tão puro e casto?
Foi só há uns dias atrás que me dediquei à sua leitura. É um livro editado nos
anos 40, sendo a autora portugesa. A história é simples: uma rapariga da aldeia
(Maria do Céu) chega a Lisboa para reencontrar o seu amigo de infância, Rui
S.Diogo. Ela é uma órfã pobre e ele um herdeiro que se julga mais rico do que
efectivamente é. Apesar de Rui S.Diogo desbaratara sua fortuna e viço em
Lisboa não é destituído de carácter e o reencontro com Maria Alice fá-lo
repensar as suas escolhas de vida. O resto, é o habitual conjunto de encontros
e desencontros até ao final feliz.
Apesar da previsibilidade do enredo, esta foi uma leitura interessante. Primeiro, aqui
e ali encontramos umas notas de desconformidade com o guião esperado. Maria do Céu tem
espírito e sabe dar respostas à altura e apesar do ambiente casto que envolve a
narrativa há, de vez em quando, uns apontamentos de sensualidade. Bem disfarçados e
medidos, mostrando a valia da escritora. Por outro lado, há aqui uma homenagem
a uma oposição clássica entre o campo/aldeia (lugar de verdade, de pureza e de
uma vida com sentido) e a cidade (onde habitam a perdição e a falsidade) típica da literatura portuguesa. Esta oposição
encontramo-la em A Cidade e as Serras de Eça e na obra de Camilo, por exemplo A
queda de um anjo. Uma nota ainda para Alice Ogando. Não a conhecia, mas sei
agora que foi uma escritora, tradutora e poetisa portuguesa. Caída no
esquecimento, mas a desenvoltura com que constrói uma história algo comum faz-me
desejar conhecer mais da sua escrita.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Novas Cartas do Extremo Ocidente, André Lévy
É sabido que o Oriente
encantou os europeus, maravilhados com um modo de vida tão diferente daquele
que conheciam. O encanto estendeu-se, não apenas aos artistas (pintores, músicos e escritores), mas também à população em geral. Mas o movimento em sentido
contrário também existiu. Prova disso é esta colecção de cartas organizada por
André Lévy e que dá conta do espanto dos viajantes chineses que estiveram em
França nos anos 20 do século passado.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Bibliotecas do mundo
A biblioteca do Convento
de Mafra no passado fim-de-semana, pela objectiva do meu amigo Luís Ramos. Outras bibliotecas dignas de nota neste artigo da
Buzzfeed. Para descobrir e quem sabe um dia ir até lá passear entre as suas estantes.
sábado, 16 de setembro de 2017
Grandes Mulheres da História Africana, David Sweetman
A
história é escrita pelos vencedores. Por isso, muitas vezes os verdadeiros
heróis e heroínas são esquecidos, estando omissos nos livros e, com o tempo, na
memória da Humanidade. Nem todos se conformam com este facto. David Sweetman
(também ele uma personagem especial como se pode ver no seu obituário) escreveu
este pequeno e precioso livro sobre mulheres que lideraram nações em África, apresentando-as por ordem cronológica, separadas por capítulos. De uma penada Sweetman faz cair dois mitos. O da África selvagem e sem organização até à
chegada dos europeus e da ausência de figuras femininas com relevo político na história daquele continente.
Encontrei o livro por mero acaso num alfarrabista e demorei algum tempo a
ocupar-me dele. Mas gostei muito de o ler, está escrito com simplicidade mas muita
informação e despertou-me a vontade de saber mais sobre a história de África.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
As navegações de S.Brandão
A
literatura de viagens é hoje um segmento que conquista muitos leitores. A
navegação de S. Brandão é a primeira crónica do género de que há notícia, pelo
menos no ocidente (data do século V). O seu autor era um monge irlandês que,
fosse por ofício ou por gosto, andou pela Europa. Deixando relato escrito de
quanto encontrou e viveu. As crónicas disseminaram-se pelo Velho Continente,
existindo diversas versões. Em Portugal estão identificadas duas. Foram estas
narrativas que alimentaram o imaginário dos homens medievais inspirando os
primeiros navegadores portugueses. Também eles, a seu tempo escreveram relatos emocionantes de aventuras únicas como fazer a viagem por terra ligando a Índia e Portugal ou a descoberta do Tibete.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Indochina, Jorge Vassallo
Comprei este livro antes de ir de férias para o
Sudeste Asiático mas acabei por apenas o ler no regresso. É uma escrita
simples, objectiva e coloquial, com sugestões e conselhos que vale a pena
conhecer caso se esteja a pensar ir ao Vietname, Laos ou Cambodja. Para além de
dar a conhecer estes países, o livro tem a indicação de contactos para realizar
algumas actividades e toca em alguns pontos sensíveis, como o turismo ético com
que todo o viajante a qualquer destes países acaba por se confrontar.
domingo, 10 de setembro de 2017
Notícias dos portugueses no Japão ...
Não
sei os Alphaville, que nos anos 80 cantavam o quase lendário Big in Japan foram de facto
àquele país oriental. Sinceramente, nem sequer consigo perceber bem o sentido
da letra. Mas os portugueses sim, estiveram lá e deixaram marcas ainda hoje
visíveis. Dois exemplos desse espírito aventureiro, separados por mais de 100
anos entre si, são Wenceslau de Morais e Ricardo Adolfo. Ambos foram viver para
o Japão, tendo casado com japonesas. Wenceslau escreveu diversas obras sobre o
país do sol nascente, para além de artigos para a imprensa da época. As Cartas
Japonesas fazem parte desse acervo, mas não o esgotam. Nelas, Morais escreve
longamente (e elogiosamente) sobre a história, civilização e sociedade
japonesas, respondendo à curiosidade que os portugueses, como os ocidentais em
geral, tinham sobre esse país. Adolfo escreve num registo diferente, coloquial, bem humorado e menos encantado, sobre o seu dia-a-dia
nipónico. Separam-nos mais de um século de diferença, com as consequentes
mudanças vividas na sociedade japonesa. Mas na prosa de um e outro há pontos em
comum que vale a pena descobrir.
Já conhecia o trabalho de Wenceslau de Morais
e a obra de Ricardo Adolfo, prenda de aniversário, foi um bom pretexto para o reler.
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
Herman Hesse, Uma biblioteca de Literatura Universal
O
prazer de ler e as escolhas de cada leitor dão pano para mangas e são tema de
muitos livros.
Este
é o contributo de Herman Hesse com um conjunto de pequenos ensaios. São simples
ler, ou não fosse Hesse conhecido pela clareza da escrita, límpida e objectiva,
mesmo quando o tema tratado é denso. De entre os textos gostei especialmente
daquele onde Hesse se dedica ao exercício de construir a biblioteca indispensável,
afastando o cânone ocidental em detrimento de leituras mais abrangentes, defendendo
a abertura às letras geograficamente mais longínquas. Por mim, revejo-me, nos
livros como na vida, nas palavras de Zenão, personagem da Obra ao Negro de
Marguerite Yourcenar: “Quem seria insensato ao ponto de morrer sem ter dado uma
volta pela sua prisão?”
E
sendo a leitura a forma mais cómoda de viajar, melhor do que ficarmos por perto
é, ao menos de vez em quando, arriscarmos ir ao outro lado do mundo.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
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