quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Judeu, Camilo Castelo Branco



Já não resta muito da presença judaica na Lisboa antiga. O tempo e sobretudo o terramoto de 1755 encarregaram-se de esbater essa presença. Há a Rua da Judiaria em Alfama e o monumento no Largo de S. Domingos, homenagem aos que perecerem em 1506. E há também a recordação na obra dos escritores portugueses. Há uns dias atrás, quando ia a passar na Praça do Rossio onde outrora tinham lugar os autos-de-fé, veio-me à memória o romance de Camilo Castelo Branco, o Judeu. Escrito em dois volumes baseia-se na vida de António José Silva, dramaturgo português do século XVIII, autor de obras como a comédia As guerras de Alecrim e Manjerona. Mas a vida de António José foi tudo menos uma comédia. Perseguido e torturado pela inquisição sob a acusação de ser judeu (era, de facto, cristão-novo) acabou por ser executado num auto-de-fé. É dessa matéria que se compõe a narrativa de Camilo Castelo Branco, num livro que é uma homenagem ao amor e à amizade, valores que compõem a luz deste romance, por oposição às trevas do preconceito e da ignorância. Na escola não gostei de ler Amor de Perdição. O expoente máximo do romantismo português pareceu-me excessivo e os amores de Teresa, Simão e Mariana estiveram longe de me cativar. Mas este O Judeu, a meu ver, devia ser de leitura obrigatória e parece-me o melhor livro de Camilo. 

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