“Sê
gentil com aqueles que encontras, pois todos estamos a travar uma grande
batalha”. Esta frase atribuída a Fílon de Alexandria veio-me à memória enquanto
lia o livro de James Rhodes, Instrumental. Rhodes é hoje um pianista de
sucesso, com obra publicada e a capacidade de encher salas de espectáculos por
todo o mundo. Nesta obra, James Rhodes fala das suas obras favoritas na música
clássica, tendo mesmo disponibilizado uma página onde podemos ouvi-las de
graça. A música, como o próprio diz, foi e é a sua salvação. Aquilo que lhe dá
maior prazer e satisfação e que o consegue fazer esquecer as dificuldades que
povoaram e ainda povoam a sua vida.
Este
não é apenas um livro de memórias musical. Como o próprio título indicia a vida
de James Rhodes tem muito mais que se lhe diga. A partir dos cinco anos, Rhodes
foi vítima de abusos sexuais, uma situação que se prolongou por vários anos. Mesmo
depois da situação ter conhecido um fim, a memória dos abusos persistiu quer
nas sequelas físicas, quer nas mentais. Rhodes fala de forma aberta sobre os
abusos que sofreu, explicando o modo como ainda hoje, passados tantos anos,
aqueles acontecimentos continuam a marcá-lo. Fala também sobre os seus consumos
de estupefacientes e sobre os problemas de saúde mental que o afectaram e
afectam. Fá-lo de forma directa, às vezes algo jocosa (defesa derradeira de
alguém que sofreu tanto, creio), com um estilo directo que não esconde o
sofrimento pelo qual passou. Um alerta para o modo como todos nós, enquanto
sociedade, percepcionamos as vítimas de crimes desta natureza. Mas este livro
não é apenas feito de trevas. Na vida de James Rhodes há também coisas boas que
ele partilha com os seus leitores e ouvintes. A música, claro. Como disse,
dá-nos a conhecer as suas partituras favoritas (e a história, por vezes,
dramática, de compositores como Bach, Chopin e Schumann), falando também sobre
a carreira que abraçou e claramente lhe traz felicidade. Mas também o filho, a
esposa e os amigos que foi encontrando. Rhodes iniciou tardiamente a sua
carreira como pianista. Aposta na divulgação e no contacto directo com o público.
E enaltece a capacidade de cada um de nós dar largas à criatividade que
trazemos guardada e que tantas vezes, por medo do julgamento alheio (e das
nossas próprias palavras) deixamos de explorar.
Em
suma, recomendo a leitura deste livro. E, claro, a audição das obras propostas
por James Rhodes e … do próprio James Rhodes.












