domingo, 29 de outubro de 2017

James Rhodes, Instrumental - Memória de música, medicina e loucura



“Sê gentil com aqueles que encontras, pois todos estamos a travar uma grande batalha”. Esta frase atribuída a Fílon de Alexandria veio-me à memória enquanto lia o livro de James Rhodes, Instrumental. Rhodes é hoje um pianista de sucesso, com obra publicada e a capacidade de encher salas de espectáculos por todo o mundo. Nesta obra, James Rhodes fala das suas obras favoritas na música clássica, tendo mesmo disponibilizado uma página onde podemos ouvi-las de graça. A música, como o próprio diz, foi e é a sua salvação. Aquilo que lhe dá maior prazer e satisfação e que o consegue fazer esquecer as dificuldades que povoaram e ainda povoam a sua vida.
Este não é apenas um livro de memórias musical. Como o próprio título indicia a vida de James Rhodes tem muito mais que se lhe diga. A partir dos cinco anos, Rhodes foi vítima de abusos sexuais, uma situação que se prolongou por vários anos. Mesmo depois da situação ter conhecido um fim, a memória dos abusos persistiu quer nas sequelas físicas, quer nas mentais. Rhodes fala de forma aberta sobre os abusos que sofreu, explicando o modo como ainda hoje, passados tantos anos, aqueles acontecimentos continuam a marcá-lo. Fala também sobre os seus consumos de estupefacientes e sobre os problemas de saúde mental que o afectaram e afectam. Fá-lo de forma directa, às vezes algo jocosa (defesa derradeira de alguém que sofreu tanto, creio), com um estilo directo que não esconde o sofrimento pelo qual passou. Um alerta para o modo como todos nós, enquanto sociedade, percepcionamos as vítimas de crimes desta natureza. Mas este livro não é apenas feito de trevas. Na vida de James Rhodes há também coisas boas que ele partilha com os seus leitores e ouvintes. A música, claro. Como disse, dá-nos a conhecer as suas partituras favoritas (e a história, por vezes, dramática, de compositores como Bach, Chopin e Schumann), falando também sobre a carreira que abraçou e claramente lhe traz felicidade. Mas também o filho, a esposa e os amigos que foi encontrando. Rhodes iniciou tardiamente a sua carreira como pianista. Aposta na divulgação e no contacto directo com o público. E enaltece a capacidade de cada um de nós dar largas à criatividade que trazemos guardada e que tantas vezes, por medo do julgamento alheio (e das nossas próprias palavras) deixamos de explorar.
Em suma, recomendo a leitura deste livro. E, claro, a audição das obras propostas por James Rhodes e … do próprio James Rhodes.  

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