quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Ética no Mundo Real, Peter Singer
domingo, 19 de novembro de 2017
O meu caminho para Kathmandu, Pedro Queirós
Há livros que nos tocam por nos recordarem que
o ser humano é capaz de actos de generosidade e altruísmo. Este é um deles. Pedro
Queirós, o autor, estava de férias no Nepal, quando o país foi sacudido por um
violento terramoto. Incapaz de permanecer indiferente ao sofrimento dos
nepaleses, Pedro Queirós desenvolveu um conjunto de iniciativas para os ajudar.
Entre elas, uma caminhada de 1200 km com partida da Índia e chegada ao Nepal.
Este é o relato dessa caminhada. Por entre estradas esquecidas, ao encontro de
alguns perigos (como matilhas de cães), com o sofrimento físico decorrente de
muitas horas a caminhar. Mas também com encontros felizes, estranhos que o
ajudam e a alegria de cumprir um objectivo.
Suponho que ao longo de tantos dias a caminhar,
para mais sozinho, muitos pensamentos e estados de espírito assolaram Pedro
Queirós. Mas não é isso que ele partilha connosco. Este livro parece ser um
primeiro diário de viagem, que quase pode ser utilizado como guia para quem
quiser fazer uma viagem semelhante. Tem informações práticas, pequenas
histórias e é ilustrado com belíssimas fotografias das gentes e lugares que
foram cruzando o olhar do viajante durante o seu périplo. lê-se rapidamente mas deixa em nós a vontade de reler e folhear uma e outra vez.
Um relato que vale a
pena conhecer e uma causa mais que merecedora de apoio.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Madame de Stael, Francine de Plessix Gray
É
um livro pequeno, cheio de informação e escrito de um modo que torna a sua
leitura compulsiva. Diria que um dos aspectos mais impressionantes no modo como
está redigido é a capacidade de condensar tanta informação e de a transmitir de
uma forma leve e ágil. Quase que acreditamos que Madame de Stael vai entrar
pela nossa casa, saída das páginas deste livro, tal a vivacidade com que
a sua história nos é narrada. Não sei se Madame de Stael foi a primeira
mulher moderna, como é escrito no subtítulo deste livro. Mas seguramente teve
uma vida cheia em que procurou realizar-se nas diversas vertentes da existência
humana.
Nascida e criada num meio privilegiado do ponto de vista económico,
social e cultural, os progenitores e, em particular, o pai, foram figuras
marcantes no seu desenvolvimento. Germaine (nome de baptismo) casou cedo com um
diploma sueco, a quem ficou a dever o apelido. Mas o casamento esteve longe de
constituir um empecilho. Conversadora brilhante (numa época em que a arte da
conversação era das mais admiradas), criou um salon de renome, antes e depois da Revolução Francesa. Mas foi
muito mais do que uma anfitriã bem falante. Madame de Stael viajou, leu,
pensou, escreveu romances e ensaios de história e filosofia política e relatos
de viagens. Abordou os mais variados temas, por exemplo, o papel das mulheres (acusando os mentores da
Revolução Francesa de terem traído os ideias do movimento, relegando aquelas
para um segundo plano ou escrevendo sobre a dificuldade de uma mulher culta e
livre encontrar parceiro à altura), mas também o papel
das paixões ou emoções na vida dos indivíduos e das nações (tema que ganha hoje
renovada actualidade). Foi, além disso, activista política. No período
do Terror empreendeu várias operações destinadas a salvar concidadãos seus a
quem, não fora a sua intervenção corajosa, a guilhotina esperava como destino
certo. As suas tomadas de posição no plano político, mereceram-lhe o ódio de Napoleão que a condenou ao exílio, procurando ainda
cortar-lhe os contactos com amigos e familiares. Sobre esse período escreveu as
memórisa Dix ans d’éxile, tendo viajado por toda a Europa.
Entre os seus amigos
e amantes, contavam-se nomes como Benjamin Constant ou Talleyrand. Mas, o que
este livro mostra, é que tendo a coragem de viver as suas paixões, Madame de
Stael não se deixou limitar ou definir por elas. Fez e foi muito mais. Depois
deste relato tão minucioso e apaixonante da sua vida e trajectória, fiquei
com grande vontade de ler os seus livros. Ora, um livro que nos dá vontade de
ler novos livros – como é o caso deste trabalho de Plessix Gray – só pode
ser altamente recomendável, claro.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Eça de Queirós, Cozinha Arqueológica
Quinhentos e sessenta jantares, duzentos
e trinta e dois almoços e cento e setenta e seis ceias. São estas as cifra da contabilidade queirosiana em matéria gastronómica, conforme escreve Loy Rolim, no prefácio do livro que vos trago hoje. Tais números dizem muito e já deixam antever que pela Eça de Queirós a comida estava longe de ser um assunto secundário. Isso mesmo é visível quando lemos as descrições detalhadas, capazes de fazer crescer água na boca, de tantas refeições nas suas obras. Como esquecer a monumental ceia que Artur Corvelo pagou à "nata" da intelectualidade portuguesa em A Capital? Ou as ceias que Luísa partilhava com o seu Jorge depois de ter aprendido com o primo Basílio as alegrias do amor sensual? Ou a refeição que Vítor, Genoveva e Dâmaso Salcede partilharam com outros convivas antes deste último ser "despedido" da Rua das Flores? Ou a redescoberta dos prazeres da gastronomia (e da alegria de viver) por Jacinto em A Cidade e as Serras? São apenas alguns exemplos do génio e do gosto de Eça de Queirós que me vieram à memória quando vi este pequeno opúsculo à venda. No artigo Cozinha Arqueológica (integrado nas Notas Contemporâneas) Eça louva a antiga cozinha grego e latina, recordando os seus grandes mestres entretanto esquecidos e os pratos favoritos de alguns imperadores. É um texto pequeno, mas cheio de informação. No final, até deixa umas receitas culinárias, extraídas de um livro de cozinha Apício, lendário cozinheiro romano. Para os mais corajosos ou, simplesmente, mais curiosos da matéria!
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Chimamanda Ngosi Adichie, Americanah
Numa palestra que deu, Chimamanda Ngozi Adichie pôs em relevo os perigos de lermos apenas um certo tipo de livros, provenientes de um mesmo espaço cultural. Nascida e criada na Nigéria, a escritora salientou o modo como a leitura de livros provenientes da Europa e dos Estados Unidos moldou a sua imaginação de criança, levando-a a concluir que as pessoas que neles eram retratadas (europeias, louras e de olhos azuis) podiam ser protagonistas de histórias. Esta perspectiva mudou quando começou a ler livros de outros continentes, designadamente daquele em que nasceu, África.
Atermo-nos
a uma só narrativa pode, de facto, criar em nós a convicção de que só quem é
protagonista dela pode efectivamente ter uma história para contar. Não é esse
também um dos riscos de ler apenas narrativas escritas por homens brancos? Como
Naomi Wolff escreveu em O mito da beleza, em tais obras são os homens os
habituais protagonistas. E, se tal papel é atribuído a uma mulher, é porque ela
tem uma característica que a distingue das demais. Essa característica, por
regra, prende-se com o seu aspecto físico, sendo vista como muito mais atraente
do que as mulheres comuns (sobre as quais não se escrevem livros, pois nada há
a contar). Mas, a visão masculina, deixa também a sua marca indelével na moral
da história. Por exemplo, se Anna Karenina fosse escrita por uma mulher, o
romance terminaria nos termos descritos por Tólstoi? Tenho dúvidas, sobretudo porque
creio que o escritor russo utilizou o destino dado às suas personagens
femininas como conto cautelar, submetido às suas crenças religiosas e morais.
Mas também para quem não se encontra na minoria e por isso mais facilmente se revê na produção cultural que merece destaque mais imediato, essa opção pode revelars-se emprobrecedora. Porque deixa de fora muitos e muitos mundos, que devemos procurar conhecer.
Americanah, é bem a demonstração de que é
salutar procurarmos leituras de diferentes espaços e tempos culturais, pela
diversidade de perspectivas que ganhamos e elasticidade daí decorrente. Só temos a ganhar, creio. O livro conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana da classe média que vai viver para os Estados Unidos da América, para aí prosseguir os seus estudos. Seguimos o seu percurso dentro e fora da universidade, as dificuldades sentidas e as alegrias do sucesso.
A
primeira surpresa deste livro é o
retrato da Nigéria que nos oferece. Estamos habituados a pensar em África como
um local de sofrimento e miséria. Mas as palavras de Chimamanda Ngozi Adichie
mostram-nos o que há para além disso. Esta é uma Nigéria com problemas sociais
e políciticos, sim. Mas também com livros, cinemas, universidades, jovens com
ambições e aspirações românticas, ricos, pobres, sonhadores, corrompidos e
corruptores, festas à beira da piscina e revistas femininas. Só isso, já é mudança
das habituais descrições, algo monocromáticas.
Outro
aspecto essencial do livro é o modo como a protagonista reflecte sobre as
questões da raça, um problema que lhe surge pela primeira vez, quando vai viver
para os Estados Unidos da América, para prosseguir os estudos. O que é ser
negro? Há uma diferença entre ser negro nascido nos EUA e ser proveniente de
África? Como é que se sente o racismo no dia-a-dia, não aquele gritante, mas o
mais subtil? E as relações inter-raciais? Podem passar à margem da questão da
raça, designadamente quando confrontadas com o mundo exterior? Confesso que
leio pouca literatura africana, pelo que para mim, foi uma experiência
especialmente enriquecedora, acompanhar as vivências de Ifemelu durante os anos
em que reside nos Estados Unidos. Vivências em que ela se descobre como negra e
também como mulher, introduzindo aqui também essa perspectiva. E não apenas nas grandes questões. O que é curioso e diferente do muito que lemos é conhecer o interior de Ifemelu, as suas emoções como rapariga também perante as experiências amorosas e sexuais. Ifemelu é uma protagonista de corpo inteiro.
Para além de um
retrato sociológico e psicológico excepcional, escrito de forma que torna a
leitura da obra compulsiva, este livro encerra ainda uma história de amor entre
Ifemelu e Obinze. Apaixonados desde a adolescência são separados no início da idade adulta, sendo evidente logo nas primeiras páginas que, não tendo ficado cristalizados, não se esqueceram um dos outro.
Com
este livro, a autora nigeriana ganhou um lugar de destaque na literatura
internacional. A meu ver, de forma inteiramente justificada. Não só pelos temas
abordados, mas pela consistência narrativa, pela capacidade de nos colocar
dentro da história, acompanhando e percebendo as emoções das personagens, pela
capacidade de mostrar as diferentes perspectivas de uma diferente realidade.
Para mim, é de leitura obrigatória e seguramente que lerei outros livros desta
escritora.
PS: O quadro é do pintor português Pedro Buisel.
PS: O quadro é do pintor português Pedro Buisel.
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