quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Chimamanda Ngosi Adichie, Americanah


    Numa palestra que deu, Chimamanda Ngozi Adichie pôs em relevo os perigos de lermos apenas um certo tipo de livros, provenientes de um mesmo espaço cultural. Nascida e criada na Nigéria, a escritora salientou o modo como a leitura de livros provenientes da Europa e dos Estados Unidos moldou a sua imaginação de criança, levando-a a concluir que as pessoas que neles eram retratadas (europeias, louras e de olhos azuis) podiam ser protagonistas de histórias. Esta perspectiva mudou quando começou a ler livros de outros continentes, designadamente daquele em que nasceu, África.
Atermo-nos a uma só narrativa pode, de facto, criar em nós a convicção de que só quem é protagonista dela pode efectivamente ter uma história para contar. Não é esse também um dos riscos de ler apenas narrativas escritas por homens brancos? Como Naomi Wolff escreveu em O mito da beleza, em tais obras são os homens os habituais protagonistas. E, se tal papel é atribuído a uma mulher, é porque ela tem uma característica que a distingue das demais. Essa característica, por regra, prende-se com o seu aspecto físico, sendo vista como muito mais atraente do que as mulheres comuns (sobre as quais não se escrevem livros, pois nada há a contar). Mas, a visão masculina, deixa também a sua marca indelével na moral da história. Por exemplo, se Anna Karenina fosse escrita por uma mulher, o romance terminaria nos termos descritos por Tólstoi? Tenho dúvidas, sobretudo porque creio que o escritor russo utilizou o destino dado às suas personagens femininas como conto cautelar, submetido às suas crenças religiosas e morais.
Mas também para quem não se encontra na minoria e por isso mais facilmente se revê na produção cultural que merece destaque mais imediato, essa opção pode revelars-se emprobrecedora. Porque deixa de fora muitos e muitos mundos, que devemos procurar conhecer. 
Americanah, é bem a demonstração de que é salutar procurarmos leituras de diferentes espaços e tempos culturais, pela diversidade de perspectivas que ganhamos e elasticidade daí decorrente. Só temos a ganhar, creio. O livro conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana da classe média que vai viver para os Estados Unidos da América, para aí prosseguir os seus estudos. Seguimos o seu percurso dentro e fora da universidade, as dificuldades sentidas e as alegrias do sucesso. 
A primeira surpresa deste livro é o retrato da Nigéria que nos oferece. Estamos habituados a pensar em África como um local de sofrimento e miséria. Mas as palavras de Chimamanda Ngozi Adichie mostram-nos o que há para além disso. Esta é uma Nigéria com problemas sociais e políciticos, sim. Mas também com livros, cinemas, universidades, jovens com ambições e aspirações românticas, ricos, pobres, sonhadores, corrompidos e corruptores, festas à beira da piscina e revistas femininas. Só isso, já é mudança das habituais descrições, algo monocromáticas. 
Outro aspecto essencial do livro é o modo como a protagonista reflecte sobre as questões da raça, um problema que lhe surge pela primeira vez, quando vai viver para os Estados Unidos da América, para prosseguir os estudos. O que é ser negro? Há uma diferença entre ser negro nascido nos EUA e ser proveniente de África? Como é que se sente o racismo no dia-a-dia, não aquele gritante, mas o mais subtil? E as relações inter-raciais? Podem passar à margem da questão da raça, designadamente quando confrontadas com o mundo exterior? Confesso que leio pouca literatura africana, pelo que para mim, foi uma experiência especialmente enriquecedora, acompanhar as vivências de Ifemelu durante os anos em que reside nos Estados Unidos. Vivências em que ela se descobre como negra e também como mulher, introduzindo aqui também essa perspectiva. E não apenas nas grandes questões. O que é curioso e diferente do muito que lemos é conhecer o interior de Ifemelu, as suas emoções como rapariga também perante as experiências amorosas e sexuais. Ifemelu é uma protagonista de corpo inteiro. 
Para além de um retrato sociológico e psicológico excepcional, escrito de forma que torna a leitura da obra compulsiva, este livro encerra ainda uma história de amor entre Ifemelu e Obinze. Apaixonados desde a adolescência são separados no início da idade adulta, sendo evidente logo nas primeiras páginas que, não tendo ficado cristalizados, não se esqueceram um dos outro. 

Com este livro, a autora nigeriana ganhou um lugar de destaque na literatura internacional. A meu ver, de forma inteiramente justificada. Não só pelos temas abordados, mas pela consistência narrativa, pela capacidade de nos colocar dentro da história, acompanhando e percebendo as emoções das personagens, pela capacidade de mostrar as diferentes perspectivas de uma diferente realidade. Para mim, é de leitura obrigatória e seguramente que lerei outros livros desta escritora. 

PS: O quadro é do pintor português Pedro Buisel. 

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