domingo, 17 de dezembro de 2017

As lições de Miss Austen

Orgulho e Preconceito (1940)


Numa cena célebre de Orgulho e Preconceito Mr. Darcy declara-se a Elisabeth Bennet. Diz-lhe que a paixão tomou a melhor sobre todos os argumentos razoáveis que ele mesmo elencou contra ela e que não tem outra opção senão pedi-la em casamento, mesmo reconhecendo que essa união lhe é desfavorável em todos os sentidos. É recusado, mas o mais interessante são as razões invocadas para tanto. Diz-lhe Elisabeth “Por mim, poderia perguntar por que, com o intuito tão evidente de me ofender e insultar, o senhor resolveu dizer que gosta de mim, contra a sua vontade, contra a sua razão e mesmo contra o seu carácter?”
O sucesso de Jane Austen não foi fruto do acaso ou de uma feliz coincidência. Nasceu numa família com hábitos culturais e sempre foi encorajada a ler e escrever. Começou por criar e encenar peças com os irmãos e, mais tarde, escreveu romances lidos em voz alta para a família. Foi o pai quem a encorajou a publicar, o que sucedeu pela primeira vez em 1811, com Sensibilidade e Bom Senso, trazido à estampa anonimamente (By a Lady, como se lia na capa). O livro teve um enorme êxito, de tal forma que houve quem defendesse que o autor só podia ser um homem fazendo-se passar por mulher. Mas o êxito experimentado em vida não impediu que com a morte Austen acabasse por cair num esquecimento que, embora nunca tenha sido total, não faria adivinhar o sucesso universal de que hoje goza. São milhões os que lêem os seus livros ou os reconhecem em filmes, séries de televisão e sequelas e prequelas de maior ou menor qualidade.
Não me tornei uma admiradora imediata de Jane Austen mal li os seus livros. Mas, à medida que os anos passam, vou-me apercebendo da absoluta genialidade da sua escrita, não só na forma, mas também na substância dos seus romances. Os seus livros causaram e causam incómodos a muitos, creio que por romper estereótipos e tabus. Num primeiro momento, podemos querer reduzir Austen a uma escritora do chá das cinco. Mas uma leitura mais atenta da sua obra afasta essa ilusão.
O século XIX trouxe consigo o romantismo, com as suas heroínas lânguidas, dominadas pelas emoções e incapazes de se guiarem pela razão, bússola essencial da vida aparentemente de acesso reservado aos homens e às mulheres cerebrais. O mito da paixão distingue de modo absoluto as emoções da razão. Hoje, esta dicotomia está afastada pela ciência. As emoções não são forças perante as quais nada podemos fazer senão claudicar e deixarmo-nos arrastar. Ao invés, ganha campo a tese de que elas próprias são maturadas e têm um lugar no processo decisório consciente. Distinguem-se, pois, as emoções da patologia delas, esta sim, capaz de nos arrastar para más escolhas ou situações de que não conseguimos libertar-nos.
Jane Austen viu tudo isto com clareza. Nos seus livros não há personagens toldadas pelas emoções ou descontroladas ao ponto de perderem a capacidade de escolher o seu caminho. Há Marianne de Sensibilidade e Bom Senso, uma adolescente impetuosa e imaginativa. Mas o livro é um romance de formação das duas protagonistas (aquela e a irmã Eleonor). Através da dicotomia entre ambas (sendo Eleonor, por contraponto à irmã mais nova, racional ao ponto de parecer destituída de qualquer fogo interior) Austen pretende mostrar que todo o ser humano (máxime as mulheres sobre quem escreve), tem de saber encontrar o ponto de equilíbrio entre as duas forças vitais. De todas as personagens saídas da pena de Austen, creio que Elisabeth Bennet é a que melhor procede àquela síntese, sendo o diálogo com que iniciei este texto o momento máximo dessa filosofia de vida. O que Austen conseguiu, nesse e em outros livros, foi mostrar a capacidade de raciocínio e de decisão das mulheres, apesar dos constrangimentos da época. É certo que ao tempo, para muitas delas e seguramente para as heroínas daquela escritora, a grande decisão é a escolha de marido. Alguém de quem gostem, mas que lhes seja conveniente, desde logo pelo carácter demonstrado (lembre-se que não é a fortuna que permite a nenhum dos pretendentes obter a ansiado sim, mas antes o reconhecimento das suas qualidades morais). Esta capacidade afasta diametralmente as heroínas austenianas de outras construções do século XIX, sobretudo as saídas da imaginação masculina. Por exemplo, Ema Bovary (Flaubert, 1856) com a sua incapacidade de encontrar um caminho de vida, perdida entre luxos e devaneios. Ou Anna Karenina (Tólstoi, 1877) que perde a sua posição social, filho e vida devido ao encanto mais que passageiro de uma bela figura vestida de farda de gala, o conde Vrónski. Ou a heroína do romance de Balzac, A mulher de trinta anos (1842), desfeita por um casamento infeliz para cuja saída apenas encontra a morte. Se olharmos à nossa volta e para nós mesmos (e a literatura é o nosso espelho), quem é que se deixou toldar pela fantasia e não viu o mundo e os seres humanos como eles são? Seguramente não as construções de Jane Austen que não se sacrificam, nem esperam sacrifícios desmesurados de ninguém em seu benefício, n’est pas?
Austen era mais velha do que qualquer daqueles escritores, tendo além disso morrido prematuramente (aos trinta e seis anos). O que é uma pena a todos os títulos. Tenho pensado muitas vezes em como seriam os livros que poderia ter escrito se tivesse vivido mais anos. E tenho a certeza que teria tido uma palavra a dizer sobre as figuras femininas saídas da imaginação (ou será da patologia imaginativa?) dos escritores que referi acima! E o que interessa isso para os nossos dias? Interessa muito mesmo. O que Jane Austen nos ensina é que quem nos ama nos valoriza e isso é algo que na escolha de um parceiro deve ser valorizado. O amor, tal como Austen no-lo mostra, não é feito de lágrimas, suspiros, repetições de agravos e perdições. O que num país como nosso, com números assustadores no quadro da violência doméstica, é uma lição que é cada vez mais urgente recolher. 

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